Férias parte IV – Barco para Macapá

Voltei à minha rotina normal o que significa que os posts de relatos sobre as minhas férias estão cada vez mais difíceis de escrever, já que o tempo está apagando minhas memórias. Serão provavelmente cada vez mais curtos, pois.

Dia 16

Finalmente, as 18h, consegui pegar o barco para Macapá. Me despedi novamente de Santarém – e como é difícil me despedir de Santarém – mochila e rede nas costas, fui. Esse barco não era bem um barco, era uma balsa. Então não era tão bonito assim como aquelas gaiolas que a gente tá acostumado a ver por aí.

279

Fui direto para o andar superior, já que o do meio parecia estar lotado demais. Mas foi só impressão mesmo, a viagem acabou sendo bem tranquila, poucas pessoas. A janta já começou errada, era canja de galinha. Por sorte, entraram aqueles vendedores logo antes de o barco sair e comprei maçãs e tangerinas (sabia que eles comem tangerinas verdes???).280 285

A viagem até que foi bem solitária, não fiz muitos amigos como das outras vezes. Mas foi boa para colocar a leitura em dia e também para assistir séries no computador. E ficar na rede né, eu tava esperando ansiosamente por esses dias. A surpresa foi que a viagem pra Macapá leva mais tempo do que eu imaginava – levamos 36 horas. A parte boa foi rever o pôr do sol no Amazonas. E eu digo isso para todo mundo e repito aqui: as câmeras não conseguem, de jeito nenhum, chegar perto da beleza que é esse pôr do sol. É muito, mas muito mais incrível do que as fotos registram. Pra variar, eu, a deslumbrada, passei horas intermináveis olhando pro rio, pras casas dos ribeirinhos, pro sol nascendo e se pondo. Olhando pensando olhando pensando.

301

E não é só o nascer e o pôr do sol que são incríveis fantásticos absurdamente maravilhosos. A noite o céu estava estrelado de um jeito que eu nunca vi antes. Tentei bater foto de todo jeito, mas acho que não rola com uma câmera que não seja profissional. Fica só na memória mesmo, o céu mais cheio de estrelas que já vi, no meio do tudo que é a Amazônia.

Apesar daquele céu estrelado maravilhoso, a noite de sábado pra domingo foi terrível. Você pode não acreditar no que eu vou dizer, mas acho que barco lotado é mil vezes melhor do que barco vazio. Quando chegamos no Jari, que é um rio que desemboca no Amazonas, o rio ficou super mexido, o barco balançada muito, e bateu um vento muito forte. Como tinha poucas redes lá onde eu estava, as redes balançavam demais com o vento. E cada vez que eu achava que iria conseguir dormir, levava uma bundada de alguém na cabeça. Eu não lembro de ter dormido tão mal antes… A noite seguinte foi mais tranquila, pelo menos.

Dia 18

Chegamos em Santana as 3 da manhã de segunda-feira e eu teria que esperar até as 6h para pegar um ônibus para Macapá e ir para a casa da minha amiga (de couchsurfing) que iria me hospedar em Macapá. Eu já fiquei encantada com ela ao encontrar o perfil dela cheio de fotos de militância feminista, só para depois descobrir que ela é militante do PSOL. Muito amor!

Esse planejamento de viagem para Macapá também foi um fracasso absoluto. Eu olhei no maps e parecia que Macapá era tão pertinho de Santarém, então calculei viagem de um dia imaginando que o barco saísse de manhã. E quando botei no meu planejamento Macapá para Belém também imaginei que iria mais um dia. Ou seja, reservei 3 dias para Macapá. Mas ao saber que o barco sairia de Santarém as 18h e levaria 36h e que o barco para Belém leva outros dois dias… Sobrou um dia apenas para poder explorar Macapá (além do dia da chegada).

Sendo que o dia da chegada foi trágico porque eu estava mareada. Uma sensação horrorosa essa, aliás, que nunca tinha acontecido comigo. Eu não cheguei a passar mal de vomitar, mas fiquei o dia inteiro me sentindo muito tonta, era muito bizarro como eu sentia como se ainda estivesse no barco. Até o celular ficava subindo e descendo na frente dos meus olhos. Acabei preferindo não sair por medo de passar mal na rua.

Durante o almoço, conversando com a família da minha host (que ainda não tinha chegado em casa de uma viagem que fez ao Oiapoque), escutei novamente o termo “remoso”. Já tinham me falado de alimentos remosos quando eu estava em Monte Alegre. Seu Manoel Braga me explicou: basicamente quando você está doente ou mesmo quando está com algum machucado, ingerir alguns alimentos prejudica a sua recuperação. Esses alimentos são os tais alimentos remosos. E aparentemente todo mundo sabe quais são. São basicamente todos os alimentos com alta concentração de proteína e/ou gordura animal. Eu nem preciso saber dessa lista porque sou vegana, e acho q todos deveriam ser, hein!🙂

A noite saí com uma amiga da minha host, fomos ao Bar do Nêgo, na orla de Macapá. Consegui me virar bem indo de ônibus sozinha até lá. Parei para comer macaxeira frita num food truck, e quando ela chegou fomos comer tacacá. E descobri que o tacacá de Macapá não é tão bom quanto o de Santarém. O jambu não adormecia a boca, e a Jacke disse que é porque eles usam uma variação do jambu que realmente não tem o efeito mágico do jambu original. Muito bem. No bar, coincidentemente encontramos uma galera do PSOL de Macapá e que bela surpresa, estar entre companheiros! Militância feminista psolista amazônida, tá tendo.

