A conexão feminista

Há mulheres que acreditam que ser feminista é ser vegetariana. De onde elas estão tirando essa ideia?

Por: Carol Wiley (quem quiser o pdf completo é só pedir pra mim).

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Trudy trabalhou pelos direitos das mulheres por anos. Como membra do conselho diretor da National Organization for Women (NOW) em uma cidade grande, Trudy era considerada como uma feminista mainstream pelos padrões de qualquer pessoa. Els tem uma carreira em uma grande corporação americana, e suas visões pessoais e trabalho voluntáio refletem todas as causas comumente feministas: abrigos para mulheres agredidas, pagamentos iguais por trabalhos iguais, candidatas políticas empáticas. Mas somente recentemente Trudy considerou acrescentar mais um aspecto ao seu feminismo – desistir da carne.

Por que Trudy acha que há alguma conexão entre feminismo e vegetarianismo?

Há duas razões: A primeira, segundo Trudy, é que “animais têm sido subjugados de maneiras similares à que mulheres foram subjugaas por milhares de anos, e uma feminista verdadeira se preocupa com um acordo mais justo para mulheres e para todas as formas de vida nesse mundo.” Sua segunda razão é tão importante quanto a primeira. “O que também me impressionou é que se nós pegarmos todos os grãos que os animais precisam para comer, nós poderíamos alimentar todas as pessoas famintas do mundo”, diz Trudy. “Essa é uma razão feminista, porque a maioria das pessoas que passam fome no mundo são mulheres e crianças.

Não há um movimento bem definido chamado “as feministas vegetarianas”. Não espere encontrar a filial da NOW que a Trudy administra (or qualquer outro grupo da NOW) promovendo ativamente o vegetarianismo por enquanto. Entretanto, parece haver uma ideia crescente entre feministas de que o vegetarianismo é uma parte importante do feminismo. Descobrimos que grupos de mulheres – sejam eles feministas tradicionais, espirituais, ambientais, lésbicos ou orientados para a defesa dos animais – estão começando a desenhar uma conexão entre feminismo e uma dieta que não apóie a morte, doencas ou devastação ambiental, fatores geralmente associados a uma cultura que coloca humanos (e homens em particular) no topo de uma hierarquia de coisas vivas. Essas mulheres acreditam que a carne é um símbolo da opressão dos animais, do meio-ambiente e, finalmente, das mulheres.

O vegetarianismo como assunto feminista é admitidamente um conceito radical para a maioria das pessoas. Mas, entretanto, não é um assunto recente. Muitas ativistas e sufragetes no começo do movimento pelos direitos das mulheres no país (EUA) eram vegetarianas, e o vegetarianismo ético era integrado aos seus valores feministas.

Exemplos abundam na literatura feminista do final dos anos 1800 e começo dos 1900. Por exemplo, uma edição de 1870 da Shafts, um jornal feminista vegetariano, argumenta que “o caso dos animais é o caso das mulheres”. Na conferência da National American Woman Suffrage Association em 1907, a tesoureira nacional foi advertida por vestir um chapéu cheio de plumas e foi ordenada a guardá-lo pelo restante da conferência. Como uma palestrante falou: “Nada me persuadiria a comer uma galinha, ou ser conivente com o horror de aprisionar animais inocentes por sua pele. Me causa um arrepio de horror quando eu vou a uma convenção sobre sufrágio feminino e vejo mulheres com troféus pavorosos de assassinato sobre suas pessoas.” As feministas Elizabeth Candy Stanton e Sojourner Truth frequentavam um instituto de saúde vegetariana, onde em um jantar elas levantaram seus copos com bebidas não-alcóolicas para brindar: “Abstinência Total, Direitos das Mulheres e Vegetarianismo.” Escritoras como Louisa May Alcott, Mary Shelley e Virginia Woolf também usaram imagens vegetarianas em seus trabalhos para promover a não-violência e elevar a posição das mulheres na sociedade.

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O vegetarianismo também foi associado à ativistas lésbicas no movimento de mulheres nos últimos 100 anos, de acordo com alguns historiadores. Vegetarianismo como uma rejeição da dominação masculina ainda é assunto na comunidade lésbica. Brett Garrett, fundador dos Vegetarianos Gays e Lésbicas de San Diego (até onde sabemos, a única sociedade vegetariana para homossexuais nos Estados Unidos), relata um crescimento rápido das filiações femininas; 33 mulheres se juntaram ao grupo durante os dois meses que estivemos pesquisando essa estória. Uma membra contou que 10 mulheres de sua comunidade lésbica se tornaram vegetarianas no último ano.

