A escola e os meninos

Um tempo atrás alguém postou e várias pessoas compartilharam um vídeo sobre meninos na escola. No vídeo, uma mulher fala sobre como a escola não tem paciência com os nossos meninos. “O comportamento das meninas é considerado ideal nas escolas, os meninos são tratados como meninas defeituosas.” Por causa disso, meninos recebem notas piores, menos prêmios e têm menos chances de entrar na universidade.

E logo recebi uma matéria do site The Economist falando que, academicamente, o sexo masculino é o frágil. Segundo a matéria, existe uma mentalidade vigente em que não é legal para os meninos ter uma boa performance escolar, não é legal ser esperto. Os meninos adolescentes estão sendo deixados para trás pelas meninas.

Se até os anos 60 eram os meninos que chegavam mais longe na escola e tinham muito maior probabilidade de se formar, a gangorra mudou de lado. E os governos estão pirando. A Suécia tem financiado pesquisas sobre a “crise dos meninos”, e a Australia criou um programa de leitura chamado “Boys, Blokes, Books & Bytes”. E não podemos esquecer da Inglaterra fazendo campanha há anos pedindo por mais homens professores para ajudar os nossos meninos, um assunto sobre o qual eu falei AQUI.

A OECD publicou uma pesquisa em março falando a respeito, e declarou que garotos adolescentes tem 50% de chance a mais do que as garotas de fracassar em obter proficiência básica em matemática, leitura e ciências. E, consequentemente, maiores chances de desistir dos estudos.

O que me surpreendeu foi ninguém questionando a escola em todas essas matérias, vídeos e compartilhamentos. Questionando como a escola, o sistema de ensino, hoje, é uma bela porcaria. Ninguém (que eu tenha visto) questionou a maneira como a escola existe e é estruturada. Muito #mimimi sobre o que estamos fazendo com os nossos garotos e como podemos mudar a escola para que seja mais amigável com eles. Eu, particularmente, não acho que exista algo que possamos fazer pela escola porque acho que o sistema educacional é tão problemático na sua raiz que o único jeito de resolver seria implodir tudo e começar do zero. Não tem reforma que dê conta.

Eu não acho que as mulheres serem “sucessos acadêmicos” seja um “sucesso” de forma geral. Talvez e muito provavelmente até o contrário. Com uma análise bem rasa, por que as mulheres vão melhor na escola? Porque elas são educadas e socializadas desde muito cedo a serem dóceis, obedientes, submissas e a levarem as responsabilidades mais a sério do que os meninos. Esse papo todo de que “a mulher amadurece mais cedo”, sabe? Esse papo aí, ele é mentira, não tem nada de biológico nesse amadurecimento precoce das meninas, mas tem muito a ver com o fato de delegarmos mais responsabilidades à elas desde cedo (cuidados da casa e com os irmãos) do que delegamos aos meninos, e criarmos uma cultura da obediência como mandatória nas meninas enquanto a rebeldia e os atos de coragem são sempre encorajados nos meninos.

As meninas gastam em torno de cinco horas e meia por semana com suas tarefas de casa (dados dos EUA), uma hora a mais do que os meninos, que gastam mais tempo jogando video-game e… SENDO CRIANÇAS. Uma vez dentro da escola, os meninos não vêem a hora de sair, e eles tem duas vezes mais chances de declarar que a escola é um “desperdício de tempo”. O pedido da OECD é que os pais e os responsáveis pelas políticas públicas fujam da versão de masculinidade que ignora o sucesso acadêmico.

Tem problema com relação ao que ensinamos sobre performance de masculinidades aos nossos meninos? Claro que tem. Existe a possibilidade de professoxs darem notas mais altas a alunos que são educados, não brigam e mais todos os atributos mais comuns em meninas. Deveríamos criar meninos menos aflitos em serem os machões da turma? Sim, deveríamos. Mas não necessariamente porque essas são as qualidades que a escola espera deles. Ao mesmo tempo, deveríamos criar nossas meninas para serem mais ativas, mais bocudas, mais rebeldes. Sim, deveríamos.

