Sobre abuso, novinhas e a profissão de professor…

Sobre relacionamentos de homens mais velhos com mulheres mais novas

Nós, como feministas, sabemos – e não é de hoje – como a diferença de idade em relacionamentos é naturalizada e até mesmo encorajada. E isso quando se trata de homens mais velhos se relacionando com mulheres mais novas, claro. O contrário nunca é verdadeiro (vide comentários em qualquer matéria retratando uma mulher mais velha pegando um garotão, seja ela Elba Ramalho, Suzana Vieira etc.).

Tipo Marcelo Camelo e Mallu Magalhães. Tipo Roberto Justus namorando uma menina 32 anos mais jovem do que ele e ainda se gabando disso (“Claro, seria mentiroso da parte de um homem dizer que preferimos uma mulher da nossa idade a uma mais jovem.“). E todo mundo acha absolutamente ok. Talvez seja. Não sei.

Mas né. Estamos no mundo para problematizar, não as relações individuais, mas a forma como isso se dá de forma ampla, estrutural. Portanto, vale a pena questionar a questão dos papéis de gênero. Não é o namoro individual seu com a sua 9inha que apesar de cents anos mais nova é super madura e inteligente. Mas a questão coletiva mesmo, de acontecer isso o tempo todo e tudo certo tudo lindo, é amor e amor não tem idade… (Só quando o mais velho for homem.)

Não se trata de moralismo. Falar desse assunto é patinar um pouco na já problemática relação das adolescentes com a própria sexualidade em uma sociedade que condena tanto as santas quanto as vadias. A experimentação faz parte do processo de amadurecimento. Trata-se de um período delicado e essencial para a formação de adultos emocionalmente saudáveis.

Mas, se uma parte ainda está descobrindo o mundo dos relacionamentos e a outra já tem anos de prática, têm-se uma relação deveras desigual. E o elo fraco está na mente do adolescente, ainda criando defesas e forjando uma personalidade, e muito muito suscetível a ser conduzida no relacionamento do que a ter controle sobre tudo o que está acontecendo. Para quem tudo é novidade, tudo é válido, normal, assim mesmo. 

O que um homem adulto busca em uma adolescente? A soma perfeita: um corpo jovem e uma mente ainda em formação. Se ela for “madura para a idade”, então, melhor ainda. Menos trabalho tendo que lidar com infantilidades que seriam, até então, comuns à idade. A ideia de que as mulheres se desenvolvem mais rápido que os meninos é o tipo de falácia que justifica séculos de abuso. De certa forma, é mais uma maneira de culpabilizar novamente a vítima. Afinal, com um corpo desenvolvido e uma mente capaz, já está pronta para se relacionar com qualquer homem que a deseje. Quem mandou, né?

O que eu vejo são muitos olhos fechados para o que há de egoísta nessa dinâmica. Na falta de bom senso do adulto e sua pressa de ter para si alguém cuja personalidade ainda está em formação.

Sobre relacionamentos de professores com alunas e alunos

A “cultura do estupro” é uma cultura onde a violência sexual é considerada norma – ou seja, onde as pessoas não são ensinadas a não estuprar, mas sim ensinadas a não ser estupradas. O termo foi usado pela primeira vez por feministas nos anos 70, mas tornou-se mais popular nos últimos anos, com mais sobreviventes compartilhando suas histórias.

A cultura do estupro, quando o movimento feminista se refere à ela, não diz respeito somente ao estupro per se, mas também a todas as pequenas violências que nós mulheres sofremos todos os dias e que vem a reforçar a nossa posição subordinada na sociedade. Seja a cantada na rua, a pegada no braço durante uma festa popular como a Oktoberfest, ou mesmo o silenciamento em um debate político.

Sendo assim, nós, como feministas, precisamos nos posicionar e combater todas as formas de machismo estrutural que identificarmos em nossos quadros. Como já estamos cansadas de repetir em posts de facebook, machistas não passarão.

