Transfobia, círculos morais, família, tretas

Uns seis meses atrás, o Colégio Sagrada Família compartilhou um texto argumentando contra a tal “ideologia de gênero” (essa idiotice aqui). Não apenas argumentando contra, mas com conteúdo extremamente desonesto e principalmente transfóbico.

Imediatamente comecei uma campanha de escracho, divulguei o post, escrevi textão, chamei os amigos, fiz um vídeo às pressas bem xexelento (AQUI). Em questão de duas horas derrubamos a avaliação da fanpage da escola, inúmeros comentários no post e um belo vomitaço. A escola tirou o post do ar. Sem nenhuma retratação, óbvio.

Não é do meu interesse, como pedagoga e como militante pelos direitos civis, que exista uma escola que ainda esteja presa a dogmas religiosos – por mais que a escola seja de confissão religiosa, TODA escola precisa ser um lugar inclusivo e acolhedor para TODOS os seus alunos. Especialmente quando o assunto são as pessoas trans, as mais discriminadas, as mais marginalizadas, as mais mortas, as com maiores taxas de suicídio, de prostituição…

É meu (nosso?) papel lutar, gritar, berrar e espernear sempre que uma instituição se posiciona de forma medieval com relação aos direitos das minorias.


Eu estava lendo Eutifron (Platão) essa semana, e um dos eixos centrais do diálogo é o dilema pelo qual passa o personagem título. Eutifron encontra Sócrates no Archon Basileus e explica o que ele estava fazendo lá. Foi denunciar o próprio pai pelo assassinato de um servo.

eutifron

Mas não foi assim uma coisa simples. Esse servo tinha matado um escravo. Então, o pai do Eutifron prendeu o servo, amarrou suas mãos e pés e o jogou em uma vala. Não sabia o que fazer com ele, então enviou um mensageiro para Atenas para conversar com o basileu e obter uma definição. Acontece que essa viagem até Atenas, com os meios de transporte da época, levaria muitos dias, quiçá semanas. Enquanto isso, o servo ficou na vala e veio a falecer.

E lá estava Eutifron, pronto para denunciar o próprio pai.

Sócrates: Esse é o caso, então, de o seu pai ter matado um outro parente? Porque eu acho que isso seria óbvio. Você certamente não estaria denunciando o seu pai por matar um estranho.]

Eutifron: É ridículo, Sócrates, que você pense que faça alguma diferença se a vítima for um estranho ou um parente. Uma pessoa apenas deve considerar se o assassino agiu de forma justa ou não. Se ele agiu de forma justa, deixe-o em paz; se não, denuncie mesmo um assassino que compartilhe seu coração e sua casa. Você é tão poluído se você deliberadamente fica sob o mesmo teto que uma pessoa dessas, ao invés de purificar tanto a você quanto a ela por meio da denúncia.

Eu sou meio que o Eutifron dos rolê. Tenho uma noção um pouco maniqueísta, e uma clareza entre o que é certo e o que é errado. Nem estou advogando que ser maniqueísta seja bom, apenas que sou assim e não luto contra. Característica talvez trazida da conexão total entre meu Sol e Saturno (maniqueísmo interior, tendência a ver tudo chapado de “preto e branco”, que lhe faz muitas vezes ser alguém que defende padrões de moralidade que têm mais a ver com o estabelecimento de culpas e culpados).


Família, amigos, nação, parcerias comerciais, raça, classe econômica, religião, tribo, clã, clube, partido, bairro, time, associação, escola… Em largas medidas, nós organizamos as nossas vidas em torno de vários tipos de círculos, e costumamos defender uns aos outros nos círculos que pertencemos.

E parece que humanos precisam desses grupos, né. E não apenas precisam TER esses grupos, como precisam que exista essa confiança de que sempre vai valer a regra do um por todos e todos por um.