Ainda assim, embora haá uma história d vegetetarianismo entre feministas, nunca foi exigido que o vegetarianismo fosse incluído nas demandas das ativistas pelos direitos das mulheres; na verdade, feministas vegetarianas eram a exceção, não a regra. A avó sufragista de Glorian Steinem era vegetariana, por exemplo mas mesmo assim continuou a servir carne para sua família. (E Steinem serviu vitela em sua super-comentada festa de aniversário de 50 anos.) Susan B. Anthony, nós lemos, correu para casa depois de dois dias visitando suas amigas vegetarianas, sem fazer a menor cerimônia com relação ao seu desejo de afundar os dentes em um grande pedaço de bife,

É diferente hoje? Embora ainda seja um conceito radical, o vegetarianismo como um assunto feminista está aparecendo novamente. Para entender o por que, é necessário compreender a natureza do feminismo hoje, uma coleção descentralizada de grupos locais que trabalha em assuntos individuais. Adicionalmente, o termo “questões de gênero” hoje inclui algumas coisas diferentes do que incluía na década de 1970.

As Gloria Steinems e Betty Friedans daquela era abriram caminho para a geração atual de mulheres, uma geração que levou o feminismo um passo adiante. Friedan descreve a evolução do feminismo em seu livro The Second Stage (Summit Books, 1981). Nos anos 1970, as mulheres podem ter tido a ideia errada sobre o que igualdade significa, disse Friedan. Elas podem ter negado sua feminilidade – ao adiar a maternidade, por exemplo – em sua luta pelo direito a entrar no mercado de trabalho em condições iguais às dos homens. Mas nos anos 1980, as mulheres lutaram para resgatar tua feminilidade ao exigir a licença maternidae sem penalidade. Em outras palavras, as mulheres perceberam que elas não queriam ser como os homens (que tinham seus próprios problemas), mas que tanto mulheres quanto homens precisavam mudar para que a sociedade pudesse incorporar valores femininos.

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A maioria desses chamados valores femininos eram considerados questões de gênero alguns anos atrás mas agora são considerados mainstream: benefícios para a maternidade, licença maternidade e serviço de creche no local de trabalho. Mas valores femininos incluem não apenas igualdade ou assuntos de família; eles parecem estar se expandindo para incluir uma reverência a toda forma de vida e ao meio-ambiente, e grupos surgiram para tratar desses assuntos.

Muitos desses grupos se consideram feministas em primeiro lugar; e suas outras preocupações derivam de seu feminismo. Como uma escritora feminista disse: “Há uma variedade de perspectivas no movimento feminista hoje. Faz sentido porque não existe uma só maneira de uma mulher viver hoje, então a teoria feminista terá uma variedade de formas de se desenvolver… Está tudo interconectado.”

Connie Salamone, uma ambientalista de longa data, escritora e ativista vegetariana pelos direitos dos animais, concorda. “Mulheres não chegam ao vegetarianismo através do feminismo mainstream por si”, diz Salamone. “As mulheres estão chegando ao vegetarianismo através das muitas facetas do feminismo: espiritualidade, ambientalismo, direitos dos animais e saúde.”

Se as mulheres mainstream algum dia reconhecerem o vegetarianismo como um assunto feminista, será mais provável que seja um resultado do trabalho das chamadas ecofeministas. Desde os anos 1970 essas mulheres têm feito a conexão entre a opressão das mulheres e a dominação do meio-ambiente pela humanidade. Muitas ecofeministas estão particularmente preocupadas com os efeitos devastadores da agricultura baseada em carne para os animais e a Terra. Essas são as ecofeministas que estão transformando o vegetarianismo em assunto.

Não há um grupo nacional de mulheres chamado “As Ecofeministas” e não há lugar para onde enviar um cheque caso você queira se juntar a elas (embora você possa encontrar algumas ecofeministas em seu grupo verde local). “O termo ‘ecofeminismo’ foi cunhado pela escritora francesa Françoise d’Eaubonne em 1974 para representar o potencial das mulheres de fazer uma revolução ecológica”, escreve Caroline Merchant no New Internationalist, um jornal sobre assuntos globais. Porque as mulheres tem a habilidade de gerar filhos, elas são percebidas como estando mais próximas da natureza, escreve Merchant. A capacidade de gerar filhos traz consigo o desejo da mulher de fornecer um lar e comunidade saudáveis para suas famílias. “O ecofeminismo é uma resposta à percepção de que tanto as mulheres quanto a natureza foram desvalorizadas na cultura ocidental e que ambos podem ser elevados e libertados através de ação política direta”, escreve Merchant.