12067777_893314644079246_212527518_n

No dia seguinte fui finalmente conhecer o Marco Zero. Macapá é a capital do meio do mundo, e por ela passa a linha do Equador. Fui caminhando até lá, ficava uns 2km da casa onde eu estava hospedada. O monumento é bonito, fica num prédio gigante, mas não tem nada ao redor, e todas as lojinhas estavam fechadas. Então basicamente foi só chegar lá, registrar o momento em que eu estava com um pé em cada hemisfério, e voltar pra casa.

12004153_10206572489005426_5934644603335928389_n

No caminho de volta para casa parei em outro food truck para comer alguma coisa e tomar suco de cupuaçu, e lá fiquei batendo um papo com um moço que recém tinha saído do trabalho. Achei interessante ele ter me perguntado se eu, como pedagoga, achava que as pessoas eram mesmo mais inteligentes no sul.

Não, querido. Não acho. Nem um pouco. Acho que a inteligência escolar do sul é muito vestibulística. Então sim, provavelmente no sule  sudeste você encontra índices mais bonitos em testes de avaliação, mais pessoas que sabem de cor da fórmula de Bhaskara. Mas uma galera que mal sabe de onde vem os ovos ou que sequer viu uma galinha. Então o que exatamente é inteligência para você?

Dia 19

Meu barco para Belém iria sair as 15h de Santana, então eu só tinha a manhã para visitar o Museu Sacaca, que só abria as 10h. Mas eu não podia deixar Macapá passar tão em branco assim, já que afinal de contas eu não consegui provar a famosa gengibirra muito menos assistir uma apresentação de marabaixo. Aliás, queria MUITO assistir o marabaixo:

(Marabaixo é uma festividade folclórica de origem africana, realizada pelas comunidades negras do estado do Amapá. Consiste em homenagear o Divino Espírito Santo e a Santíssima Trindade com missas, novenas, ladainhas (parte sagrada dos festejos) e danças de roda (parte profana dos festejos) puxada pela batida de tambores chamados de “caixas de marabaixo”. Em geral, os homens tocam as caixas enquanto as mulheres cantam versos improvisados chamados “ladrões”. Chama “ladrões” porque ~roubam~ situações do cotidiano, transformando em música. Agora a parte ainda mais incrível: a dança é de passos curtos, pois segundo a história os negros estavam acorrentados e não podiam fazer movimentos rápidos e amplos.)

Acho que vale muito a pena mencionar que eu sou uma pessoa amada pelos mosquitos. Em Blumenau moro perto de um ribeirão em uma área super úmida, e azamigas sempre precisam passar repelente quando vêm à minha casa, eu não sinto nada. Quando estive no Amazonas em 2014 todo mundo perguntou “verdade que tem muito mosquito?” e eu respondi que claro q não, sofri nadinha. Mesma coisa em todos os outros lugares que eu fui nessas férias. Porém não em Macapá. Carapanãs selvagens adoraram o gosto do meu sangue e gastei quase todo meu repelente nesse pouco tempo que passei lá.

Nesse dia começou a me bater uma bad porque a viagem já estava mais longe do começo e mais perto do fim. Me sentia cansada. Já havia completado 20 dias viajando, tinho mais 10 a minha frente, e estava onde sempre quis estar. Mas tudo – TUDO – que chegava a mim relacionado a Blumenau me entristecia. Se foi difícil voltar um ano e meio atrás, com certeza seria bem mais difícil voltar agora.

Meu retorno ao norte – e especialmente a Santarém – não serviu para eu perceber que minha primeira visão foi de turista e que a lá nem era tão bom assim. Lá é bom demais (bom pra porra, como falam). Lá é o melhor lugar para se estar. Aliás, lá é o melhor lugar para EU estar, pois tenho certeza que a maioria das pessoas que me acompanha não veria o que eu vejo nessas cidades todas. Enfim. Depreshow, eu. Normal.

Bom, acordei, tomei café da manhã, e fui para o museu. Aliás, que lugar incrível. Amei! Foi uma visita a jato, por motivos de tinha que estar em Santana as 14h para pegar o barco, mas valeu cada segundo! O museu tem esse nome em homenagem a Raimundo dos Santos Souza, vulgo “Sacaca”, curandeiro local de grande importância para a difusão da medicina natural junto à população amapaense. E logo de cara, já vejo essa escultura ao ar livre de jogadores de marabaixo.DSC03023

Logo em seguida, as urnas funerárias da antiga civilização Maracá que habitava o Amapá. Taí uma história que vale muito a pena conhecer. As urnas funerárias Maracá são conhecidas desde o final do século XIX. Foram encontradas próximo ao rio Maracá que é um pequeno afluente do rio Amazonas. A utilidade das urnas é a de preservar o corpo dos mortos como forma de perpetuar os índios depois da morte. Existem algumas curiosidades sobre elas, a primeira é que dependendo do sexo do falecido era moldado o órgão genital na urna. E a outra é a forma que elas se encontram. Estão como se estivessem sentados com a mão sobre os joelhos. Essa posição é um símbolo de respeito e devoção.