O assédio, ou mesmo o abuso, é difícil de definir porque pode ocorrer de várias formas. Naquela presencial, quando há toque, ou aquela importunação ofensiva ao pudor, que é quando a pessoa insiste. Até uma cantada, um olhar ou uma piadinha podem ser assédio. Não precisa ter contato físico, pode acontecer apenas no âmbito psicológico. Mesmo piadas feitas em sala de aula, por exemplo, já são um indicativo de que pode vir a configurar um assédio moral.

A questão do assédio, ou abuso, envolvendo alunos e professores é ainda mais grave pois quebra regras éticas inerentes à profissão. É precedida pela quebra de um “contrato ético” que envolve as partes. O professor não deve cantar uma aluna por ser uma falha ética. Independente da definição de ser assédio ou não, esse comportamento já fere a questão ética. É ultrapassar em demasia o limite da atuação profissional. O professor tem que ter postura moral de total isenção com a clientela. As questões humanas são mais complexas, mas é essencial ter um mínimo de profissionalismo.

Para nós, esse tipo de postura é condenável por existir uma condição de desigualdade entre os envolvidos. O professor porta uma autoridade, inerente ao cargo e isso o coloca numa posição de privilégio, ele tem poder de decidir sobre a aprovação do aluno, por exemplo. Se um lado frágil existe, e nesse caso é o lado do aluno, que é avaliado pelo professor. A questão não é judiciária, mas ético-política.

Não dá pra compactuar com práticas abusivas de quem ocupa espaços de militância, inclusive virtual, dentre outros motivos porque elas tornam esses espaços inseguros para as mulheres que (neste e em muitos outros casos) são os alvos desse tipo de abuso. Portanto, havendo ou não indícios de crime nas denúncias, o ponto que se coloca não é o criminal, mas o da presença do assédio, da manipulação, do uso e do abuso de privilégios sociais, etc.

Agora vamos imaginar uma situação completamente hipotética…

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Fonte: Blog do Jaime

Suponhamos que em uma festinha good vibes um professor de 25 anos fique com uma menina de 16. Suponhamos que essa menina esteja bêbada, tão bêbada que qualquer tipo de consentimento não deva ser levado em consideração. Ou seja, bêbada demais para consentir (caso não entenda o conceito de consentimento, assista esse vídeo AQUI). Suponhamos que, no calor do momento, esse professor e essa aluna saiam da festinha e vão até um matinho. E no dia seguinte tal menina de 16 anos NÃO CONSIGA NEM LEMBRAR o que aconteceu. Apenas percebe que está com hematomas e que não, não queria que o que aconteceu tivesse acontecido.

Se você leu até aqui e ainda consegue supôr que tal adulto está certo e tal menina está errada, volte duas casas. Ou reveja seu feminismo, parça.

Eu não preciso saber os detalhes sórdidos dessa situação hipotética para saber quem estava errado. Eu não preciso perguntar que roupa ela estava vestindo, ou mesmo por que raios uma menina de 16 anos estava embriagada em uma festa – isso se chamaria culpabilização da vítima.

Eu não preciso questionar o comportamento dela em outras situações, ou presumir que ela tem problemas emocionais ou quer chamar a atenção – isso se chama gasligting.

Eu não preciso investigar o passado dela para descobrir que ela é promíscua ou já transou com número X de pessoas ou já quase transou com outros caras com diferenças de idade parecidas – isso se chama slut-shaming.

Nessa situação claramente hipotética que jamais aconteceria na comunidade progressista e moderninha de blumenau, digamos que tal caso fosse publicizado e virasse o bafafá do momento. Tal professor, querido por tantos, afinal, ele é da galera cool e descolada, seria obviamente defendido por seus colegas, certo?

De que jeito tais colegas o defenderiam? O que eles argumentariam, como eles tentariam provar a inocência do colega e conquistar a simpatia das pessoas?

Adivinhem?

Numa campanha massiva de difamação contra a menina nos inbox do facebook, recheadas de… TCHANAM… CULPABILIZAÇÃO DA VÍTIMA, GASLIGHTING E SLUT-SHAMING. Inclusive chegando ao absurdo de uma mulher (ai meu coração) abordá-la em plena praça de alimentação de um supermercado, fazendo barraco, berrando enquanto filmava ao celular, chamando a menina de puta e mentirosa.

