Kocham Polskę

Nunca na minha vida a Polônia esteve no topo da minha lista de lugares para conhecer. Mas acabou chegando ao topo, e foi nesse país que passei os últimos quinze dias. E adivinha? Estou morrendo de vontade de voltar pra lá, de aprender a língua, de explorar todos os lugares que não consegui conhecer dessa vez. Recomendo, a todos. Além de ser um destino super barato, é um país absolutamente INCRÍVEL.

Como de costume, esse é o relato desses dias que passei lá. Vou tentar resumir tudo em um post só, porque preguiça.

Antee ir para a Polônia eu já tinha começado a fazer minhas pesquisas sobre o país só para descobrir que ele também está passando por uma bela bosta de onda conservadora. O governo é de direita, o parlamento também, e não é qualquer direita, é uma direita extremamente católica. A coisa que mais me preocupou foi o projeto de lei para banir o aborto de vez. A Polônia já é o pais da Europa com as leis mais restritivas de acesso ao aborto, indo na contramão do que estão fazendo todos os outros países da União Europeia. Estava rolando uma campanha virtual mundial de solidariedade às mulheres polonesas, e eu dei a minha contribuição.

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A viagem de São Paulo a Munique, pra começar, foi uma bosta. Não consegui dormir quase nada, o avião que peguei era estranhamente desconfortável – todos são em certa medida, mas nesse a Lufthansa caprichou. Pelo menos comi loucamente, tudo o que me ofereceram, porque sou dessas. Aliás, recomendo que vocês peçam rango vegano nos seus vôos internacionais, é bem mais gostoso do que os outros (essa parte eu to inventando, pq nunca comi as comidas não veganas) e você sempre recebe a comida antes dos outros.

Cheguei em Varsóvia na quinta a tarde, almocei, fui até a loja de bicicleta pegar a bike que tinha alugado pro final de semana, tentei descansar mas tava animada demais para dormir… Fui jantar os desejados pierogis no Restauracja Zapiecek, restaurante que me deixou aboslutamente encantada. Pedi um mix de vários recheios diferentes de pierogi e fiz meu top 3 melhores sabores pra garantir as próximas refeições.

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Old Town

Na manhã seguinte, sexta, acordamos super cedo para pegar o trem para… tchan tchan tchan tchan… Puszcza Białowieska! A Puszcza Białowieska é a última parte da imensa floresta primeva que se estendia por toda a Planície Europeia, e fica no nordeste da Polônia, cobrindo também parte da Bielorrúsia. Essa floresta é lar pra mais de 800 bisões europeus, então IMAGINA EU.

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Ninho de garça!

Viajar de bicicleta pela Polônia é super de boas, o país é super bike-friendly. Todo o transporte coletivo que eu tive a chance de usar tinha espaços especiais destinados à bicicletas. Fomos de casa até o metrô, do metrô até a estação de trem e não tivemos dificuldade ALGUMA com as bicicletas em todo esse percurso.

O trem chegou em Sawiny Grüd e fomos pedalando até Lipiny que é o vilarejo onde fica a pousada que ficamos. Eu, besta o tempo todo, boquiaberta com todas as casinhas lindas, os jardins bem cuidados, as hortinhas cheias de coisas gostosas plantadas… Quarenta por centro dos poloneses vivem no campo, e espero que continuem assim.

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Eu tentando ser amiga das ovelhas. Sem sucesso…

Depois de nos instalarmos na pousada, fomos pedalando até Hajnówka pela floresta para agilizar a nossa autorização para entrar na Bielorrússia. Uns 50km, e consegui lidar bem com isso, apesar da dor nas nádegas (não estava acostumada com aquele celim diferente).

Igreja por lá não falta, a Polônia é um país SUPER religioso. 90% dos poloneses são católicos, e 1% é ortodoxo, e justamente nessa região onde estávamos acho que estavam TODOS os ortodoxos do país. Tinha cruzes por todos os lados, e ao lado de cada cruz católica tinha também uma cruz ortodoxa. As igrejas são lindas, todas antiquíssimas (ou pelo menos pareciam antiquíssimas) e eu tive a oportunidade de assistir um trecho de uma missa em uma igreja ortodoxa. Que foi, certamente, a coisa mais bizarra que eu pude ver nessa viagem. Duas horas depois de sair da igreja eu ainda estava WHAT THE FUCK?!?!?!?