DSC03024

Uma réplica de casa do ribeirinho era a próxima atração. Como eu queria uma casinha assim!!! Na varanda, a ribeirinha com seu cachorro, supostamente esperando o marido voltar da pesca. Adorei a cozinha do lado de fora, aberta, com as panelas super bem ariadas penduradas…

DSC03025 DSC03026

Depois a réplica da casa do castanheiro. E olha ali o ouriço de castanha de sapucaia! Gente, P-R-E-C-I-S-A ter essa castanha aqui. Por que eu não trouxe semente, por que, por que???

DSC03027

Abaixo, uma sumaúma, aquela árvore que fica gigantesca do tipo que precisa duzentas pessoas pra abraçar ela, sabe? Essa aí ainda era beibe. Se eu não me engano a maior sumaúma do Brasil fica na FLONA, em Santarém, lugar que eu não fui por motivos que até agora não entendo????

DSC03028

Proximo: a casa da farinha. Essa panelona aí é a mesma que os índios da comunidade do Tupé usam pra fazer aquele beiju que eu AMEI e sobre o qual falei no relato das últimas férias, AQUI. Mas na casa da farinha me explicaram que usa a panela pra fazer a farinha mesmo.

DSC03029

Os instrumentos pra ralar a mandioca brava… Aliás, aprendi tudo sobre como processar mandioca, sei fazer farinha, tucupi, goma… Só falta plantar a danada aqui (Seu Raul me falou que nem pode).

DSC03030

Olha, a frutinha que depois vira colorau! E que os índios usam pra se pintar: urucum.

DSC03031

A parte mais emocionante do museu é a Casa da Parteira. Essa parte do museu retrata como acontece um parto normal e destaca a importância das parteiras na Amazônia. Até hoje, nos locais mais distantes da região amazônica, são as parteiras quem acompanham as mulheres antes, durante e após o parto. Me lembrou tanto das amigas que lutam pelo parto humanizado, por um acesso mais simples às doulas…

No caso essa casa era uma réplica EXATA da casa de uma parteira famosona chamada Maria Raimunda Queiroz. E tudo, tudo mesmo que tinha dentro da casa pertencia a ela, e todos esses objetos foram doados pela família ao Museu. Ou seja, dava pra respirar o espírito dessa mulher!

DSC03032 DSC03033

Alguma dúvida que vai ter essas floreiras de pneu na frente da minha casa já já???

DSC03034 DSC03035

No caminho para a próxima atração encontrei um amiguinho. Uma iguana? Nem sabia que rolava isso no Brasil, iguana é silvestre?

DSC03036

Essa penúltima parte do passeio foi num regatão, que era um barco que funcionava como um supermercado levando e trazendo mercadorias de uma cidade à outra pelo Rio Amazonas.

O proprietário do “Regatão”) era alguém que tinha posse suficiente para ter um barco a motor, no qual percorria os rios e igarapés da Amazônia trocando alimentos, utensílios e outros gêneros por produtos naturais tirados da floresta, que atingiam alto valor nos mercados das grandes cidades.

Fosse à base de venda ou escambo, o resultado era sempre o ganho, em elevado percentual de lucro – em seu favor, é claro – daí o conceito negativo que desfrutavam, pois não faziam negócios para perder. Suas embarcações eram verdadeiros armazéns flutuantes, levando periodicamente os mais variados produtos para suprir a carência de um povo que deles dependia para se abastecer com um pouco de quase tudo.

Tecidos, bebidas, ferragens, cereais, especiarias, utensílios de cerâmica e de alumínio, paneiros de farinha, sal, açúcar e até remédio para tratar de malária são alguns exemplos do que era vendido, sendo certo que na medida em que eles os traziam, vinham também buscá-los, de preferência os resultantes da atividade extrativista dos ribeirinhos, para comercializá-los com grande margem de lucro nos mercados de Belém ou Manaus.

DSC03038 DSC03039

E por último, a réplica de uma casa Wajãpi, um povo indígena que ainda existe em Macapá, em algumas regiões do Pará e na Guiana Francesa. Eu não consegui encontrar detalhes sobre a organização social deles, apenas sei que, apesar de serem um povo matrilinear, é extremamente machista (como já falei AQUI). Mas encontrei esse texto bem interessante sobre tradições desse povo AQUI.

Curti essa escadinha, que o guia disse que é para evitar que animais selvagens invadissem a casa deles.

DSC03041

Eu ia falar sobre o barco para Belém e o meu primeiro dia lá, mas nossa, esse post já está gigante…

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s