As três drogas mais letais são totalmente legais.

Não existe resposta fácil nem solução milagrosa com relação à questão das drogas. Não existe nenhuma solução reformista que dê conta desse problema. Mas ainda assim, algumas coisas podem ser feitas. O argumento para uma reforma na legislação atual acaba caindo simplesmente no: não é que fumar maconha seja bom (talvez seja, quem sabe). Mas a guerra contra a maconha é pior.

Fiz uma jornada em busca de dados nacionais para não apenas traduzir o artigo abaixo (original AQUI), mas também trazê-lo para a realidade brasileira, que certamente é muito diferente da norte-americana. Mas sempre fico embasbacada com a dificuldade que é para um cidadão comum, como eu, encontrar dados simples sobre a situação nacional/estadual/municipal, seja lá qual for o assunto. Então vamos com esse mesmo, que pelo menos problematiza a questão de a maconha ser A droga demonizada enquanto estatisticamente drogas com efeitos bem mais devastadores são não apenas legalizadas como inclusive têm seu uso encorajado (cigarro ultimamente menos, mas álcool…). Vamos lá.

Enquanto os Estados Unidos (e também o Brasil) debate as reformas na política de drogas e a legalização da maconha, existe um aspecto sobre a guerra às drogas que permanece totalmente contraditória: algumas das drogas mais perigosas são legais.

Não acredita? Os dados disponíveis dos Centers for Disease Control and Prevention (CDC) (referentes a dados dos Estados Unidos) mostram que tabaco, álcool e analgésicos opiáceos foram responsáveis por mais mortes diretas do que qualquer outra droga em 2011. Essa tabela compara essas mortes por drogas usando os melhores dados disponíveis sobre mortes causadas por cocaína, heroína e maconha:

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Esse gráfico não é uma comparação perfeita. Claro, sabemos, que uma das motivações para o uso do tabaco e do álcool é justamente porque essas substâncias são legais e facilmente adquiridas. Outras substâncias talvez seriam muito mais mortais se estivessem tão disponíveis quanto o tabaco e o álcool. (As mortes vinculadas ao uso de heroína tem crescido desde 2010, chegando a 8.200 em 2013 e fazendo da heroína uma droga mais mortal que a cocaína.) E os dados do governo federal americano excluem algumas mortes, em particular aquelas mortes indiretas por drogas ilícitas. Esse gráfico se concentra em complicações de saúde diretas por todas essas drogas.

1) Tabaco

Quando o assunto é mortalidade, nenhuma substância sequer chega perto do tabaco. Para colocar esse risco em perspectiva, menos norte-americanos morrem de overdose + acidentes de tráfego + homicídio do que de problemas de saúd relacionados ao tabaco, como câncer de pulmão e problemas cardíacos.

O consumo de cigarros está vinculado a uma a cada cinco mortes nos Estados Unidos por ano, de acordo com o CDC. Aproximadamente 42 mil das 480 mil mortes são causadas por fumo passivo.

O uso de tabaco nos Estados Unidos diminuiu bastante nas últimas décadas, embora quase um a cada cinco alunos de ensino médio e adultos ainda fumassem em 2011. Os especialistas atribuem o declínio à múltiplos fatores, incluindo campanhas educativas, rótulos de alerta obrigatórios, proibição de fumar em lugares públicos e no trabalho, e aumento de impostos sobre produtos derivados do tabaco.

2) Alcool

Os problemas de saúde relacionados ao álcool, como doenças no fígado, causaram mais de 26 mil mortes em 2011. Mas o que não está incluso nessa conta é o número de mortes indiretas pelo álcool: quando se incluem doutras causas de morte como dirigir alcoolizado e outros acidentes, o número crese para 88 mil por ano.

Mesmo esse alto número pode esconder os riscos mais gerais do consumo de álcool. Um relatório anterior publicado no The Lancet lançou um olhar especial às 20 drogas mais populares e os riscos que elas oferecem no Reino Unido. Uma conferência com especialistas em drogas mensurou todos os fatores envolvidos – mortalidade, outros danos físicos, chances de desenvolver dependência, prejuízo das faculdades mentais, efeitos no crime e assim por diante – e deu a cada droga uma pontuação. O que eles concluíram? Álcool é, de longe, a droga mais perigosa para a sociedade como um todo.

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O que faz o álcool tão perigoso? Os efeitos à saúde por beber em excesso e a direção embriagada são os dois problemas óbvios. Mas há outros problemas grandes relacionados à agressão induzida pelo álcool, custos de produtividade econômica, adversidades familiares e até mesmo crime. (O álcool é um dos fatores em 40% dos crimes violentos, de acordo com o Conselho Nacional Americano de Alcoolismo e Dependência de Drogas.)

