Masculinidade e o consumo de carne.

Estava eu, lépida e faceira, pesquisando artigos e mais artigos pro projeto do meu futuro mestrado (vai rolar, vai rolar) quando encontrei esse artigo em forma de post. Sei que as traduções tem ocupado bastante espaço aqui, mas algumas coisas eu simplesmente não consigo resistir, especialmente porque esse post está excepcional. Bora lá, então.

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O Espaço da Carne

Homens gostam de comer carne. A masculinidade convencional americana precisa comer carne.

Quando os humanos eram pessoas das cavernas, reza a lenda, em nosso estado “selvagem”, os homens caçavam e matavam animais e os cozinhavam no fogo, alimentando sua família. Na natureza onde sobrevivem os mais fortes, os homens que eram os mais fortes, mais poderosos, mais viris, eram os mais bem-sucedidos. Os homens estavam no topo da cadeia alimentar, e sua dominância sobre os animais estava encapsulada na carne naqueles animais caçados (Parry 2010).

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Uma representação da nova e popular “dieta Paleo”, onde as pessoas comem, supostamente, aquilo que seus ancestrais paleolíticos comiam (sem comidas processadas). Perceba que a carne animal é a base da pirâmide, percebida como a mais importante.

Em 2014, em uma economia alimentar americana que prospera através da carne de animais mortos e mata milhões deles todos os anos, os homens convencionalmente pensam sobre comer carne nos termos de seus ancestrais (pelo menos, conforme imaginam que fossem seus ancestrais), e não em termos da realidade da produção de carne contemporânea. Face ao impacto devastador da carne ao ambiente e à saúde, e os maus-tratos egrégios da indústria da carne contra os animais, a carne ainda é o centro da dieta americana (Rothgerber 2012). Essa dieta não é apenas status quo, mas é hegemônica em sua onipresença através do consumo e da ideologia. Como isso pode permanecer tão irracionalmente firme? Esse fenômeno e sua perpetuação especificamente e forçadamente pelos e para os homens, de acordo com Hank Rothgerber, “pode ser melhor compreendida como uma consequência da construção em si da masculinidade” (Rothgerber 2012). Em boa parte da teoria sobre a relação entre carne e masculinidade, é entendido que comer carne ajuda a resolver a crise que a masculinidade enfrenta. Esse projeto olha para as diversas formas pelas quais essas crises são resolvidas nos espaços de consumo de carne.

A política sexual e gendrificada da carne é contraditória e complicada, mas em última análise, muito poderosa. As representações e propagandas de carne através do tempo e espaço contém referências à uma multitude de símbolos e narrativas. É o caso, porém, que a representação da carne esteja amplamente sujeita a um dualismo peculiar, um que não se aplica a muitas outras facetas centrais da performance social e de gênero: a carne é altamente feminilizada e sexualizada a um extremo, e é masculinizada a outro extremo. Alguns espaços e representações do consumo da carne estão mais concentradas em um extremo do que em outro, enquanto outros espaços e representações contém ambos os extremos.

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Na capa de seu álbum, Ludacris é culpado por, e também um ótimo exemplo da extrema sexualização da carne.

Por outro lado, a logomarca da Planet Wings mostra um frango bombado, de aparência masculina, que também é o produto animal nome da marca.

Por outro lado, a logomarca da Planet Wings mostra um frango bombado, de aparência masculina, que também é o produto animal nome da marca.

Esses extremos diferentes e suas interseções são manifestadas mais obviamente em três diferentes espaços e palcos da sociedade americana: na propaganda, em competições de comer e em um restaurante que representa em particular uma amostra de outros espaços e narrativas, BurgerFi.

A propaganda é um palco onde as esperanças, medos e realidades da sociedade são tipicamente refletidas. Isso é abundantemente evidente nas propagandas de produtos de carne ou outros produtos maciçamente masculinos que utilizam a carne como significante. O artigo fundamental de Richard Rogers sobre a relação entre carne, masculinidade e propaganda ajuda a elucidar esse relacionamento estreitamente ligado, especialmente em sua análise de um comercial de um Hummer entitulado “Tofu” (Rogers 2008). A GM jogou jogou na dicotomia profundamente enraizada entre comida “verde”, de fonte vegetal, e carne. Dois homens estão na fila de um mercado, um com vegetais e tofu, o outro com carne e carvão – o primeiro homem reconhece a feminilidade de suas escolhas alimentares, e resolve essa crise comprando um Hummer.