Mulheres que vão para a universidade tem maiores probabilidades de se formar, e tipicamente recebem notas melhores. Mas homens e mulheres tendem a estudar diferentes disciplinas, onde as mulheres geralmente escolhem cursos relacionados à educação, saúde, artes e humanidades, enquanto homens estudam computação, engenharia e ciências exatas. O que eu também considero resultado de socialização e do que fazemos com essas crianças na escola – imagino que se você está aqui já sabe que não acredito em nenhum dom inato das pessoas em ser melhor nisso ou naquilo. Tudo que somos hoje é resultado de socialização. Não perca tempo me mandando pesquisas que dizem que o cérebro do homem é mais assim e o da mulher é mais assado.

As mudanças sociais fizeram mais para encorajar mulheres a encarar o ensino superior do que qualquer política pública. O advento da pílula anticoncepcional e o declínio do número de filhos fizeram ser mais fácil para as mulheres terem acesso ao mercado de trabalho. Conforme as mulheres foram saindo do ambiente doméstico para trabalhar, a discriminação se tornou menos aguda (menos não quer dizer que não persista até hoje). As meninas começaram a ver sentido em estudar, já que espera-se que mesmo elas tenham uma carreira. O aumento das taxas de divórcio reforçaram a importância de mulheres terem a capacidade de se proverem e sustentarem. Hoje em dia vemos ambição nas garotas que dificilmente veríamos em garotas de 1900-1950.

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Tem um livro da Hanna Rosin, “The End of Men and the Rise of Women” (O fim dos homens e o levante das mulheres) que é bem otimista a respeito disso, falando que mulheres estão na frente não só educacionalmente mas também de maneira crescente, profissionalmente e socialmente. É mais do que óbvio que eu dedico total crédito disso ao Movimento Feminista, afinal sem as mulheres loucas lutando por todas nem teríamos entrado na escola ou tido acesso a voto etc etc etc. E os países estão preocupados porque existe a perspectiva de uma classe crescente de homens “sub-educados”, e que isso inclusive deveria preocupar as mulheres. No passado, mulheres casavam tipicamente com homens de seu próprio círculo social ou acima, e se houver poucos homens nessa categoria, mulheres vão ter que casar com homens “abaixo” delas ou nem casar. Essa conclusão me deixou TÃO inquieta que eu nem sei se é um jogo dos sete erros ou por onde começar.

Number 1 -> Qual o problema em casar com alguém socialmente abaixo de você? Nunca foi problema para os homens…

Number 2 -> Qual o problema em nem casar?

Number 3 -> Faltou recorte de raça FORTE nessa preocupação, porque mulheres negras nunca tiveram a possibilidade de casar com pessoas de seu próprio círculo ou acima. Nem precisa googlar muito para encontrar inúmeros trabalhos e livros sobre a solidão da mulher negra.

E quando falam que mulheres são mais espertas (porque se saem melhor na escola, o que para mim não significa esperteza universal e sim pessoas que conseguem ter um desempenho melhor naquela caixinha bem específica) nesse vídeo super preocupado ou nas matérias feitas sobre o assunto, nunca levantam o fato de que a socieade é tão mas tão escrota que mesmo que as mulheres sejam incrivelmente melhores do que os homens elas ainda recebem muito menos pelo seu trabalho e tem muito mais dificuldade em atingir cargos de liderança ou chefia (quantas mulheres CEO você conhece, mesmo?).

Embora as mulheres sejam “melhor qualificadas”, elas ainda recebem apenas 3/4 do que um homem recebe. Pode ser pela escolha de profissão, já que as áreas de educação, saúde e humanas pagam menos que engenharia ou ciências da computação. Mas eu também afirmo que essas áreas pagam menos justamente por serem quase que exclusivamente femininas. Houve uma época em que professor era uma das profissões mais bem pagas e mais bem reconhecidas, e essa época era quando professores eram quase que exclusivamente homens, então…

Essa mudança na vida profissional das mulheres, pagamento igual e mesmo acesso aos melhores cargos, não virá sem mudanças estruturais. E nem fui eu quem falou isso, foi uma professora de economia de Harvard, Claudia Goldin. Não sei se eu e ela falamos do mesmo tipo de mudança estrutural, mas pelo menos reconhecemos que nada vai mudar até que alguma coisa verdadeiramente revolucionária aconteça.

O que eu queria na verdade é o contrário do que o vídeo pede, e as matérias sobre o assunto querem: uma escola com mais meninas rebeldes, fugindo do padrão e não com mais meninos dóceis e submissos. E, claro, não podemos esquecer da revolução.

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