Ao chegar de volta na pousada, fomos recebidos com uma porção de bolinho de chuva polonês, com maçãs ao invés de bananas. E uma dose de vodca caseira, que se chama samogon, feita de batata, casca de uma árvore típica de lá e baunilha. Pra mim que nunca bebo, foi um tiro. Teor alcoolico no teto! E mesmo assim, me ajudou em nada a superar o frio. Passei muito frio, e nem estava horrorosamente frio, eu que sou paraense por dentro e não sei lidar com temperaturas abaixo de 12 graus…

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Finalmente um pouco de calor…

No dia seguinte, finalmente,  a reserva para ver os bisões! Quase morri de amor, tentei passar a não em todos, sem sucesso. Tinha um lobo absurdamente carente implorando por carinho que me fez morrer de pena…

Comi mais quilos de comida, especialmente placki ziemniaczane, que é um tipo de panqueca de batata, mais pepino fermentado, preparado de um jeito bem parecido com o chucrute e um doce em lata que me lembrou muito o brigadeiro brasileiro. Tô achando que essa viagem foi muito mais de turismo gastronômico do que qualquer outra coisa…

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Pepino fermentado

No domingo voltamos para Varsóvia pois era dia de receber a Vanessa, minha amiga brasileira que mora em Estocomo e conseguiu dar um jeito de ir me visitar. Jantamos pierogis naquele mesmo restaurante, tomamos uns shots de mad dog (um negócio de vodca, tabasco e xarope de framboesa) e fomos dar rolêzinho no supermercado local pra descobrir todas as deliciosidades veganas que a cidade tinha para nos oferecer. Cervejas, cidras, e mais quilos de coisas veganas, salsichas, queijos, etcétera AND leite de maconha – que não é tão bom, preciso destacar. E principalmente, minha paixão polonesa, A MAIONESE COMUNISTA! Kielecki, uma empresa que era do governo na época da Polônia comunista e depois da abertura quase faliu e foi tomada pelos funcionários, estilo Flaskô. Serião, a melhor maionese que já comi na minha vida e olha que se tem uma coisa que eu entendo nessa vida é de maionese.

Na segunda, eu e Nessa fomos passear pela cidade, completamente ignorantes do fato de que, no mundo todo, museus fecham na segunda. Várias portas na nossa cara. O centro de Varsóvia é lindo, saindo da estação central do metrô já damos de cara com o Palácio da Cultura e Ciência – Palac Kultury i Nauki. Considerado o edifício mais alto da Polônia, tem 232 metros de altura, divididos em 42 andares. Foi um presente da URSS ao país.

Paramos pra tomar um café num bistrô e conheci a primeira feminista polonesa da minha viagem. A atendente do café, uma fofa, e pra variar com mais uma história de abuso e superação (infelizmente a principal porta de entrada das mulheres no feminismo: uma história de terror).

Depois tentamos ir até o museu do Copérnico e adivinha? Fechado. Então fomos bater fotos com a sereia de Varsóvia que ficava ali perto. Sobre a sereia, símbolo da cidade: tudo começa na Idade Média, quando uma sereia chamada Sawa é salva por um pescador chamado Wars. Como forma de agradecimento, Sawa promete proteger o homem e sua cidade para sempre. E é daí que vem o nome Warszawa – Varsóvia em polonês. Dizem que a sereia podia ser vista nadando pelos rios da Polônia até o século 19, mas sumiu misteriosamente durante a Segunda Guerra Mundial, provavelmente procurando um lugar mais pacífico.

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Encontramos uns brechós pelas nossas andanças e consegui comprar uns casacos incríveis e super baratos. Alegria de quem passou dias batendo queixo…

E seguimos viagem para a Cidade Velha. Fiquei boba. A sensação o tempo inteiro era de que eu estava em uma cidade cenográfica. Tudo aquilo que eu vi em filmes sobre a segunda guerra materializado ali na minha frente. LINDO DEMAIS! E eu, absolutamente hipnotizada.

