O horror às DRs

A DR, a discussão de relacionamento, foi algo que eu odiei uma vida inteira. Como uma pessoa sempre super racional e nada emocional, com milhões de travas e couraças e mecanismos escondendo as coisas que eu sentia até de mim mesma, sentar e olhar no olho de outra pessoa para falar sobre nossa relação era o mais próximo que eu poderia chegar de um pesadelo.

Hoje eu tenho uma amiga que está questionando várias coisas em seu relacionamento, e está tentando manifestar seu desejo mais do que antigo de abrir a relação. E ela tem me contado sobre as tentativas de conversa. Mas PIOR: ela me manda prints das tentativas de conversa. Prints. Ele se nega a conversar, ao vivo, sobre o relacionamento que eles têm. E um assunto sério como esse, onde se modificaria o modelo de relacionamento dos dois, ele prefere (não) discutir por mensagens.

Esse não é um caso isolado, não é o único, não é o primeiro, não será o último. Eu mesma já tive, no passado, cents DRs por mensagens. Bem mais fácil, especialmente pra mim, escrever do que falar. E não, hoje eu não sou exatamente a rainha das conversas ao vivo. Já fui repreendida mil vezes com um olha pra mim não pro teto– Mas as ideias tão lá no teto, poxa, me deixa. DR pra mim ainda é meio que uma coisa parecida com análise, fico falando no divã pensando e olhando pro além. Estamos trabalhando nisso.

A parte principal é: estamos trabalhando nisso. Estamos trabalhando constantemente para construirmos uma forma diferente de lidar com os nossos sentimentos e com os nossos afetos, e para expressarmos da maneira mais autêntica, genuína e amorosa possível todo esse turbilhão de emoções – alguém não tem um turbilhão de emoções dentro de si?

Pois. Fiquei boladona com esse lance das DRs por mensagens. Perguntei: tá, vocês não conversam ao vivo, um olhando pro outro? A resposta: ele não quer, nem nos falamos ontem a noite. Passam a noite juntos, dormem juntos, não trocam uma palavra. Chegam no trabalho, abrem o messenger (ou whats, que seja) e começa a briga. Aquela briga clássica de sempre: muito ego, muita falação, pouca empatia, pouca audição.

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É isso que eu venho falando há séculos sobre o modelo tradicional de relacionamento. No caso de namoro. Os relacionamentos monogâmicos tradicionais, da forma que eles operam, fazem com que as pessoas não lidem e não conversem sobre aquilo que elas estão sentindo. E isso é uma grande merda. Porque quando você tem um relacionamento tradicional, você tem também um suposto script que você tem que cumprir. Todo mundo sabe o que é um namoro. Os passos que se dá nesse tipo de relação, as coisas que você pode ou não fazer (e que deve ou não fazer), que depois de tantas ficadas se conhece os amigos e depois a família e daí se anda de mãos dadas no shopping e daí faz planos para um dia casar, ter beibes, etc. Se todo mundo sabe a ordem ~natural~ das coisas,  então nós não precisamos conversar sobre isso, conversar sobre nada, porque nós teoricamente sabemos como deve ser um relacionamento. Porque esse relacionamento tradicional é o padrão, ele nos é dado desde que nascemos. Não precisa ser negociado.

Por tudo isso, uma DR sempre é vista como uma coisa ruim, porque nós só precisamos ter uma DR quando uma das duas pessoas envolvidas não cumpriu aquela suposta parte do relacionamento que ela deveria saber que deveria ter cumprido. Ou seja, mijou fora do penico, vamos fazer uma DR.

Aí o que você vê? Você vê um monte de relacionamentos super complicados, super problemáticos, onde as pessoas se recusam a lidar com as coisas que estão angustiando elas, se recusam a ouvir o outro porque o outro deveria saber como é um relacionamento então é desnecessário explicar. A gente confia no bom senso do outro, que vai saber que tal e tal coisa não se faz ou não se fala e fica puto quando o outro não tem esse tal bom senso de adivinhar como as coisas devem funcionar. E daí… Ficamos guardando esse tipo de sentimento negativo, esse tipo de mágoa, das coisas não ditas, dos acordos tácitos que não foram cumpridos, porque não somos capazes de olhar um no olho do outro para falar sobre aquilo que estamos sentindo.

Vejo relacionamentos cheios de mágoas e de ressentimentos e de vingancinhas. Ele não respondeu minha mensagem em cinco minutos, só de vingança vou ignorar ele pelo resto do dia. E joguinhos, né. Os malditos joguinhos que eu nunca soube jogar. E onde que isso dá certo? onde que isso é fórmula de sucesso? Não é!

Como pode você não ter interesse em saber como o outro está se sentindo com relação à você e ao relacionamento? Como pode você simplesmente presumir as coisas e não estar disposto a ouvir, a perguntar, a ter empatia pela pessoa que você acha que ama?

A ferramenta principal para construir uma relação aberta (e na verdade deveria ser a ferramenta principal para se construir QUALQUER TIPO de relação) é a transparência, não apenas de atos, mas de intenções. E isso só vai acontecer mediante um esforço (esforço mesmo) conjunto, das duas ou mais pessoas, no sentido de se comunicar de maneira genuína e eficaz.

Como estamos construindo nossos afetos?


Tem muito tempo que quero escrever sobre relacionamento aberto e como vejo e vivo essa experiência, esse post é para ser uma introdução a essa reflexão. Mas como existem mais pessoas envolvidas além de mim, talvez demore.

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