Reprovar aluno no terceirão? Tá certo isso?

E então que uma diretora de escola estadual em Blumenau foi denunciada por aprovar todos os alunos do terceirão supostamente porque eles já tinham pagado pela festa de formatura.

O post no blog que fez a tal denúncia está AQUI.

E no post tem uma carta de um aluno externando toda a sua indignação. O comentário do autor do post, professor, diz que estamos criando uma sociedade despreparada e sem a bagagem necessária para a vida adulta. A carta do aluno diz que alguns dos que foram aprovados precisavam até de 18 pontos no exame. Numa matemática simples, a gente conclui que para uma pessoa precisar de 18 pontos no exame (se os cálculos forem os mesmos que na minha época – Média Anual x 6 + Nota do Exame x 4 dividido por 10 = 50)) ela precisaria ter tirado média anual de -3,6, ou seja, a cada bimestre ter tirado 0,91 NEGATIVO. O que, sabemos, não é possível.

Mas sigamos.

Eu discordei de praticamente tudo o que li. Primeiro porque não acredito que reprovar gente no terceirão vá resolver alguma coisa. Achei que o moleque que reclamou usou um argumento completamente idiota, ele disse estar arrependido por ter estudado, disse que se soubesse que era só pagar pela formatura nem teria se esforçado… Ou seja, nem ele consegue ver a suposta importância de ser um bom aluno, só queria mesmo ferrar com os coleguinhas. Anonimamente, claro.

Eu sei bem o quanto é difícil estar em sala de aula como professor do jeito que as coisas estão organizadas hoje, e da maneira com que o sistema educacional brasileiro funciona, e em especial a escola estadual – que em Santa Catarina, pasme, não é democrática. O cargo de diretor é feito por indicação, geralmente por meio de acordos políticos. Sei que é extremamente complicado lidar com alunos, especialmente do sexto ano em diante (aliás, foi meu contato com o sexto ano, na época quinta série, que me fez desistir de lecionar inglês em escolas regulares), sei que eles não fazem praticamente nada do que é proposto, nem tarefas, nem trabalhos, e nem as atividades em sala de aula. Sei que alguns realmente provocam, deixam de fazer as coisas e ainda falam na cara do professor que sabe que não vai reprovar. Eu sei. É foda.

Mas o buraco, como sempre, é mais embaixo do que a simples raivinha do professor que não teve seus desejos atendidos. No final das contas (ou seja, no final do ano) o q eu pensava era: reprovar esse cara aí, afinal, VAI mudar alguma coisa? E minha experiência com repetentes diz q muda sim: pra pior.

E aprovar um aluno sem mérito, faz dele melhor? É justo? Esse aluno sai preparado para assumir vai saberlaoque, um vestibular, uma vaga no mercado? 

Não acho que está certo culpabilizar (e punir!!!) o aluno por uma falha que, a meu ver, é da instituição escolar como um todo. O sistema tá falido, os conteúdos são desconectados da realidade, o professor é despreparado, a estrutura tá sucateada, e, na boa, prepara pra vida porra nenhuma (perdoe o meu francês). Dá pra reprovar a escola e fazer ela repetir o ano?

 Eu venho de uma realidade onde a escola nunca me interessou, eu achava um saco, uma bosta, só ia pra fazer farra cazamiga. E zoava MESMO, hardcore, fumava na escola, pichava banheiro, xingava professor. E quase reprovei em todas as séries a partir da quinta. No segundo ano do ensino médio eu só não reprovei porque chorei até convencer o professor de física a me dar os pontos que eu precisava. Sério, não tem como explicar O QUANTO eu chorei. A real é que, por nota, por conteúdo assimilado, eu realmente deveria ter reprovado, sei lá, uns 3 anos dessa jornada. Agora, dá pra dizer que eu não to preparada pra vida porque caguei pra escola? Ou que eu não sirvo pra estudar?

