O compasso moral

Eu tenho a impressão – ou será certeza? – que o período eleitoral é o equivalente político ao carnaval. Os 45 dias de campanha (e para muitos partidos com mais grana e menos escrúpulo, os meses que antecedem a campanha) nada mais são do que uma Festa da Chiquita muito, mas muito longa.

* Festa da Chiquita, para os que não sabem, é a festa profana que antecede o Círio de Nazaré, em Belém.

É o profano que antecede o sagrado momento do voto e da ressaca pós-eleições. Mas um profano muito pior do que o representado pelas festas carnavalescas ou pela Festa da Chiquita, porque é um período em que o senso ético é inversamente proporcional à estética das campanhas.

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Foto: José Cruz/Agência Brasil 04/09/2014- Brasília- DF, Brasil- O presidente do TSE, Dias Toffoli, conclui a assinatura digital e lacração dos sistemas eleitorais que serão usados nas eleições de outubro.

Às vezes eu me sinto o Grilo Falante, aquele bichinho que agia como a consciência do Pinóquio, impedindo – tentando impedir – ele de fazer as tranquinagens que queria. Eu sempre sou a chata que quer que as coisas sejam CORRETAS mesmo que isso signifique a perda de votos. Quando eu posso interferir, né. Na maioria dos casos, só posso assistir a distância coisas que eu não admitiria, mas que estão sempre amparadas em dispositivos legais ou na falta deles.

Coligações são a minha grande questão e a minha grande briga. Partidos que até ontem estavam em lados opostos do espectro político, repentinamente dão-se as mãos baseados na matemática – quantos votos essa legenda irá me trazer? Com argumentos de “se não fizermos isso, jamais seremos eleitos”.

E eu me pergunto: e daí?

Para mim, não existem fins que justifiquem meios. Foi seguindo essa máxima que o PT chegou onde chegou. Onde está o limite do quanto a nossa vara moral pode envergar sem simplesmente se quebrar? Onde está essa linha? E quem traça essa linha?

Para mim – talvez o sol em capricórnio explique – as coisas são bastante simples, preto no branco. Call me maniqueísta, não estou nem aí. Existe o certo, existe o errado, e o errado não vira menos errado só porque nos trará benefícios X ou Y. Não existe uma medida de erradice que pode nos guiar. Não podemos calcular: tal medida atinge apenas 5 pontos na escala de erradice, portanto podemos fazê-la e ainda estamos do lado do bem.

Nem tudo que é legal, é moral.

Eu estou partindo do pressuposto de que todo mundo que me lê sabe e concorda que o sistema político brasileiro é viciado e não existe reforma que dê conta. Que sim, é interessante termos representação, vereadores, deputados, prefeitos mas que não é exatamente essa representação que vai nos salvar da merda em que nos encontramos. Representatividade no executivo e legislativo também é meio, não fim. Meio para colocarmos nossas pautas em debate, meio para lutarmos por agendas mais inclusivas, meio para que nossa mensagem reverbere e para que sigamos construindo uma militância, militância de rua, essa sim, que vale.

A partir do momento em que você coloca a eleição de alguém como fim e começa a criar subterfúgios questionáveis para que esse fim seja atingido, meu amigo, você já está com as suas mãos sujas.

Eu não me importo em não ser eleita na primeira candidatura (como não me importei). Nem na segunda. Nem na terceira. E não me importo se não for eleita NUNCA. Me importo, muito mais, com as minhas mãos limpas. E essas eu as tenho.

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