Não sei se todo mundo que me lê sabe, mas vale a pena lembrar, que a Polônia foi o país mais destruído na Segunda Guerra, já que tanto a Alemanha quanto a URSS eram seus inimigos. Poloneses, assim como os judeus, foram para os campos de concentração. A cidade de Varsóvia foi quase que completamente destruída (90% da cidade) – e depois reconstruída, restaurada, com base em fotos antigas, tentando restaurar o “visual” original. E agora tá ali, aquela cidade linda, maravilhosa, gostosa, geladinha, calma, com ZERO cachorros abandonados nas ruas, cheia de crianças e velhinhos…

No dia seguinte, dia de se despedir da Nessa e passear mais pela cidade. Almoçamos no Bar de Leite, a coisa que eu estava mais ansiosa para conhecer nessa viagem. Depois da queda do regime nazista, e com a implantação do comunismo, a maioria dos restaurantes foi nacionalizada e depois fechada pelas autoridades comunistas. Sobraram apenas os Bar Mleczny, que eram uma forma de oferecer refeições baratas (subsidiadas) para os trabalhadores que trabalhavam em empresas que não tinham refeitório próprio.

Como essa comida era subsidiada pelo Estado, portanto tinha que ser barata, a maioria dos bares de leite servia só rango ovolactovegetariano, e principalmente na época da lei marcial nos anos 80, quando a carne era racionada. Com o fim do comunismo e a entrada das grandes redes de restaurantes no país, os bares de leite quase fecharam todos, então o governo decidiu continuar subsidiando eles para que pudessem oferecer comidas tradicionais, nutritivas e baratas para a população. Comi várias coisas do cardápido e adivinha? Tudo delicioso…

Depois caminhamos até a Cidade Velha de novo e para o bairro de Praga, outro lugar fofinho e cheio de prédios “antigos” (na real restaurados e reconstruídos, como tudo em Varsóvia).

No dia seguinte fui visitar o Museu da História dos Judeus na Polônia… Quatro horas de visita… Nunca achei que iria cansar de museu! Era todo interativo, um lugar incrível, mas foi bem bem cansativo. A tarde peguei o blablacar para ir para Poznan ficar uns dias na casa de uma amiga feminista.

Obviamente, a cidade de Poznan também é lindíssima, mesmo estilo de Varsóvia (apesar de que a Helena diz que tem alguns detalhes da arquitetura que fazem as duas cidades totalmente diferentes), prédios baixinhos… O povo polonês de modo geral é super hospitaleiro, gosta de receber visitas, e recebe muito bem – especialmente através de comida. Em todas as casas que eu fui, saí rolando de tanto comer.

Passei a manhã seguinte na International School of Poznan visitando o Festival Internacional de Culturas que a escola estava promovendo. Um capricho, um amor! Cada turma era responsável por representar um país, então os pais e mães levaram comidas típicas do país, os alunos e alunas decoraram as salas e prepararam apresentações, jogos e exposições sobre cada cultura/país. E qual não foi minha surpresa ao ver que o Brasil estava lá também?!? Além do Brasil, também tinha Alemanha, Holanda, México, França, Itália, Coréia, Espanha… Enfim, a volta ao mundo em uma manhã. E rodeada de crianças!

É importante mencionar que o que mais salvou vidas nessa viagem foi uma rede de lojas de conveniência chamada żabka, que significa sapinho em polonês. Essa loja está POR TUDO, em todos os lados, em todos os quarteirões, em todas as partes, especialmente em Poznan (acho que a loja é de lá). Complicado mesmo era para mim, como vegana (ovolactovegetariana durante a viagem) ler os rótulos para comprar coisas sem saber polonês. Quase tudo na Polônia é muito barato, provavelmente mais barato do que no Brasil (1zloty = 0,90 real), então dava pra comprar 5L de suco de maçã integral (overdose de suco de maçã = eu) por menos de 20 zl. Eu gostei de TUDO que comi na Polônia, tudo mesmo, mas sou suspeita para falar de comida porque me considero uma avestruz. Caiu na minha frente, já era.