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O ecofeminismo é essencialmente um movimento ecológico internacional de base para recuperar e manter os recursos naturais da terra. Um exemplo de ecofeminismo é o movimento de abraçar árvores na Índia, onde as mulheres preservam florestas nas comunidades ao abraçar árvores desafiando os tratores que se aproximam para derrubá-las. Outro exemplo é o de mulheres nos Estados Unidos que se juntam para protestar contra o depósito de lixo tóxico em suas comunidades.

Embora os números sejam difíceis senão impossíveis de mensurar, as ecofeministas são as vegetarianas mais vocais entre grupos de mulheres, mais provavelmente porque o tratamento que a sociedade dá aos animais e à natureza é descaradamente similar ao tratamento tradicional dado às mulheres.

Nem todas as ecofeministas entretano insistem nessa conexão com os animais. Salomone, por exemplo, é bem conhecida nos círculos ecofeministas e vegetarianos pelas suas simpatias pelos direitos dos animais; de fato, seus primeiros escritos e campanhas pessoais sempre apontaram a conexão entre a opressão das mulheres e dos animais. Mas Salamone agora praticamente abandonou o argumento. Ao invés disso, agora ela se concentra nos assuntos ambientais em torno da produção de carne, apresentando essa como mais uma maneira através da qual os humanos oprimem a natureza. Não se equivoque – Salamone ainda é uma ativista pelos direitos dos animais, mas ela acredita que é um assunto radical demais para o americano mediano.

“A conexão vegetariana-feminista não virá através do argumento dos direitos dos animais para o mainstream”, diz Salamone. “Mas virá através da apresentação da ética ambiental, porque dessa forma não é moralista, nem pessoal, e todos já adotaram essa ética.”

“A ética ecofeminista da Terra como nossa casa é mais atraente”, continua Salamone. “Agora eu pergunto, ‘você está machucando a Terra?’ e não ‘você pessoalmente está matando animais?’ As pessoas não querem ser atacadas pessoalmente. Se você está sendo oprimido, você não quer ouvir que também é opressor. Mulheres não querem carregar esse fardo.”

Carol J. Adams se considera uma ecofeminista em primeiro lugar, e uma ativista pelos direitos dos animais em segundo lugar. Seu livro A Política Sexual da Carne: uma teoria crítica feminista-vegetariana (Continuum, 1990), aborda o vegetarianismo da perspectiva do que poderia ser chamado de “opressão de espécies”. Em outras palavras, ela diz, mulheres e animais tem sido oprimidos de maneiras semelhantes durante a história. Não foi a primeira a fazer a conexão feminista-vegetariana – ativistas como Salamone e a colega Nellie Shriver tem se concentrado nesse assunto por quase vinte anos, e as sufragetes certamente fizeram a conexão – Adams provavelmente é a primeira a receber atenção nacional mainstream.

“Uma mitologia permeia toda a cultura de que a carne é uma comida masculina e que comer carne é uma atividade masculina,”, escreve Adams, uma palestrante sobre direitos dos animais e profesora de teologia na Perkins School of Theology em Dallas. Carne é considerada masculina e é associada com virilidade, ela diz; vegetais, frutas e grãos são considerados femininos e de segunda classe. Isso porque os homens tradicionalmente foram os caçadores, e em sociedades de caça, os homens sempre dominaram. Aqueles com poder – tipicamente machos – “sempre comeram carne”, escreve Adams, enquanto o resto da sociedade – mulheres, crianças, pessoas de cor, quem quer que fosse considerado de segunda classe na cultura – tinham que se virar com o que sobrava. Como resultado a carne tornou-se símbolo de poder.

Exemplos de culturas onde carne é a comida dos podersos podem ser encontrados pelo mundo inteiro e por toda a história, diz Adams. Por exemplo as mulheres nas Ilhas Salomão criam porcos mas não têm permissão para comê-los a não ser que seus maridos dêem permissão. Mulheres etíopes preparam duas refeições: uma para os homens e uma segunda, geralmente sem conter carne ou outra proteína substancial, para si. Na Indonésia, onde a carne só é amplamente disponível durante festivais, ela é considerada propriedade dos homens e distribuída de acordo com o número de homens no domicílio.

