O feminismo na política eleitoral

Antes da ditadura militar não existia feminismo no Brasil. Pelo menos não de um jeito tão amplo, difundido e significativo como agora. Existia a União Feminina (1934) aquelas imorais que usavam cabelos curtos, fumavam charutos e defendiam o amor livre.

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Primeiro Congresso Feminino do Brasil

Mas foi durante a ditadura militar que as mulheres começaram a se reunir e a se articular. Foi como mães, esposas e irmãs de prisioneiros políticos e desaparecidos que elas começaram a sentir a necessidade de abrir novos espaços para a prática política. E nesse caldeirão se misturou tudo: os grupos feministas formados no exílio, os grupos de autoconsciência e os grupos de militantes dos partidos de esquerda.

E justamente por todas as mulheres na época terem um objetivo em comum, alianças se formaram, inclusive com a Igreja Católica, de quem eu adoro falar mal. Naquele momento delicado, aborto, sexualidade e planejamento familiar não eram a pauta do dia, estavam nas discussões privadas. Como o feminismo, ainda hoje, é uma luta da classe média instruída (está mudando, minha gente, vejam a movimentação nas ocupações das escolas em São Paulo – tá tendo feminismo popular sim!), foi através da Igreja que as mulheres pobres puderam entrar na luta através da vida comunitária.

Foi depois da abertura política que os grupos deixaram de parecer tão parecidinhos. Grande parte deles se declarou abertamente feminista e os conflitos com a Igreja Católica emergiram. Vamos falar desses grupos que se declararam abertamente feministas. Eles se subdividiram em dois grupos básicos (embora provavelmente havia mais sub-grupos diferentes): aquele que preferiu a frente da atuação pública, investindo em formação política e o segundo, que focou em grupos de estudos, convivência, subjetividades.

E parece que, até hoje, nós mulheres precisamos escolher entre um ou outro grupo como forma de militância. Existe um limbo para onde são jogadas as mulheres que decidem pela vida pública (leia-se político-eleitoral). Parece que elas não são mais bem-vindas no campo da militância informal. Eu sinto isso. Mas sigamos para as mulheres que foram para esse campo, o da política partidária/eleitoral.

Foram vinte e cinco mulheres na Assembleia Nacional Constituinte de 1987-1988 que compuseram a bancada do batom. Um número potencialmente inexpressivo – apenas 5,3% do Parlamento. Mas o que essas mulheres fizeram por nós chega a ser difícil de mensurar. Quando nós ainda somos o país com a menor participação política feminina da América do Sul, estudar e repensar a trajetória e as conquistas dessa “facção” do Movimento Feminista no Brasil é fundamental e indispensável. E principalmente hoje, quando nos vemos soterradas em fundamentalismo religioso. Cerca de 85 a 90% das reivindicações feitas por essas mulheres nos trabalhos pré-constituinte foram incorporadas pelo texto constitucional. E alguém discorda que nossa Constituição é um primor? A igualdade entre homens e mulheres, a visibilidade quanto à violência contra a mulher, a proteção da mulher no mercado de trabalho mediante incentivos específicos, etcétera etcétera etcétera.

Não foram apenas essas vinte e cinco mulheres que miraculosamente articularam as poucas conquistas que tivemos. Foram milhares antes delas e continuam sendo milhares depois. Ainda estamos aqui, tentando desconstruir a ideia da maternidade como destino único, a ideia da biologia como algo que nos torna inferiores, e ~naturalmente~ inapetentes e inábeis para a política. Ainda estamos aqui tentando desconstruir a ideia de papéis de gênero como caixinhas apertadinhas. E sinto que estamos tendo apenas reveses, como você deve ter percebido nas discussões contra a ideologia de gênero que está fazendo com que todas esse debate acumulado seja jogado no lixo em nome de algumas siglas religiosas.

Ainda assim, tantos anos depois, ainda é tão difícil militar nessa política. Sendo que eu considero importantíssimo que as mulheres façam parte do aparato estatal. É uma bosta? É. Quero revolução? Quero. Pra quando? Quando vamos destruir o patriarcado? Eu não sei. Levando em conta todas as brigas infinitas dentro do próprio movimento feminista, penso que vai demorar. E enquanto esse dia não chega, enquanto nós não conseguimos nos comunicar internamente e traçar nossas estratégias, ainda é do Estado que saem as políticas que tem a força de transformar o cotidiano das pessoas. T R A N S F O R M A R  O  C O T I D I A N O. Porque a política é burguesa, feita por homens e para homens, isso todos sabemos. Mas enquanto conseguirmos uma Lei Maria da Penha e uma Lei do Feminicídio e enquanto essas leis estiverem salvando vidas (uma vida salva já vale a luta), será que estamos mesmo tão equivocadas?

Enquanto eu recebo críticas (algumas ponderadas, outras violentas) por usar o movimento feminista como trampolim para projeção política, eu penso que essas pessoas ou não me conhecem ou não conhecem o PSOL e sua evidente inviabilidade eleitoral em Blumenau. Feminismo é fim. Eleição é meio. De dar visibilidade, de colocar o assunto na pauta dos debates, de atrair mais mulheres (e homens) para a luta. Me assusta que tantas pessoas vejam por outro ângulo e com tanta má-fé, associando o feminismo para mim como meio e política eleitoral como fim. Não é, nunca foi. Eu não vou ficar nesse limbo onde não vou mais poder ir pra rua porque alguns vão pensar que é estratégia politiqueira. Eu me recuso a ficar confinada a congressos partidários para que minha voz seja ouvida. Eu penso ser perfeitamente possível estar em todas as frentes possíveis, todas as que meu tempo livre der conta, todas as que eu pensar necessárias e urgentes. Não ganho nada, não ganhamos nada com isso.

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