 Não to falando que esses alunos do post no blog, que deveriam mas não foram reprovados, são Geórgias em potencial. To dizendo que a gente nunca sabe onde essas criaturas vão parar no futuro, e que não é esse desempenho ou esse interesse que vai definir isso. E realmente acho que reter aluno é perda de tempo, não traz nada de positivo – é punitivismo tout court. Só negativo, só fode com a autoestima do aluno, só faz ele se sentir um bosta e só cria mais um problema – os alunos repetentes são os que mais atrapalham a aula. E tenho pra mim que o terceirão é o ano mais inútil de todos, essa preparação obsessiva pro vestibular/ENEM, principalmente numa escola em que poucos alunos realmente tem a perspectiiva de cursar ensino superior, é o fim do mundo.

 Eu sou radicalmente contra a reprovação, acho que deveria ser simplesmente proibida e pronto. Acho que a função da escola é atrair o aluno, e se não tá atraindo é porque tem alguma coisa errada. Com a escola, não com a criança. Tem algumas pesquisas que alegam que aprender libera hormônios de prazer, então TODO MUNDO gosta de aprender. Mas depende o que tá aprendendo… Tá claro que o buraco é bem mais embaixo, que o problema da escola não é você, professor, individualmente preparar uma aula “digna de cursinho” (não sei se isso é elogio) ou não. O problema é sistêmico, estrutural e já começou lá em Comenius.

E ó, lamento informar, a tendência é reprovar cada vez menos, viu?

E sempre vale a pena lembrar a palestra sobre escola mais linda que já assisti, da Viviane Mosé, e em um dos trechos ela diz:

O modelo escolar que ainda predomina no Brasil, ele foi marcado por dois grandes fatores: a industrialização tardia e o regime militar. Inspirada na linha de montagem de uma fábrica, nossa escola se caracterizou pela fragmentação, pela segmentação como modo de ação. A nossa vida escolar se organiza em séries, como os produtos de uma linha de montagem. Saberes são separados uns dos outros, não têm conexão entre o conhecimento, e eles são completamente afastados da vida. O Ensino Médio chega a ter 12, 13 cadeiras. O tempo é dividido em aulas de 50 minutos, e tem sempre um sinal no meio. O espaço é segmentado, são múltiplas salas e corredores, não há convivência… A escola pra todos, a escola de massa, que queria produzir mão de obra para o mercado, ela nasceu como uma fábrica. O país precisava de gente nessa engrenagem que tava nascendo. E a ideia da escola como uma educação ampla, plena, que produzisse pessoas éticas, fortes, saudáveis, belas, corajosas, capazes de lidar com a frustração, pessoas maduras, isso não tava colocado na escola. Ao contrário, carregando ainda a herança do regime militar, que aconteceu no Brasil a partir de 64, a educação brasileira se tornou refém de um regime disciplinar. Ela chama de grade o currículo, ela chama de disciplina os conteúdos, ela chama de prova o dispositivo de avaliação. Essa escola eliminou a filosofia, a sociologia, os saberes críticos, reflexivos, a literatura… Não há arte na nossa escola. Durante mais de vinte anos foi proibido pensar na educação brasileira. Então repetir se tornou um hábito, acumular dados se tornou um hábito, um vício. Não há criatividade, inteligência, mas o bom comportamento, a ordem e a disciplina.

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4 comentários sobre “Reprovar aluno no terceirão? Tá certo isso?

  1. Aprovar aluno sem condições de aprovação é crime e quem faz isso está sujeito a processo pelo Ministério Público. Portanto não se trata da questão de concordar ou não. Lei é Lei. A diretora agiu fora da Lei e deve serve ser fiscalizada pelo MP.

  2. Meu Deus. E voce se diz educadora. Educar é dizer não. E se o aluno nao tem condições ele nao deve avançar. Não tenho a menor dúvida de que isso faz parte de interesses escusos, tais como manter um aluno da escola (nas escolas particulares) ou dizer à população que o ensino público é de qualidade pois os alunos aprendem. J a que a política nao muda, devemos, nós, educadores, mudar de postura. Dizendo não, que nao somos coniventes com tal entendimento. E, com todo o respeito, quem pensa assim nao deve estar em uma salade aulas ou em uma coordenação de escola. Deve na verdade estar bem longe dela!

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