A atitude de que carne é comida de homens também levou à opinião de que homens precisam comer carne. Em nossa própria sociedade, não é incomum ouvir uma mulher dizer, “Eu poderia me virar sem carne, mas meu marido precisa do seu bife.” Você consegue imaginar um “lanche das madames” servindo um lombo de 500 gramas? (Você sabe que o churrasco do grupo de golfe dos homens não irá servir sanduíches de agrião.) Se carne é a comida dos poderosos, os poderosos aparentemente obtém sua força da carne. Mesmo hoje, esa mentalidade de macho prevalece. Lembra do ditado da moda do começo dos anos 80 que dizia “homens de verdade não comem quiche”? Um homem vegetariano ainda é visto por alguns como maricas ou fraco. Nossa sociedade até mesmo escolheu a proteína como símbolo de força; proteínas constroem músculos, e a melhor fonte de proteína, somos ensinados, é a carne. Portanto, fisiculturistas e pedreiros e todos os tipos machos precisam de carne. “O sexismo”, escreveu o antropologista Louis Leakey, “é grosseiramente inversamente proporcional ao vegetarianismo”.

A mitologia que vincula a carne à masculinidade também é resultado da objetificação social das mulheres e dos animais, diz Marti Kheel. Kheel, uma ecofeminista e membra do Greens, é fundadora do Feministas pelos Direitos dos Animais, um grupo vegetariano que agora conta com 1500 membros na Costa Oeste e tem novas filiais se formando no Meio-Oeste, Costa Leste, Florida, Colorado e Vancouver, Wash. “Mulheres e animais se tornaram objetos, tendo como valor somente aquele definido em sua relação com os homens nesta cultura”, Kheel diz. “Eles são vistos como instrumentais para os homens obterem felicidade. Sua função é servir às necessidades dos homens. A objetificação deriva da visão de mundo patriarcal onde a violência contra as mulheres e a violência contra os animais é a norma.”

Usar animais como comida ou para pesquisa científica são dois exemplos de objetificação; assassinar um ser vivo por comida é considerado normal em nossa sociedde, e acredita-se que pesquisa em animais seja necessária para prática médica segura. A violência doméstica é um exemplo da objetificação das mulheres, embora por anos não se falasse sobre isso, violência doméstica – ainda – é tolerada em silêncio. “Pelo menos ele não te bate”, diz o ditado para mulheres que reclamam.

Mesmo a linguagem reflete as similaridades entre a visão da sociedade sobre os animais e sua visão sobre as mulheres. Considere a terminologia: Incapaz de ver uma mulher como pessoa (ou um animal como ser vivo), um homem se descreve como “homem que gosta de pernas” ou “homem que gosta de peitos”. Bares de solteiros são “mercados de carne”. A revista Playboy transformou mulheres em coelhinhas, com algumas partes de seu corpo chamadas como diferentes animais. “Mulheres que foram estupradas ou que são vítimas de violência doméstica rotinamente dizem que se sentem como pedaços de carne”, diz Adams. Enquanto a linguagem ainda estiver infundida com esses termos, a opressão vai existir.

As filosofias ecofeministas da Terra como lar e a sacralidade e interconexão de todas as formas de vida também são parte da filosofia do movimento de espiritualidade feminista, e podem explicar porque uma estimativa de 40 porcento das mulheres envolvidas no movimento são vegetarianas.

Aquelas que se identificam com a teologia feminista incorporam uma reverência suprema à Terra onde a humanidade é parte da natureza. Destruir o meio-ambiente ou matar animais – mesmo que pela sua carne – é inaceitável para muitas mulheres desse movimento.

“É importante para nós sermos vegetarianas porque é parte da recuperação da cultura patriarcal em que vivemos”, diz a feminista espiritual Linda Pinti.

“Em nossa visão de mundo, a sacralidade de todas as formas de vid é central”, diz Pinti. “Grupos oprimidos se identificam com outros grupos oprimidos, e os animais tem estado na base. A esse respeito, muitas coisas coincidem com o movimento pelos direitos dos animais.”

Intersseção é uma palavra chave quando se discute não só a conexão feminista-vegetariana, mas também o feminismo; assuntos que são centrais para as ecofeministas, por exemplo, também são importantes para as feministas espirituais, e os grupos feministas mainstream ainda não estão se referindo a eles. “As mulheres não virão ao vegetarianismo através do feminismo mainstream porque é um movimento de justiça social”, diz Salamone.

O vegetarianismo não é visto como um assunto de justiça social no mainstream, mas o vegetarianismo é um assunto para muitas membras no NOW. O Vegetarian Times descobriu vegetarianas trabalhando em escritórios do NOW por todo o país, e percebeu que 50 porcento das mulheres que foram à conferencia estadual do NOW em Illinois no último ano pediram por refeições vegetarianas, uma porcentagem que tem crescido consistentemente nos últimos dois ou três anos. Embora não tenhamos como saber por que essas mulheres escolheram refeições vegetarianas, é reconfortante que metade das mulheres as pediram, e satisfatório saber que o NOW atendeu às suas preferências.

