Cultura do Estupro e a importância da organização

Esse é o meu incômodo.

O que exatamente significa um protesto “contra a cultura do estupro”? Me parece muito com outros protestos que a gente criticou nos últimos 3 anos, o tal “contra a corrupção”. O que é “lutar contra a corrupção”, exatamente? Alguém milita pró-corrupção?

“Esses dias eu tava assistindo um discurso do Lula nos anos 80 numa greve do sindicato dos metalúrgicos. Gente pra porra. Tudo no pique da luta. O PT teve essa base não só em sindicatos. E fez o que com essa gente toda? Com esse potencial? Aprofundou o discurso e preparou o terreno pra transformação radical ou ficou na superficialidade discursiva que servia muito bem pro seu projeto de conciliação de classes?

A perspectiva da qual nós chamamos de liberal/individualista etc se cresce em cima das revoltas coletivas. Pega o discurso pelo sentimento, pelo pessoal, pelo íntimo e usa isso pra dar voltas sem fim com as pessoas. Levando pra lugar nenhum (pra onde interessa quem tá puxando o negócio) ou exacerbando migalhas.”

A tal “cultura do estupro”, de maneira semelhante à “corrupção”, é estrutural e sistêmica. Não tem protesto que dê conta. Não tem reforma que dê conta. Não tem mulher indignada gritando na rua que dê conta. E mesmo se houver reforma que dê conta ou pelo menos minimize os danos, essa reforma não vai vir com um ato isolado, desarticulado, entrando na onda da histeria coletiva – que no dia seguinte passa, a gente sabe que “o ódio” passa, ameniza, todo mundo esquece.

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Tamo aqui quase cancelando PELA SEGUNDA VEZ o curso Como Funciona a Sociedade, que vai acontecer em Blumenau,  porque aprender como funciona a sociedade e como fazer para lutar para uma sociedade melhor, ninguém quer. Porque dá trabalho. Porque demanda tempo. Porque exige renúncias. Porque são noites, sábados, domingos e feriados de reunião. De ter que conversar e ~se entender~ com aquela camarada que tu nem vai com a cara – porque vocês duas tem pautas em comum, então podem se odiar, mas tem que estar “codo a codo” no front.

E, principalmente, exige organização. Pode ser num partido, num coletivo, numa ONG, sei lá. EXIGE organização, coisa que parece grego pra quem não é signo de terra, MAS PRECISA. Porque cultura do estupro não vai acabar nem se amanhã conseguirmos juntar 15 mil mulheres no protesto. Não vai.

Porque não adianta juntar 15 mil numa manifestação insuflada pela revolta momentânea se não tiver vinte pra tocar os projetos (e não temos essas 20, tá?). Pra monitorar a violência contra a mulher em Blumenau. Pra pressionar a delegacia de proteção à mulher DE BOSTA que nós temos na cidade. Pra acolher aquelas que sofrem violência. Pra entregar panfleto na porta da fábrica. Pra ministrar uma palestra sobre a situação da mulher na sociedade e a conjuntura política atual. Pra votar em candidaturas feministas. Pra mediar um grupo de estudos. Pra fazer escracho nos Bolsonaros, Felicianos e Malafaias da vida.

Pra ir numa audiência pública exigir que haja discussão sobre gênero na escola (estávamos em quantas mulheres lá? nem 10?) E daí agora milhares de pessoas com twibbon “eu luto contra a cultura do estupro”, mas luta como, mano? Se eu nunca te vi numa reunião de um dos muitos coletivos que temos em Blumenau (Casa da Mãe Joana, Liberdade, Cisne Negro, Leena, Rita Lobato, Ciclanas)? Luta como se nunca te vi com apito na boca numa audiência de Plano de Educação? Luta como se não te vi em nenhuma reunião de nenhuma das frentes de luta que temos aqui (Frente Brasil Popular, Levante Popular da Juventude, Transporte Não É Mercadoria, Tarifa Zero, ABC Ciclovias)? Luta como se não tá em nenhum partido ou sindicato? O que é lutar pra você?

Reconheço a importância do povo na rua, aliás, VIVO falando que revolução se faz na rua, vivo chamando vocês tudo pra rua. Mas sendo a rua uma das táticas, uma DENTRE MUITAS OUTRAS, muitas mesmo. Uma tática que faz parte de um todo muito maior, todo interligado e interdependente. Me preocupa o espontaneísmo desconectado.

Ou, copiando a fala da Ariane Blum, que eu assino embaixo 10 vezes: “Não me tomem por burocrata mas penso que se temos coletivos, movimentos etc e integramos devemos manter nossas ações dentro desses movimentos até porque facilita a organização estrategicamente falando. E falando por experiência mesmo. Já quebramos muito a cara chamando ato sem respaldo e que depois não tiveram efetividade alguma.”

O recado final é: ORGANIZEMO-NOS. Só sair na rua por algo tão abstrato quando a cultura do estupro não vai fazer nem cócegas no patriarcado.

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