Uma pesquisadora chamada Melanie Killen fez uma pesquisa que era assim: numa escola aleatória, deram para as crianças vestirem camisas azuis ou vermelhas. E foi dito a essas crianças que a escolha era totalmente arbitrária, não existia motivo algum para uma ter recebido a camisa vermelha e outra a azul. Muito rapidamente, mais rápido do que o esperando, as crianças de camiseta azul começaram a se agrupar e passar mais tempo juntas e o mesmo aconteceu com as crianças de camisa vermelha. E criou-se um sentimento de rivalidade, e cada criança pensava que o outro grupo era de alguma forma inferior, e que o seu próprio grupo era melhor.

Esse pensamento de grupo tem conexão profunda com nossa psicologia de coalizão, de times em competição, e nesse processo também o favoritismo em relação ao seu próprio grupo. Leve isso a extremos e você tem grupos como Ku Klux Klan, por exemplo. (Assista ao filme A Onda.)


Eu fecho com o Eutifron. Mesmo que, no diálogo, Sócrates ridicularize bastante ele, apontando as incoerências nas respostas dele às perguntas feitas. Tem muitas áreas cinzas entre o certo e o errado, mas alguns certos para mim são óbvios. E entre o certo e um membro de algum grupo ao qual eu pertença, eu procuro (nem sempre com sucesso) fazer o que é certo.

No final de 2016 me vi num dilema desse tipo quando uma amiga compartilhou em um grupo um meme difamatório sobre uma pessoa que eu conhecia. Essa amiga era muito mais próxima de mim do que a vítima. Mas acontece que eu não fecho com mentira, e muito menos com campanhas difamatórias. Obviamente, antes de fazer qualquer coisa, conversei com a amiga, que se demonstrou irredutível. Algo do tipo “mas eles também fazem coisas ruins”, o que supostamente a legitimava a agir da mesma forma. Eu não acho que seja assim. Acho que toda mamain já te ensinou isso quando você era criança: se os teus amigos se jogarem da ponte você vai se jogar também?

Pois é. Não. Não é porque ele faz merda, que eu posso fazer também. Depois eu soube que a vítima da tal campanha já havia ficado sabendo do que tinha acontecido, ela veio falar comigo e eu confirmei. Sem peso algum na consciência.

Não existe mentalidade de grupo que vá me fazer cometer coisas que eu considero criminosas. Não existe motivo para eu te defender unica e exclusivamente porque você é mais íntima minha do que a outra pessoa.


Mas claro que nem tudo é assim simples de entender, são vários os grupos aos quais pertencemos (como eu falei ali em cima), a importância de alguns se sobrepõem a outros, depende do momento da sua vida, da idade, da sua rede de referência, etc… Mas acho que o grupo mais “estável” de todos esses, que geralmente é o grupo número 1 e a prioridade nas nossas dinâmicas, é a família. Da família a gente precisa perdoar tudo e defender todos, sempre, não importa o que hajam feito.

Quando eu me deparei com aquela atitude do Colégio Sagrada Família, eu não hesitei, não pensei duas vezes sobre fazer toda a movimentação que fiz para rechaçar a escola. Quem está em constante contato com a dura realidade do que passam as minorias em situações vulneráveis sabe que não existe posicionamento desse tipo que seja inofensivo, ou apenas questão de opinião. O discurso precisa ser combatido, e essa é uma luta diária, cotidiana.

Para mim, o que eu deveria fazer era tão óbvio e ululante, que eu nem precisaria refletir a respeito. Não levei em consideração, nem por um segundo, o fato de que minha sobrinha era bolsista na escola, nem que minha irmã era professora na mesma escola. E muito menos que a escola poderia considerar nosso grau de parentesco na hora de renovar a bolsa da menina ou ao pensar no vínculo empregatício da irmã.

Até porque né… Seria uma babaquice da escola, julgar pessoas próximas de mim por conta das minhas ações. Quem estaria errada numa treta dessas?

Fato é que perdi minha família nessa contenda. Para eles, a resposta para esse dilema moral era óbvia. Entre levantar a voz para defender um grupo vulnerável e ficar calada para resguardar minha família, eu deveria ter ficado com a segunda opção. Um por todos e todos por um. Fui bloqueada do facebook, do whats, fui acusada de fazer coisas só para ganhar llikes (já tô até acostumada a ouvir isso, é o que toda pessoa-que-se-mexe escuta das pessoas-que-não-se-mexem) e a conversa encerrou com uma das irmãs dizendo que não tinha interesse em ouvir nada da minha boca nunca mais e que não me considerava mais da família.


