Os Planos Municipais de Educação e a tal ~ideologia de gênero~

A gente tá aí né, na militância feminista, há anos (seis? sete?), na rua, nas internê, nas escolas, nos coletivos, nos blogs. Falando sobre a questão feminina. Falando de hierarquia de gênero. Em todas as falas que eu tive a oportunidade de fazer, sempre desconstruo em dois segundos toda essa ideia de que mulheres nasceram pra isso e homens praquilo. Muito dificilmente alguém discorda. São coisas tão óbvias, não? Porque aquilo que a Simone de Beauvoir falou em 1949 é um dos poucos pontos pacíficos dentro do feminismo: Não se nasce mulher, torna-se. Apesar de que as correntes feministas levam essa afirmação de maneiras diferentes na sua militância e nas suas teorias, ainda assim todas temos uma fé inabalável de que a feminilidade é fruto de socialização, e que os marcadores dessa feminilidade são igualmente construtos, e temos uma infinidade de provas que a antropologia nos deu de que mulheres tem formas diferentes de serem mulheres em diferentes tempos e espaços. Apesar de que, até onde eu sei, em todos esses tempos e espaços elas sempre foram relegadas a condições inferiores aos homens (alguns estudiosos dizem que, mesmo nas sociedades ditas matriarcais, ainda assim o controle era exercido pelos homens – no sistema matrilinear a autoridade pertencia ao irmão da mulher e ao tio materno, enquanto no patrilinear pertencia ao pai e ao marido).

Eu nunca vi uma resistência muito forte com relação a esse tipo de argumentação, porque em todo grupo com mais de três ou quatro mulheres nós sempre temos uma que é um ponto fora da curva, e que sofreu de alguma forma para manter sua identidade. Aquela que não gostava de usar vestido, aquela que preferia brincar de carrinho com os meninos, aquela que não quis ter filhos. Eu realmente achava que estávamos progredindo nessa compreensão.

Mas daí vieram os planos estaduais e municipais de educação.

O Brasil tem investido há anos numa educação mais humanitária, menos conteudista. Eu tenho uma paixão especial pelos nossos Parâmetros Curriculares Nacionais, de 1998. Faz tempo que a educação e os educadores brasileiros perceberam que a função social da escola é muito mais do que ensinar as quatro operações matemáticas. O principal objetivo da escola deve ser desenvolver as potencialidades físicas, cognitivas e afetivas dos alunos, por meio da aprendizagem dos conteúdos (conhecimentos, habilidades, procedimentos, atitudes e valores), e como consequência formar o educando como homem humanizado. A escola não deveria apenas preparar os alunos para o exercício de funções produtivas, para serem consumidores de produtos, logo, esvaziados, alienados, deprimidos, fetichizados. É através da escola que se busca a superação da realidade vigente. E é a escola, também, que proporciona o surgimento de muitos movimentos sociais que almejam a superação da crise capitalista. A escola pode e deve ser vista como espaço de prazer, de trocas, de experiências, onde aprende-se a viver e a conviver.

Como se ensina a viver e a conviver sem falar sobre diversidade?

Ética, pluralidade cultural, meio ambiente, saúde, orientação sexual e temas locais já fazem parte do currículo, como temas transversais, pelo menos desde 2001. Ao ler os PCNs nosso olhinho brilha e pensamos: como alguém pode não querer essas coisas dentro da escola? Eu nem sabia que existia alguém que de fato se levantaria e iria até uma tribuna para dizer que ensinar que o respeito a diversidade é algo que deve ser combatido com unhas, dentes e bíblias.

Eu quase não consigo pronunciar o termo ideologia de gênero sem cair na gargalhada.

Na quarta-feira da última semana, a Câmara de Vereadores da minha cidade (saiba mais sobre a eficácia da nossa Câmara AQUI e AQUI e AQUI) promoveu uma audiência pública sobre o Plano Municipal de Educação. Dizem os boatos que o PME iria passar sem muito alarde até que o nossos excelentíssimos vereadores Mario Hildebrandt (presidente da mesa diretora) e Marcos da Rosa (vice-presidente), guardiões da moral e dos bons costumes da família tradicional blumenauense, receberam um alerta da igreja avisando que o documento está contaminado pela ideologia de gênero. Esse plano comunista para acabar com a identidade de meninos e meninas. Como a audiência foi solicitada pelo Marcos da Rosa, SURPRISE SURPRISE! O Plenário estava abarrotado de fiéis, de representantes de instituições religiosas, e gestores de escolas confessionais – que poderiam estar fazendo tudo MENOS opinando sobre as políticas educacionais da rede pública.

