Sobre quando mataram o que restava de mulher em mim.

Eu nunca soube exatamente explicar onde foi que eu larguei mão do amor romântico, quando foi que eu parei de acreditar que existia alguém no mundo com quem eu gostaria de ficar pelo resto da minha vida. Sempre atribuí meu recente desapego ao crescimento constante da influência do meu ascendente aquariano sobre mim. E depois quando fiquei mais locona por astrologia descobri que meu Vênus também é em Aquário, o que explica esse lance todo de amor universal, do desejo de preservar a individualidade acima de tudo, e também de ser super dedicada às amigas (meus verdadeiros amores).

Na semana passada e retrasada alguns acontecimentos me fizeram repensar isso tudo.

Eu tinha uma teoria, antes mesmo de ser feminista e ler a respeito, de que a maior parte das mulheres tinha um instinto materno que se estendia a todas as suas relações. Uma necessidade de cuidar do outro, de se sentir responsável pelo bem estar do outro. E que isso fazia com que nós, automaticamente, assumíssemos esse papel meio de mãe em nossos relacionamentos heterossexuais. Além de cuidar dos afazeres domésticos, que é o básico, todos os outros tipos de cuidado. Tipo escolher a roupa que ele vai usar. Tipo lembrar da hora de tomar remédio. Tipo fazer massagem nos pés depois de um dia exaustivo no trabalho (foda-se se o seu dia também foi exaustivo).

E é esperado mesmo que nós façamos isso. Uma vez Alex Castro contou que o casamento dele, super moderno, relacionamento aberto e etcétera, ainda assim era poluído por algumas coisas desse tipo. Como no dia em que a esposa dele não quis que ele saísse com tal camisa porque ela estava amassada, e o que as pessoas iriam pensar DELA se ELE estivesse com a camisa amassada? E é assim mesmo.

De todas as coisas que eu fui aprendendo a me desvencilhar nesses anos de feminismo e militância feminista, no que diz respeito a relacionamentos esse tal instinto materno foi a última coisa a desaparecer. E ainda assim, nem por vontade própria. Esse instinto foi assassinado mesmo, a golpes duros, num relacionamento absolutamente abusivo que tive – o mais abusivo de todos, com certeza.

gaslighting

Conheci ele através de um site de relacionamentos (A-D-O-R-O), marcamos de sair. Fomos a um bar, achei ele lindo logo de cara, de repente ele me solta super discursos esquerdistas. Dilma recém tinha sido eleita. Falou da maravilhosidade que era termos uma presidentA. Falou do quanto o Bolsa Família era revolucionário. E me contou que tinha uma barraca sempre no porta malas do carro. Aquele espírito aventureiro, sabe? Na mesma noite já estava perdidamente apaixonada, porque sou dessas.

Sim, calma, essa história foi TODA ERRADA do começo ao fim e essa talvez seja uma das piores confissões que eu poderia fazer, tendo uma suposta fama de mulher bem-resolvida e independente e etc.

A minha sorte, aliás, é que sim, eu já era bem-resolvida e independente. Sempre ganhei mais do que ele, tinha minha vida, minhas amigas, o Blogueiras Feministas, minha bike e minha auto-estima super saudável de sempre. Minha sorte foi ter cultivado essa auto-estima com tanto carinho, caso contrário não sei onde estaria.

Depois desse primeiro encontro em que não transamos porque ele disse que eu “era muito especial” então ele não queria que fosse “assim” (oi?!?), começou o jogo de esconde-esconde. Ele aparecia e sumia e começou a dar a desculpa de que eu era muito especial e por isso ele estava assustado, porque ele era uma pessoa traumatizada e problemática.

OPA!

Tudo que eu queria: um projeto.

E foi bem bizarro, desde aquele começo escroto, porque não demorou muito até eu me convencer (sendo guiada/manipulada pelos jogos dele) de que era essencial na vida dele e que ele precisava de mim para melhorar, ser mais feliz, conhecer o lado bom da vida, aprender a amar novamente. Ele virou meu Everest. E eu, do alto da minha arrogância, achando que tinha mesmo cacife pra solucionar todos os problemas dele.

Logo eu estava completamente envolvida com os problemas dele. E ele aproveitando tanta solicitude para descontar todas as raivas e frustrações. Não demorou até eu perceber que ele era alcóolatra também. Como se não bastasse ser anti-social, grosseiro e babaca. Percebi que todos aqueles discursos esquerdistas eram balela, pois ele fazia as piores observações imagináveis. Se você procurar em qualquer lugar a definição de gaslighting, seja lá qual definição for, vai ler exatamente o que ele fazia comigo diariamente. Eu estava na casa dele, ele começava a me xingar, me ofender, falar mal da minha família, das minhas amigas, do meu gosto musical, me infernizar, até eu começar a chorar de nervoso, e se eu ameaçasse ir embora, ele dizia que eu nunca mais o veria.