Uma justaposição básica entre a comida percebidamente masculina e feminina.

Uma justaposição básica entre a comida percebidamente masculina e feminina.

A justaposição das compras dos personagens do comercial.

A justaposição das compras dos personagens do comercial.

A frase “recupere o equilíbrio” é apresentada no comercial; esse equilíbrio, conforme Rogers, “que o comercial recupera é a dominância da masculinidade hegemônica – não o equilíbrio ambiental, já que quaisquer benefícios atingidos através das escolhas dietéticas vegetarianas são “balanceadas” (neutralizadas) pela operação do hummer” (Rogers 2008). Nesse comercial, a masculinidade é conectada à destruição ambiental – o Hummer não está tentando disfarçar seu produto ambientalmente insalubre, mas está cedendo aos homens que podem esquecer sobre a destruição que sua masculinidade causa.

O protagonista do comercial, mantendo o "equilíbrio restaurado", ao comer cenoura em seu recém-comprado Hummer.

O protagonista do comercial, mantendo o “equilíbrio restaurado”, ao comer cenoura em seu recém-comprado Hummer.

Os homens que podem esquecer sobre essa destruição, de acordo com Rothgerber, são a maioria dos homens, que o fazem em suas justificativas para comer carne (Rothberger 2012). Nesse comercial, tanto a comida vegetariana quanto a falta de um Hummer são entendidos como “femininos”, o que adere ao código de masculinidade onde tanto o ambiente quanto a comida baseada em planta são femininos por conta da sua passividade e impotência percebidas e intrínsecas. Esse é apenas um em um amplo grupo de comerciais que refletem e perpetuam a masculinidade do mundo real, onde diversas crises são resolvidas de formas variadas através da inserção de carne ou outras atitudes masculinas.

Enquanto os comerciais agem tanto como espelho do que acontece no mundo como um agente reprodutor desses acontecimentos, outras representações de carne podem ser caricaturas da forma como a carne é convencionalmente consumida e pensada. Um dos mais espetaculares espaços e eventos de consumo de carne é o Wing Bowl anual que acontece na Philadelphia. Promovido pela principal estação de rádio esportiva em uma das arenas esportivas da cidade, competidores comedores, cercados por “wingettes”, (que são mulheres vestindo biquinis ou lingeries e contribuindo ao espetáculo do evento) comem o maior número de asas de frango que conseguirem.

“Macho americano” sendo servido por “Wingettes.”

“Macho americano” sendo servido por “Wingettes.”

Os vencedores do evento ganham SUVs ou Harley Davidsons, dois dos veículos mais masculinos disponíveis. Muitos competidores são patrocinados por clubes de striptease locais, e mulheres se expondo na platéia é um acontecimento cmum no evento. Para completar a relevância desse evento, o vencedor de 2013 e competidor top por mais de uma década, compete sob o nome “Macho americano”. Essa caricatura de todas as coisas masculinas, um espaço e evento tão profundamente masculinizado e sexualizado simultaneamente, ainda assim tem suas resistências: em 2004, Sonya Thomas, uma mulher de 45 quilos conhecida como “a viúva negra” (por derrotar seus oponentes muito maiores) venceu a competição de comer asas de frango. A competição do ano passado foi a segunda em que uma mulher venceu, Molly Schuyler, que estabeleceu o recorde da competição. Enquanto essas mulheres chegaram ao topo em um dos ambientes mais abertamente masculinos que eu já ouvi falar, a sexualização das mulheres naquele espaço, e portanto a sexualização da carne, é uma expressão de padrões societais amplos e históricos (Adams 1990).

Um vencedor do Wing Bowl em 2012.

Um vencedor do Wing Bowl em 2012.

Uma  “wingette” do Wing Bowl, adornada com asas.

Uma “wingette” do Wing Bowl, adornada com asas.

Sonya “Black Widow” Thomas, vencedora do Wing Bowl de 2004.

Sonya “Black Widow” Thomas, vencedora do Wing Bowl de 2004.