Marcos da Rosa (DEM)

Marcos da Rosa (DEM)

Mario Hildebrandt (PSD)

Mario Hildebrandt (PSD)

Os dois itens da versão preliminar do Plano Municipal de Educação causaram uma balbúrdia inimaginável e uma cena ridícula de fanatismo religioso num espaço político que deveria ser laico.

“1.16 Assegurar a manutenção e qualidade dos espaços externos, e brinquedos de parques das Instituições de Educação Infantil, considerando a diversidade étnica, de gênero e sociocultural.

3.8 Mobilizar os NEPREs – Núcleos de prevenção das UEs – visando a prevenção à evasão, motivada por preconceito e discriminação racial, por orientação sexual ou identidade de gênero.”

Sim, caros leitores. É só isso mesmo. E isso que você leu aí em cima, foi interpretado pelos analfabetos funcionais como IMPOSIÇÃO DA IDEOLOGIA DE GÊNERO. Isso causou um auê do cacete, com palavras de ordem e muito, muito sangue nozóio dos intolerantes religiosos.

Escutei os argumentos mais imbecilóides de toda a minha vida. Gestora do Shalom dizendo que a Revolução Francesa foi quem acabou com a educação por princípios. Vereador dizendo “o que vai ser dos nossos filhos, que vão chegar em casa da escola sem saber mais se são meninos ou meninas?”. Vídeozinho desonesto pedindo para que “deixemos as meninas serem meninas”. Mulheres reforçando o estereótipo de gênero atribuindo a feminilidade à biologia (voltar ao primeiro parágrafo).

No final das contas, no final da audiência, eu desisti e saí xingando todos de burros. Porque são. Como debater com essa gente, minha Xena? Sueli Silvia Adriano acusou um cara de não ter lido o plano antes de ir pra audiência, ele disse que leu tudinho e ainda abriu na página do ponto 3.8 e leu pra gente. Como a pessoa consegue ler esses dois itens e ser contra? Como pode não querer falar na escola de diversidade, respeito, tolerância? Como pode presumir que isso vai ser incentivar crianças a serem homossexuais ou travestis ou meninos a virarem meninas?

A verdade é que eu perdi o controle e a razão. Eu estava sendo condescendente, achando que os fiéis estavam agindo na ignorância, acreditando na palavra dos pastores, comprando o discurso da ~ideologia de gênero~.

Não tem ignorância aí não. Tem maldade preconceito e intolerância mesmo. Eles entenderam direitinho do que estamos falando. Estamos falando que homens e mulheres são socializados para agirem de determinadas formas e incentivados a desempenhar esses papéis (mulher usa rosa, cozinha e brinca de boneca, homem usa azul, brinca de espada e de carrinho) por inúmeros meios inclusive pela escola. E nós achamos que colocar crianças nessas caixinhas tão apertadinhas e sufocantes faz mal pra elas e, principalmente, praquelas crianças que não cabem nessas caixas. E que a escola tem que ensinar a jogar fora as caixas e deixar as crianças serem crianças e fazerem o que elas quiserem. Queremos meninas sendo engenheiras e meninos brincando de cházinho – se quiserem.

Ontem eu estava escutando uma entrevista com um vereador do PR de Itajaí e percebi que eles entenderam exatamente o que a gente quer dizer. E eles são contra mesmo. O discurso de que as crianças não vão mais saber se são meninos ou meninas, se têm pinto ou vagina é apelativo pra instaurar o pânico, mas a real é que eles acham que SIM, existe um papel biologicamente definido para homens e mulheres, um papel bem demarcado, bem cheio de regrinhas e de marcadores e que a escola, ao invés de incentivar a livre expressão, deve reforçar esses papéis (homem-provedor cabeça da família, mulher-mãe submissa e obediente).