E se a gente terminasse, quem iria lembrar ele de tomar o remédio para a pressão alta???

E eu ficava. E ele, bêbado, não parava nunca. Até a hora de dormir.

De repente paramos de transar, porque ele estava sempre tão bêbado que não conseguia. E um pouco também porque ele tinha perdido o tesão por mim mesmo, eu estava tão envolvida com os cuidados com ele, pisando em ovos o tempo inteiro para que ele não ficasse brabo comigo e sumisse, e organizando a vida dele, limpando a casa dele (porque ele trabalhava muito – 8h por dia – e não dava conta, então eu, que trabalhava 12h por dia, fazia tudo na minha casa e na dele), cuidando dos bichos dele quando ele viajava… Enfim, tornei-me algo que eu considerava ser essencial para a vida dele.

Quando eu comecei a confrontá-lo sobre não estarmos mais transando ele logo começou a falar que a culpa era minha. Que eu era feia. Que eu parecia um travesti. Um dia ele acordou de manhã e me disse inclusive que tinha sonhado comigo e no sonho eu revelava para ele que era um travesti mesmo.

Como eu disse antes, sorte a minha que a auto-estima nunca foi problema. Eu continuava me achando linda, e só ficava com mais pena ainda dele, que só tinha um jeito de se sentir menos bosta: tentando me diminuir. Sabe esse tipo de gente, né? Eu media o quão mal ele estava (e, portanto, o quanto ele precisava de mim) pelo nível de absurdo das atitudes dele contra mim. Quanto mais ele me destratava, mais eu pensava que ele estava precisando de alguém pra puxar ele do fundo do poço. E eu tinha a plena convicção de que no fundo ele me amava, afinal, como não me amar? Ali, fazendo tudo, cuidando da alimentação (eu tinha certeza que ele tinha tido um pequeno derrame enquanto estivemos separados porque de repente ele apareceu com um lazy eye – uma das pálpebras caída, deixando o olho meio aberto), cuidando dos bichos, da casa… Como não me amar?

Por mais um golpe de sorte (sorte nada, aprendi com mamain), eu sou humanamente incapaz de gostar de quem não gosta de mim. Então fiquei ali, alimentando esse bizarro instinto cuidador, enquanto eu tinha a certeza de que lá no fundo bem no fundo ele me amava. Uma vez me amando, pode deixar comigo que eu pavimento o caminho todo e a gente segue feliz. Coisa de Capricórnio? Coisa de lua em Touro?

No dia em que ele começou a stalkear obsessivamente a minha melhor amiga da época, e a falar mal de mim para ela, e a ameaçar matar o namorado dela para que eles pudessem ficar juntos para sempre (oi?????) a ruptura foi imediata, sem anestesia e sem dor alguma. E foi a melhor libertação que eu poderia ter na minha vida. Eu jamais conseguiria descrever, num post de blog, todo o inferno que eu vivi nesses quase dois anos. E assim morreu a Geórgia-cuidadora, o último traço da minha socialização feminina (em relacionamentos).

Só sei que, desde então, sigo a ferro e fogo, como já disse AQUI, a regra básica de só me envolver com pessoas pré-salvas. Não tenho mais uma gota de arrogância em mim para achar que sou responsável pela felicidade de alguém. E muito menos responsável por descomplicar a vida de alguém.

Semana passada levei um fora. Esse fora vale outro post, que está sendo escrito, aliás. O cara estava tão mas tão mas tão transtornado e tão confuso e tão indeciso (apesar das palavras decididas e sem meio termo: não quero mais e pronto), e ele mesmo afirmou tantas vezes ser a pessoa mais confusa que eu poderia conhecer que, apesar de ficar triste com o fora, fiquei aliviada por ele ter decidido sair por conta própria. Faz muitos anos, desde que aquele relacionamento acabou, que eu não aceito mais essa responsabilidade pelo outro. Eu não sei nem de mim, não posso saber por você.

Relacionamentos são aquelas coisas que tem que nos fazer bem, nos acrescentar, nos trazer soluções e não mais problemas. E eu acho uma bosta que eu tenha tido que passar por tanta coisa pra aprender isso. Foi a ferro e fogo mesmo. E o desejo da minha vida é fazer com que mulheres entendam quando relacionamentos são abusivos ANTES de serem submetidas a esse tipo de situação. Pelo jeito essa vai ser a tarefa da minha vida, e a mais difícil delas.

2 comentários sobre “Sobre quando mataram o que restava de mulher em mim.

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