Adams acredita que há diversas razões para que o mainstream não veja o vegetarianismo como um assunto feminista. “Primeiramente, esta é uma cultura [dominada pelo macho] de comer carne; tudo a nossa volta nos diz que é aceitável e não-problemático comer carne. Segundo, existe a crença de que animais estão vivos para que nós os comamos; nós aparentemente não conseguimos acreditar na sua existência a não ser na relação com a carne. Terceiro, comer carne é algo visto como decisão pessoal. Por último, nossa cultura acredita que nós somos animais de rapina e que é natural para nós comermos carne.”

A maioria das feministas, segundo Adams, ainda não sacudiu essas presunções subjacentes de nossa cultura patriarcal. “As feministas foram aculturadas dessa forma também”, ela diz.

“Mas as feministas mainstream podem ser resistentes ao vegetarianismo por outras razões também”, Adams acrescenta. “Somente agora as mulheres estão reivindicando sua própria autonomia e liberdade. Vegetarianismo é visto como uma restrição a essa liberdade. Mas nós temos que nos perguntar: Nós queremos definir a nosa autonomia como privilégio masculino em trajes femininos? Ou nós vamos reestruturar nossa autonomia para que ela signifique algo diferente? Uma pessoa autônoma não pode alcançar sua liberdade às custas de outros seres.”

“Também há a noção de que feministas deveriam ser politicamente tolerantes”, Adams continua. “’Forçar’ o vegetarianismo [ao servir somente refeições vegetarianas ou fazer do vegetarianismo um requisito para associação] é visto como politicamente intoleante”, o que pode explicar porque o NOW oferece a refeição sem carne como opção, ao invés de simplesmente servir um jantar vegetariano.

Para muitas feministas vegetarianas, uma “opção” não é algo bom o bastante. “Nós queremos fazer disso um assunto político”, diz Adams. E Kheel concorda: Remover a carne das mesas de todos os encontros feministas é um dos objetivos da sua organização, Feministas pelos Direitos dos Animais.

Ainda assim, a maioria dos grupos feministas mainstream tem dinheiro, tempo e pessoas limitadas: Faz sentido que elas privilegiem alguns assuntos, e quando elas o fazem, o vegetarianismo e os direitos dos animais não fazem parte da agenda (embora, ao menos em Illinois, a filial estadual do NOW geralmente assina petições de direitos dos animais que chegam à legislatura estadual). Feministas podem até desconfiar da pauta dos direitos dos animais, diz Adams, porque elas podem acreditar que a questão dos direitos dos animais as desvia do que elas vêem como o trabalho “verdadeiro” do movimento feminista.

Ainda assim, acrescenta Adams, “a ideia toda de que uma coisa precisa ser ou isso ou aquilo não é verdadeira. O vegetarianismo não toma o lugar de outras coisas.” Adams, por exemplo, gerencia uma central de telefones para mulheres agredidas além do seu trabalho com os direitos dos animais. O vegetarianismo é uma declaração pessoal que certamente pode ser feita enquanto se atende a todos os outros assuntos feministas.

Kheel leva a ideia um passo adiante: “Nós estamos falando sobre libertação do patriarcado. Nós precisamos tocar todas as opressões. Os direitos dos animais são uma questão chave. Se há uma mesa redonda sobre abuso doméstico ou de crianças em uma conferência, por exemplo, deveria haver também uma mesa redond sobre abuso de animais e como essas duas coisas se conectam. Geralmente elas são a mesma coisa.”

Fazer com que o movimento feminista mainstream fique de pé tempo o suficiente para ver a conexão, entretanto, não é fácil. Durante o intervalo em um comício feminista na última primavera em Chicago, duas mulheres estavam discutindo a conexão vegetariana feminista. Uma executiva do NOW que estava escutando atrás da porta não se conteve e interrompeu dizendo não ter visto conexão alguma e que considerou o assunto todo uma bobagem. É?

“Ah, não”, diz Trudy. “Eu não acho que tudo seja frívolo. Você não pode ser uma feminista sem ser uma humanista. Há mais ao feminismo do que escalar a escada corporativa.”

Estamos descobrindo mais do que imaginávamos. Claramente, a “segunda fase”, como Friedan descreveu, está em nossa frente; os assuntos em torno do feminismo se ampliaram desde os anos 1970 para incluir o respeito e a incorporação de valores femininos na sociedade. Através dessa janela, o vegetarianismo não poderia ficar de fora.

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