Segundo eles, se a escola não reforçar esses padrões, as crianças não saberão mais seu lugar na sociedade (a saber: homens no topo, mulheres na base) e isso vai gerar uma confusão na cabeça delas ao ponto de meninos acharem que são meninas e quererem cortar o pinto fora caso a professora deixe eles brincarem de varrer a casa. E, claro, também é um incentivo à homossexualidade ou mesmo ao transsexualismo. E segundo eles quem tem que dar esse tipo de ~educação~ é a família e não a escola. Como se gênero e sexualidade fosse fruto de educação. Cagaram em cima de tudo que já foi estudado pesquisado e publicado sobre o assunto. Décadas e milhares de pesquisadores, mestres e doutores jogados no limbo porque eles não suportam a ideia de que a fórmula deles não é a única para todos. Não suportam a ideia de que existem pessoas diferentes. Não toleram a ideia de que alguns não aceitaram a ~palavra do Senhor~ e nem aceitam ser regidos por um estado laico. E em todas as falas eles dizem que essa não é uma disputa religiosa. É SIM.

laico

Não percebem inclusive que se contradizem né. Se a ~educação de gênero e sexualidade~ se dá na família, nada mais justo que a escola não imponha gênero nem sexualidade, e mantenha-se neutra, mostrando todas as ~alternativas~. Daí em casa o babaca pode ~ensinar~ o moleque a ser machão, a objetificar mulheres, a ofender gays, a abusar, a bater e a estuprar. Mas o que eles reivindicam é o contrário. Eles dizem que essa educação se dá na família, mas exigem que a escola continue reforçando o que eles já ensinam em casa. E empurrando goela abaixo dos que são diferentes aquilo que ELES acham certo. Eles não querem que a gente exista. Eles não querem que eu, solteirona-independente, exista. Eles não querem que minha mãe Rosane, mãe solteira, exista. Eles não querem que a Aline, negra, exista. Eles não querem que meu irmão, João Pedro, gay, exista. ELES NÃO QUEREM QUE A MINHA FAMÍLIA EXISTA.

Se fosse ignorância a gente ainda poderia ensinar. Conversar. Debater. Construir. Mas não. Nâo é ignorância. É má-fé. E pra isso não tem conversa. Tem embate direto mesmo. É guerra.

E sabem de uma coisa, amigos? Vamos perder.

Pressionados pelas bancadas religiosas e com o respaldo das igrejas evangélicas e católica, deputados de ao menos oito Estados retiraram dos Planos Estaduais de Educação referências a identidade de gênero, diversidade e orientação sexual. Esses planos traçam diretrizes para o ensino nos próximos dez anos.
Entre os trechos vetados estão metas de combate à “discriminação racial, de orientação sexual ou à identidade de gênero”, censos sobre a situação educacional de travestis e transgêneros e incentivo a programas de formação sobre gênero, diversidade e orientação sexual.
As bancadas religiosas afirmam que essas expressões valorizam uma “ideologia de gênero”, corrente que deturparia os conceitos de homem e mulher, destruindo o modelo tradicional de família.

(eu não quero e não vou livrar a cara da nossa única vereadora mulher, que perdeu uma chance maravilhosa de se posicionar acerca do assunto. mas não o fez. passou dois minutos agradecendo a presença, mandando um beijinho pra minha mãe, pro meu pai e pra você, soltou algumas frases vagas que de leve deram a entender que ela apoia o plano, mas ainda assim sem desagradar ninguém, e preferiu não comprar a briga. “a luta dela é outra”, disseram. objetivo é se posicionar somente quando o assunto for gato ou cachorro? assim não dá pra te defender, amiga.)

LEITURA OBRIGATÓRIA

Manifesto pela Igualdade de Gênero na Educação – Sociedade Brasileira de Sociologia

6 comentários sobre “Os Planos Municipais de Educação e a tal ~ideologia de gênero~

  1. O seu texto é primoroso! Apenas ressalto que nem todos os religiosos cabem no mesmo saco. Eu tenho pregado há anos o mesmo conceito que você tem, sendo pastor luterano. O posicionamento da IECLB foi encaminhado ao presidente Mario Hildebrand, mas ele preferiu o posicionamento que já defendia anteriormente, antes de perguntar a opinião da igreja luterana, que diz defender. Ficou com os ultra conservadores católicos. Para conhecer o posicionamento da IECLB, leia http://www.luteranos.com.br/conteudo/estudos-sobre-genero. Um abraço.

    • Clovis!
      A Martha me falou de você!
      E fiquei muito feliz por saber que existe sim posicionamento razoável dentro do mundo religioso.
      Vou compartilhar o posicionamento da IECLB no meu facebook, acho essencial que as pessoas saibam que é possível existir crença religiosa sem intolerância e ódio!

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  5. