Vaga de visita: o novo elevador social? – ou O Caso do Condomínio Porto das Dunas

Há três anos eu leciono para uma menina (incrível, por sinal) que mora no Residencial Porto das Dunas, um prédio na Vila Nova. Há três anos eu observei algumas coisas, mas nada que me despertasse para ter a vontade de escrever um post sobre esse condomínio, até o dia em que minha bicicleta se meteu em treta. Não mexa com a minha bicicleta.

A aula é no começo da tarde. Às vezes eu vou de carro, às vezes eu vou de bicicleta. Nos dois primeiros anos, devido ao horário e ao calor que faz na minha cidade (Blumenau), eu ia praticamente sempre de carro. Eu nunca nem tentei colocar o carro dentro do condomínio, ocupando as vagas de visita, não sei exatamente porque, simplesmente ia no automático, deixava o carro lá fora e entrava a pé.

Um dia, a mãe da menina (ou o pai, não lembro) me disse para colocar o carro dentro, mais seguro e etcétera. Coloquei. Na saída, o porteiro me alertou: essas vagas não são para prestadores de serviço, são apenas para visitas. Pouco importava para ele que naquele horário as vagas estivessem sempre vazias. Elas eram para visitas apenas. Não para prestadores de serviço.

Quem são os prestadores de serviço num condomínio de classe média de Blumenau? São os pedreiros, os encanadores, os eletricistas, as diaristas. Qual seria o grande problema em eles colocarem seus carros naquelas vagas desertas? Todos.

A vaga de visita dentro desse condomínio é o novo elevador social. Aquele que segrega patrões de empregados, sabe? Essa mesmo. As pessoas precisam – PRECISAM – de alguma marcação que indique quem pode mais e quem pode menos. Quem manda e quem obedece. Com a proibição do elevador social e de serviço (o de serviço hoje diz-se que é para lixo e bicho), que outra forma podemos usar para mostrar que o lugar do serviçal é caminhando calado, de cabeça baixa?

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A mãe da minha aluna disponibilizou a vaga de garagem dela para eu deixar meu carro mas eu não quis usar. Porque o problema pra mim não era ter onde estacionar o carro, mas si a babaquice que é não poder usar uma vaga que ninguém usa. Então preferi continuar deixando o carro lá fora mesmo.

De um ano para cá eu decidi ignorar o sol escaldante e ir apenas de bicicleta para lá. Os guardas da portaria fazem aquele horário de 12-36, então cada semana eu era recepcionada por um porteiro diferente. Como de costume, tem um porteiro que é legal, outro que não é. Logo na primeira vez que cheguei lá com a bici, o porteiro legal me disse para colocar a bicicleta para dentro, me indicou o melhor local e segui fazendo isso.

ATÉ SEMANA RETRASADA.

Na semana retrasada, fui recebida pelo porteiro chato. Entrei, coloquei minha bici lá naquele canto onde não atrapalha ninguém e fui dar a minha aula. Na saída, o porteiro me diz que eles não dispõem de bicicletário, então eu teria que deixar a minha bicicleta do lado de fora. Eu respondi com estranhamento, já que onde eu colocava a bici não atrapalhava ninguém, no que ele respondeu que atrapalha sim, e o condomínio tem um estatuto e no estatuto diz que não pode colocar bicicleta nas vagas de visita e eu não podia mais colocar a minha lá dentro.

E se seguiu um bate-boca de uns 10 minutos. Eu estufei o peito achando estar cheia da razão e disse que eu acho que ele não pode proibir isso mesmo que conste em estatuto e que se o condomínio não dispõe de bicicletário o problema não era meu e já tinha passado da hora de ter. Estamos em 2016, oras bolas! Equívoco meu, olha que otimista, achar que existia alguma legislação a esse respeito. Não existe nada.

Eu fiquei tão nervosa com isso que até parei a bicicleta mais pra frente pra respirar e pensar nas mil bombas que eu queria jogar naquele prédio e naquela portaria. E tentando entender por que raios é tão difícil assim usar um pouco de bom senso. Quatro (ou seis, sei lá) vagas de visita vazias, vaziazinhas, e eu não posso deixar uma bicicleta encostada ali no cantinho? Dá licença, né.

O pior é que eu sei que o grande problema não é ocupar uma vaga que tem dono, organização do condomínio, etc etc. A falta de filtro do porteiro demonstra que a falta de filtro na verdade é do próprio condomínio, que aplica às vagas de visitas exatamente a mesma lógica que aplica aos elevadores de serviço. E do banheiro de empregada. Já pensou que nojo horrível que deve ser sentar no mesmo vaso sanitário que uma… empregada doméstica???? É pra segregar mesmo, pra ter o mínimo de contato possível com os tais prestadores de serviço. O pobre é o novo abjeto. Nunca vou esquecer dessa frase, que escutei no último Curso de Gênero e Feminismo. O pobre é o novo abjeto. Não existe praticamente nada pior, hoje, do que ser pobre. A vontade dessa classe média, se isso fosse possível, e de marcar o pobre como se marca o gado, para saber quem é quem de longe e nem chegar muito perto, porque pobreza é uma doença infecto-contagiosa.

Pensa que as coisas estão melhorando? Não estão não. Nos Estados Unidos já tem prédio que dispõe de porta pra pobre. Se você mora nas melhores unidades do prédio, paga mais de aluguel, entra pela porta X. Se você mora nas unidades mais ~modestas~, paga menos de aluguel, entra por outra porta. Não dá pra ser otimista nesse planeta.

E o final da minha história? A família da minha aluna fez a maior fuzarca com a síndica e eis que estou liberada para colocar a minha bicicleta lá dentro.

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3 comentários sobre “Vaga de visita: o novo elevador social? – ou O Caso do Condomínio Porto das Dunas

  1. Ahahaha! Ótima história! Eu adoro Blumenau, não imaginava que coisas deste tipo acontecessem por lá.
    Morei em São Paulo e achava um horror esta segregação dentro dos condomínios. Uma vez mandaram minha psicóloga (eu estava de cama e ela veio me atender em casa) subir pelo elevador de serviço.
    Uma vez eu quis desmanchar o banheiro de empregada (nao servia para nada!) e a arquiteta me avisou: Se você quiser vender este apartamento depois, vai desvalorizar porque todo mundo quer banheiro de empregada!” Minha empregada era negra, favelada e usava o mesmo banheiro que a gente… A vizinhança me achava a louca, a esquerdinha caviar, a comunista, a feminazi do prédio. Eles falavam “Dá trela pra essa gente, até elas te roubarem!” Nunca tive cofre, nunca escondi jóia, nem dinheiro. Sempre comeram na mesma mesa que a gente, sempre mijaram no mesmo vaso… e nunca me roubaram nenhum centavo de dentro de casa. Lá em SP tinha família que tinha até louças e talheres separados para os trabalhadores domésticos. Era demais para a minha cabeça. Ahahahahah!

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