Semana 9 – O anúncio

O anúncio da gravidez foi bem antes da 9a semana por motivos alheios à minha vontade. O combinado era esperar até a 12a semana, passar aqueles momentos críticos, esperar a gravidez pegar. Até porque eu já perdi um embrião antes, na 9a semana, então já estava com o meu psicológico preparado para perder mais um. Também li em alguns lugares que minha idade não ajudaria muito, então melhor evitar a fadiga.

Masssss esse embrião tem pai e não apenas tem pai como tem o pai mais besta desse mundo que não conseguiu se controlar e saiu espalhando as novas loucamente. Deu até briga, porque senti que ele estava roubando de mim a chance de anunciar, então escrevi esse post no facebook antes que a gravidez deixasse de ser novidade. Foi, definitivamente, a publicação mais curtida da minha história facebookiana, então é possível que você já tenha lido esse texto lá na época. Porém, quis reproduzir aqui porque o facebook é aquele buraco negro onde posts incríveis desaparecem, e o blog será o espaço de registro por excelência dessa nova jornada da minha vida. Bora reler, então.


Não, eu nunca quis ser mãe. Eu não estava mentindo. Nunca foi um desejo meu, e inclusive militei incessantemente pelo meu direito de não ser mãe, negando a maternidade compulsória, pressão social que sufoca todas nós mulheres em algum momento da nossa vida.

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Embrião na 9a semana

Além de nunca ter sido exatamente uma pessoa que se derrete toda quando vê uma criança, eu sempre tive a certeza inabalável de que um filho arruinaria a minha vida. Me impediria de ser a Geórgia que eu sempre amei ser, atrapalharia a minha militância, me impediria de estudar, de viajar, de dirigir a ONG, de me dedicar ao meu partido, enfim.

Via minhas amigas e conhecidas deixando de ser pessoas-humanas para serem pessoas-mães, perdendo a identidade, perdendo a atuação. Pessoas que (a meu ver) deixaram de ser interessantes, se trancando num mundo exclusivamente materno e nada mais. Sei que a maioria dessas mulheres era/é de fato feliz com a maternidade, mas eu não me via sendo feliz nesses contextos. Eu levei décadas para construir a pessoa que sou hoje e nunca estive disposta a abrir mão disso.

E eis que, em determinado momento, percebi que não precisaria abrir mão mesmo. Que seria possível. Ao ver mulheres fodonas do meu círculo de amizades seguindo suas trajetórias incríveis e conseguindo equilibrar todos os pratos, comecei a pensar que elas poderiam ser exemplos para mim (Renata Corrêa Tairine Gabriela P. Lopes Fidelis Plena Rafaela Costa). E mais importante: estar acompanhada de alguém que não vai ser apenas pai de instagram, mas um pai de verdade, daqueles que a gente acha que nem existe, me abriu a mente (e o coração) para a possibilidade da maternidade. Eu JAMAIS embarcaria nessa aventura se não fosse com ele ao meu lado. Tenho total segurança de que a participação dele não será de figurante, muito menos de “pai-que-ajuda”, que eu vou poder ter o apoio incondicional para seguir sendo a Geórgia, para continuar lutando pelos meus sonhos – que não são poucos, vocês sabem.

É óbvio que não me iludo e sei que muitas coisas vão mudar e se tornar um pouco mais difíceis, especialmente nos primeiros anos – trazer uma vida pra esse mundo cão não é tarefa fácil. E sei também que vou incorporar outras lutas nas minhas pautas. Lutas que já são minhas, mas que agora por vivê-las na carne, estarão ainda mais presentes e serão ainda mais prioritárias. Questões relativas à maternidade, gestação, parto humanizado, amamentação e todo o pacote. Minha gestação também será política, como tudo na minha vida.

Hoje também completam 7 anos que minha vó/mãe Nelita Maria Martins nos deixou, véspera do aniversário de 69 anos que completaria dia 30 de abril. Taurina, determinada e alegre, fez história junto às colegas da Cia Hering, onde trabalhou como manual, costureira e supervisora ao longo de 30 anos. Cuidou da minha mãe, do meu tio, de mim e das pessoas que a cercavam. Ela ainda vive em nós, na linhagem feminina, resistente e feminista que gerou. O anúncio de hoje vem com o desejo de que essa próxima pessoa que estou gerando seja tão guerreira, feminista, batalhadora e resiliente quanto as anteriores.

Tem ume cabritinhe se formando dentro de mim e eu não poderia estar mais feliz! Sim, foi planejado! Sim, vai ser capricórnio, porque praga de mãe pega! Sim, vai ser vegane, vai nascer em casa, vai mamar em livre demanda, vai ter cama compartilhada e vai ser lambide por catioros e gatíneos!

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2 comentários sobre “Semana 9 – O anúncio

  1. Olá Georgia, como vai? Estava lendo um artigo de poucas páginas que traz várias idéias interessantes e práticas para o movimento, como por exemplo estimular o feminismo das adolescentes nas escolas. Queria lhe enviar para saber a sua opinião sobre ele. Será que pode enviar o seu email?

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