Mas AINDA BEM que estamos falando de uma situação completamente hipotética, que jamais aconteceria em uma cidade como Blumenau.

 

 

8 comentários sobre “Sobre abuso, novinhas e a profissão de professor…

  1. Claro, seguindo essa lógica podemos encaixar todas as situações em situações-padrão pré-determinadas. Tipo lotes fabricados em série. Difícil expor minha opinião, conhecendo o outro lado da versão, sem abrir a possibilidade de ser interpretado como colocando em xeque a fragilidade que se encontram mulheres que realmente foram assediadas por pessoas agressivas, abusivas e violentas. Mas claro, isso ai é só uma situação hipotética. Ainda bem que não existe uma historia real pra eu saber o lado do “violentador”.

    • Bom, eu conheço os dois lados da história também, ouvi diretamente da boca de AMBOS.
      Acredite se quiser, a versão é exatamente a mesma. Com alguma diferença nos detalhes, por exemplo um diz que estava bebendo cerveja o outro vodca.
      Então, como as versões são idênticas, isso cai no terreno subjetivo, da opinião “pessoal” (nunca é uma opinião pessoal), dos que acham que é inerentemente errado um professor de 25 ficar com uma aluna de 16 e dos que acham que é ok.

      Eu estou do lado dos que acham que é inerentemente errado e que não importa se ela é uma fedelha, se ela é misândrica, se ela teve comportamento promíscuo antes durante ou depois disso. Ainda é uma menina de 16 anos e ele ainda é um adulto de 25.

      • O mais absurdo seria, caso a história fosse verídica, ver pessoas difamando a menina e passando pano pra estuprador. Isso sim seria repugnante e inaceitável. Independente de todas as questões, reforço também: ainda é uma menina de 16 anos e ele ainda é um adulto de 25.

      • Não vejo problema algum entre uma pessoa de 25 e outra de 16 ficarem. Desde que seja consensual, que não haja abuso, que tenha respeito mútuo, que seja de plena consciência de ambos. Realmente é anti ético que um professor fique com uma de suas alunas, sou de pleno acordo. O que não é o caso.
        A questão é que conheço muito bem a pessoa pra ter certeza de que não faria nada não consensual, desrespeitoso, violento, abusivo.
        Sobre minha vivencia com a garota, realmente, errei em misturar as coisas, já não gostava dela ha um tempo e tenho bons motivos pra isso. Pra mim uma pessoa que diferencia pessoas por cor, gênero, orientação sexual ou qqr coisa assim é um preconceituoso. Em nenhum momento isso tem haver com o caso em questão. Realmente errei em misturar. Por que nada disso tem haver com o caso. Baita viagem minha.
        Cada um é livre pra ser o que quiser e fazer o que quiser, desde que não prejudique os outros. Quer beber? ficar com várias pessoas? dançar a noite inteira com todo mundo? beijar um monte? Faz! isso não te faz uma pessoa mau caráter, menos ou mais que ninguém. Vai continuar sendo uma pessoa, apenas uma pessoa e nada alem de uma pessoa. O que vivenciou não é argumento nenhum. Logo se ela tem “comportamento promiscuo antes disso” não importa, isso é argumento pra moralista da igreja.
        E não tenho medo das pedras do facebook. Exponho sim, e nesse caso só não cito nomes por bom senso. Mas em geral exponho, cito nomes, falo na cara e diretamente.

      • E outra, lendo isso ai, ouvindo o que se conta, claro que jamais culparia a vitima por uma violência sofrida, não faz sentido. Violência. Violar. Quem sofre não é culpado. O lance é que conheço o acusado o suficiente pra dizer é incapaz de agir com violência, violar, abusar, se aproveitar.
        E todos que o conhecem bem concordam comigo. O lance é que ninguém se manifesta, vai deixando isso baixo….

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