O espetáculo e as práticas dentro dessa competição estão cortando duas cenouras com a mesma faca com relação à crise que é abordada como um espaço masculino e de carne. As forças da desindustrialização corporativa e a virada da sociedade em direção ao ambientalimos, ameaças às formas tradicionais de trabalho e identidade do homem, são tipicamente entendidas como ameaças à masculinidade hegemônica e que são compensadas pelo consumo aumentado e altamente visível do consumo de carne (Potts & Perru 2010; Rothberger 2010). Outra crise é a percebida continuidade da “feminização” do local de trabalho e do aumento geral percebido das mulheres rumo à igualdade social, ameaçando a dominação masculina (Rothgerber 2010). Todas essas crises são solucionaas através do Wing Bowl, quando homens consumem carne em massa enquanto apoiados por mulheres fisicamente atraentes vestidas em biquinis.

Uma experiência típica no Hooters.

Uma experiência típica no Hooters.

Outros lugares como o Hooters, ou sua extensão mais egrégia, Twin Peaks (que é um espaço de carne para um outro paper), retificam essa mesma crise de maneiras semelhantes. Mesmo que com muito menos espetáculo, a caricatura ainda permanece. Na esfera dos restaurantes, o BurgerFi parece estar longe de um lugar como o Hooters ou um espaço espetacular de gula como o Wing Bowl. Entretanto, ajuda a resolver o mesmo set de crises que aqueles espaços de carne caricatos resolvem.

BurgerFi como um espaço "verde".

BurgerFi como um espaço “verde”.

Outra forma de resolver a crise masculina do afastamento da natureza, e de ser representado e praticado como não-verde, é através da incorporação do modo “verde” de comer – onde os animais são tratados de forma “orgânica” e “natural”, onde são criados com “justiça” por fazendas e não indústrias – no consumo de carne. A resolução dessa crise é inteiramente exeplificada pelo BurgerFi. Depois que o funcionário atrás do balcão entrega seu cheeseburger duplo com bacon, ovos, fritas e tudo o mais nele, ele lhe diz “obrigado por escolher ser totalmente natural”. Você então pode limpar sua boca e suas mãos com guardanapos 100% reciclados para que possa permanecer “livre de culpa” enquanto come seu hamburger todo natural, alimentado com pasto, free-range, criado com humanidade.

BurgerFi avisando você que seu consumo de carne é de fato "totalmente natural".

BurgerFi avisando você que seu consumo de carne é de fato “totalmente natural”.

Esse é um paraíso para a masculinidae em crise – o hamburger é o mais próximo da “natureza” que um hamburger pode ser, preenchendo a busca masculina por comer a carne de um animal sem nada mediando o processo a não ser o calor e sua escolha de acompanhamentos. Não há nenhuma objeção ética para isso, se você estiver ok com o consumo de carne (exceto pelo fato de que sua fazenda está localizada em Montana, o que faz com que seja extremamente insalubre ambientalmente transportar toneladas de vacas mortas de um lado do país para o outro). Mas presumindo que haja uma ignorância voluntária a respeito isso, BurgerFi parece ser a resposta. O ponto aqui é que nesse espaço, dá-se o conjunto definitivo de justificativas, mas a questão de comer animais e por que nós queremos fazer isso não é questionado, porque isso seria absurdo dentro do seu modelo de negócios de vender carne.

Eles querem muito, muito que você saiba que o seu hamburger de carne é "totalmente natural". Você pode ser um embaixador desse modelo de negócio com essas pulseiras grátis.

Eles querem muito, muito que você saiba que o seu hamburger de carne é “totalmente natural”. Você pode ser um embaixador desse modelo de negócio com essas pulseiras grátis.

Esse modelo de negócios é incluído dentro de uma maneira relativamente nova de consumir carne, onde, como Jovian Parry coloca, “gastrônomos discorrem de maneira lírica sobre o sabor superior da carne com uma estória”, esforçando-se para “apresentar o fato de os animais tornarem-se carne como algo humano, benevolente, em um processo completamente natual. Ao fazer isso, eles aliviam a ansiedade que veio a caracterizar o discurso em torno da produção de carne nos anos 80 e 90, como o medo da comida, riscos à saúde bem publicizados, e o aumento da consciência popular sobre os problemas ambientais e éticos associados com a agricultura e pecuária industriais, tudo isso combinado para enfraquecer o prestígio tradicional da carne animal nas sociedades ocidentais” (Parry 2010). Essa resolução de crise, esse alívio de ansiedade ao qual o BurgerFi se dedica, nunca tenta enfraquecer a premissa de que sacrificar animais é ok. Mesmo que seja feito “do jeito certo”, as razões pelas quais isso acontece, e é vendido e promovido da forma que é, é porque a masculinidade que faz essas práticas de consumo de carne necessárias e que é reproduzida pelas práticas nesses e desses espaços de carne.