O relatório do The Lancet vem com algumas ressalvas. Ele não controla inteiramente a disponibilidade dessas drogas, então é possível que a heroína e o crack em particular estariam em uma posição mais alta no ranking se eles estivessem disponíveis tão prontamente quanto o álcol. E as descobertas são a respeito do Reino Unido, então as pontuações específicas provavelmente seriam um pouco diferentes para os Estados Unidos.

Para reduzir essas mortes, especialistas geralmente sugerem regulamentações mais rígidas, impostos e mais educação. Pesquisas anteriores descobriram que estados que vendiam álcool através de estabelecimentos estatais rigidamente regulados mantinham os preços mais altos, reduziam o acesso para a juventude, e diminuiam o consumo de bebida como um todo. E estudos mostram que taxação maior sobre o álcool podem reduzir o consumo e, como resultado, os problemas causados pela droga.

3) Analgésicos prescritos

Analgésicos opiáceos foram linkados a um aumento de mortes por overdose desde 1999. Essas mortes geralmente envolviam drogas múltiplas; o CDC descobriu que 31% das mortes causadas por overdose de drogas com analgésicos em 2011 também estavam relacionadas com benzodiazepinas, uma droga anti-ansiedade legal.

Se essas mortes associadas a analgésicos são uma epidemia, como alguns órgãos federais, estaduais e locais alegam, é um problema de debate semântico em círculos de políticas sobre drogas. Independente de como alguém rotula isso, o ponto em geral é que os analgésicos prescritos estão vinculados à milhares de mortes anualmente.

Os formuladores de políticas públicas responderam às mortes colocando restrições mais rígidas na distribuição de analgésicos por prescrição e fechando lojas ilegais, clínicas e farmácias que vendem analgésicos sem escrúpulos ou por razões não-médicas.

UMA FORMA DE REDUZIR ESSAS MORS PODE SER ATRAVÉS DO USO MEDICIAL DA MACONHA

Algumas pesquisas descobriram que esses tipos de ações acabaram empurrando alguns usuários de drogas para a heroína – mais potente e perigosa, indicando que há um delicado equilíbrio a se buscar quando os formuladores das políticas públicas consideram a restrição dos analgésicos.

Também há preocupações de que ao restringir demais o acesso aos analgésicos, torna-se também mais difícil para as pessoas que genuinamente precisam desses remédios para dores crônicas conseguirem comprá-los. Um relatório de 2011 do Institute of Medicine descobriu que muitos Americanos são sub-tratados em suas dores crônicas. E relatórios múltiplos sugerem que os médicos têm evitado trabalhar no tratamento de dores crônicas porque os obstáculos legais e regulamentares são tão grandes.

Uma maneira de reduzir as mortes relacionads a analgésicos pode ser o uso medicinal da maconha. Um estudo descobriu que estados que legalizaram a maconha para uso medicinal têm menor número de mortes relacionadas a analgésicos do que o esperado. Intuitivamente, faz sentido: maconha é um analgésico em potencial, então pode substituir opióides mais mortais e viciantes. Mas os especialistas alertam que esse campo de pesquisa precisa de muito mais estudo para verificar quanto essa relação entre maconha medicinal e analgésicos é uma causa e não apenas uma correlação.

E quanto às drogas ilícitas?

Não há dados sólidos ainda sobre os impactos menos diretos e de longo prazo do uso de drogas ilegais. Mas há algumas razões para imaginar que a escala de mortalidade em geral na no primeiro gráfico não mudaria muito com dados adicionais.

Tabaco é muito, muito mais moral do que todas as outras drogas combinadas, baseado nos números federais atuais. É difícil imaginar que qualquer outra coisa possa superar essa disparidade massiva.

Outra pesquisa sugere que a adição de mortes indiretas faria os resultados serem ainda piores para o álcool do que para as outras drogas. Um estudo concluiu que o álcool aumenta o risco de acidentes de trânsito fatais em 14 vezes, enquanto a maconha aumenta o risco em 2 vezes e narcóticos quase 3 vezes, sugerindo que o o álcool tem muito mais probabilidade de causar mortes acidentais do que qualquer outra substância.

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A mortalidde das drogas mais pesadas, como crack ou cocaína, também é limitada em parte porque muito poucas pessoas usam tais substâncias, especialmente a longo prazo. Em torno de 0,1% da população americana com 12 anos de idade ou mais declarou usar heroína e quase 0,6% declarou ter usado cocaína no último mês, de acordo com uma pesquisa federal de 2013. (Isso poderia mudar se drogas ilícitas fossem mais acessíveis.)

Com o uso da maconha em particular, ainda não está claro quais são os efeitos a longo prazo. A pesquisa sugere que o uso da maconha durante a adolescência pod levar a algumas consequências ruins, especialmente a piora de funções cognitivas. Mas estudos falharam em relacionar a maconha com doenças de pulmão, psicose e esquizofrenia.

Assista ao Ezra Klein falando sobre o assunto:

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