Semana passada eu fui procurada por uma mulher trans pedindo ajuda. Ela havia passado por processo seletivo para trabalhar em uma empresa, foi selecionada, fez o exame admissional, encaminhou a documentação e quando entregou a papelada – só então – avisou que era trans.

No dia seguinte recebeu a ligação: infelizmente não estamos mais precisando preencher a vaga, mas vamos guardar seu currículo em nosso banco de dados.

E é ignorância ou má fé achar que a existência de escolas excludentes e preconceituosas não tenha relação com o fato dessa mulher trans, jovem, bonita, inteligente, com curso superior completo, não conseguir arrumar um emprego como atendente em loja. Obviamente, porque não sou burra, sei que o Colégio Sagrada Família não tem responsabilidade DIRETA no caso específico dessa mulher específica. Mas faz parte dessa estrutura de merda.

Essa escola, e praticamente todas as outras, fazem parte de um sistema, como eu disse acima, que marginaliza, discrimina, exclui e mata essa população todos os dias. Elas e eles têm expectativa de vida de 35 anos. Sabe o que isso significa (entre outras coisas)? Que o Brasil é o país que mais mata trans NO MUNDO. E quando não os matamos, fazemos com que eles mesmos se matem: 41% da população trans já tentou se matar pelo menos uma vez na vida. E caso eles sobrevivam à nossa violência (matando-os direta ou indiretamente) ainda os privamos de encontrar trabalho, porque não os contratamos.

90% das pessoas trans trabalham com prostituição. Primeiro porque não as contratamos. Segundo porque não as deixamos estudar. Sim, não as deixamos. As taxas de evasão escolar são altíssimas. A escola é um ambiente hostil para essas pessoas. E isso é perpetuado por discursos como aquele feito pelo colégio que mencionei e contra o qual fiz campanha.


Semanas atrás eu assisti umas transmissões ao vivo e acompanhei uns posts da Nana Lacerda mencionando as dificuldades que ela passou com a família dela conforme ia se engajando cada vez mais na luta pelos direitos dos animais. E que acabou perdendo o contato com todos, se não me engano exceto por uma irmã. E nos comentários dos posts muitos outros veganos relatando as mesmas coisas.

Então eu fiquei pensando, tudo isso, agora nesses dias em que tenho perdido o sono por causa do caso dessa mulher trans que me procurou. Que mundo estranho esse, onde você é recriminada e odiada por aqueles que supostamente te amam por defender quem não tem voz. Seja lá quem for. A população negra, as mulheres, a população trans, os animais, coloque aqui qualquer categoria oprimida que for. E não é questão de postura belicosa dos ativistas e militantes. Mesmo os good vibes paz e amor acabam tendo que se isolar desses grupos sociais.

Fique também pensando num diálogo fictício, alguém perguntando para outro alguém da minha família: por que você não fala mais com a Geórgia?

– Ah, ela é uma idiota, ela defende pautas de minorias.

Ou no caso da minha amiga difamadora:

Ah, ela é uma falsa, não aceitou que eu espalhasse mentiras sobre a Fulana.

????????????????????

E pensei: será que as pessoas não percebem o quanto isso é estranho?

Eu não perco o sono por causa das decisões que eu tomo. Como também falei lá em cima, eu tenho uma certa clareza moral nas decisões que eu tomo, e eu costumo saber exatamente o que eu estou fazendo. O que me tira o sono, às vezes, é a sensação de estar sendo eu injustiçada. E nossa, longe de mim querer ser mártir de qualquer coisa, eu sou bem egoísta no geral e tô bem longe de ser santa. Mas né, nas poucas coisas que eu acerto, às vezes sofro retaliação pesada de gente que, penso, tem umas prioridades bem eticamente duvidosas.

Depois desse caso da mulher trans, e de todos os sentimentos que me acompanharam ao conversar com ela, eu tive mais certeza ainda das decisões que eu tomo, que me afastam da família e de alguns amigos. Eu estou fazendo a coisa certa.

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