Esses três exemplos de espaços de carne são diferentes em muitas formas mas ainda falam para uma verdade unificada, uma relação de dominação formada através das interligadas crise e resolução dela. Nesses espaços de carne, o consumo da carne dá aos homens a vitalidade de que eles precisam – nenhum tipo de vitalidade biológica, mas a vitalidade da dominação – para sustentar sua identidade hegemônica e poderosa. Aqui, onde esses processos e ideologias múltiplas e concorrentes são visíveis, é um bom lugar para pensar a respeito ou para além desses espaços e sobre o que acontece dentro e por causa deles. A análise acadêmica apresentada nesse projeto representa uma forma de resistência ao espaço da carne, assim como as práticas de veganossexualidade, a utilização de vegetais em restaurantes, e a prática óbvia de (especialmente homens) tornar-se vegetariano ou vegano, dentre outras formas de resistência.

Como homem, eu perssoalmente compreendi a sensação de uma identidade masculina holisticamente alterada depois de rejeitar a carne. Antes de me tornar vegetariano no verão passado, eu sempre fui conhecido como o cara que podia comer mais asas de frango que qualquer outra pessoa na “noite da asa”, ou que sempre estava cozinhando bacon, ou que “idolatrava” carne como a maioria dos homens americanos e cujo corpo e estilo de vida combinavam com minha persona.

Uma de muitas razões que me fizeram rejeitar carne é por causa de sua conexão tóxica com a masculinidade conforme descrita nessa dissertação – eu podia sentir que meu estilo de vida, minhas práticas, e minha incorporação total à masculinidade se chocavam com as políticas que eu queria representar. Desde minha mudança para o vegetarianismo, eu pensei em como compensar esse ataque à minha masculinidade e o que isso significava, mas eu me dei conta que isso invalidaria o propósito. Embora a GM tenha me dito isso, não existe “equilíbrio” a ser atingido. Eu me dei conta de que não perdi nada; apenas ganhei clareza a respeito do que esse projeto está tentando documentar. Como um amigo meu vegano explicou, uma vez que a carne animal está presente em um espaço, os termos de conversa sobre o consumo de carne são inerentemente diferentes, menos abertos à imahinação e oportunidade. Como uma pessoa que não come mais carne, eu não estou mais ensombrado pela necessidade de justificar minhas práticas; eu vejo o consumo de carne pelo que ele é. E eu posso ver o que o consumo de carne não é – não é empoderador, fortalecedor, vitalizador. É sim, porém, dominador, hegemônico; em outra palavra, masculino.

Pequeno Epílogo:

Eu reconheço que muitas mulheres também comem carne. Algumas mulheres o fazem para reivindicar a feminilidade e reconquistar os termos da dominação (Parry 2010). Para alguns, o consumo de carne não é apenas masculino, mas também feminino. Espero ter realçado não apenas as amplas afirmações que foram feitas sobre a coneção entre carne e masculinidade, mas também a convolução e multiplicidade de significados que a carne tem. Essa dissertação concentra-se no consumo de carne por homens porque homem-comendo-carne é o retrato dominante de como a carne é consumida, e essa dissertação foi escrita para desconstruir essa representação dominante.

References:

Adams, Carol J. The sexual politics of meat: A feminist-vegetarian critical theory. Continuum: New York, 1990.

Parry, Jovian. “Gender and Slaughter in Popular Gastronomy.” Feminism & Psychology 20.3 (2010): 381–96.

Potts, Annie and Jovian Parry. “Vegan Sexuality: Challenging Heteronormative Masculinity through Meat-free Sex.” Feminism and Psychology, 20 (2010): 53.

Rogers, Richard A. “Beasts, Burgers and Hummers: Meat and the Crisis of Masculinity in Contemporary Television Advertisements.” Environmental Communication, 2(3) (2008): 281–301.

Rothgerber, Hank. “Real Men Don’t Eat (vegetable) Quiche: Masculinity and the Justification of Meat Consumption.” Psychology of Men & Masculinity 14.4 (2013): 363–75.

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