Fomos também numa loja de aviamentos, lãs e etc. E eu simplesmente enlouqueci lá dentro. Lãs de todos os tipos, cores, texturas, tamanhos, preços… Lã de ovelha, de alpaca, sintética, coloridas, NOSSA. Toda loja que eu entrava só pensava em como iria fazer para colocar tudo o que eu queria comprar na mala… Comprei vários novelos e decidi que era a hora de aprender arm-knitting (tricô com os braços) e finger-crochet (crochê com os dedos). Cheguei em casa, vi uns vídeos no YouTube (ah, tutoriais do YouTube salvando vidas) e fiz dois cachecóis, um cinza com arm-knitting e outro cinza com dois tons de rosa com finger-crochet. Tudo usando o meu próprio corpo, nada de agulhas! Aliás tô aceitando encomendas…

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Depois fomos ao mercado ao ar-livre, cheio de coisas de todos os tipos, roupas, calçados, comidas, vinis, bebidas, antiguidades… Tudo barato. O zloty, moeda polonesa, no momento vale R$ 0,90. Então as coisas são sim baratas lá e ficam ainda mais baratas pra nós porque a moeda vale menos. Negócio da China! Saímos de lá para ir na casa da avó da Helena. A vovó mais incrível que eu já conheci em toda a minha vida! De esquerda e feminista, e muito, mas muito fofa!

No dia seguinte fomos para Kornik, visitar um castelo que tem lá. A arquitetura e a decoração do castelo é cheia de influências árabes, simplesmente incrível. Atrás do castelo tem um jardim imenso que nós andamos andamos andamos e não chegamos ao fim dele. Também fomos a um museu de livros e outro de carruagens e tinha várias atividades ao ar livre pois lá na Polônia era feriado. Também fizemos um passeio de barco pelo lago que tem lá.

Na manhã seguinte a vovó disse: vamos tomar banho de piscina?

E eu: Cê tá loca.

Fui. Ela me emprestou um maiô, toalha, chinelos e fomos. O nome do lugar é Termy Maltanskie. Que maravilhosidade! Tinha piscina com ondas enormes, tinha jacuzzis, trocentos toboáguas, e tudo com água super quentinha, e lotado de gentes, crianças, jóvis, adultos, velhinhos… Vontade de ir embora nunca mais!

O dia seguinte foi de passear pela Cidade Velha de Poznan, tão linda quanto a de Varsóvia, porém menor. Stary Rynek é o nome da praça e foi o momento em que mais fiquei triste por não ter uma câmera decente nem as habilidades fotográficas pra registrar essas coisas todas com a qualidade que elas merecem… Fui e voltei de lá caminhando, na ida consegui chegar com tranquilidade, na volta consegui me perder trocentas vezes. Acho que era o cansaço.

A viagem de volta durou mais de 30 horas, 4h de trem de Poznan para a Varsóvia, espera no aeroporto, vôo de Varsóvia pra Munique, espera no aeroporto, 13h de Munique pra São Paulo, espera no aeroporto, vôo de São Paulo para Navegantes.

E, PASMEM, sofri zero de jetlag, tanto na ida quanto na volta. Já estou vida normal. Meu corpo me surpreende às vezes!


Das coisas que eu achei mais fofo/interessante/curioso:

  • A Polônia é um país das mini-coisas. Em cada cruz tem um mini-Jesus pendurado, completamente desproporcional à cruz. As moedas são microscópicas. As esponjas de lavar a louça são a metade do tamanho da nossa. Tudo é fofo.
  • Nunca mais quero jogar papel higiênico no lixeiro. Por um mundo onde a tubulação aguente papel higiênico!!!!!!!!
  • A Polônia (espero que todos vocês já saibam disso, mas eu não sabia) não tem NADA a ver com a Alemanha, assim como o polonês não tem nada a ver com o alemão. É um povo e uma língua eslava. O que faz tudo ser mais legal, mas carinhoso, mais alegre, mais doce.
  • Por falar em doce, doce lá não é doce como a gente está acostumado. Tudo que eucomia de doçura lá me dava a impressão que seria melhor com umas colheres a mais de açúcar.

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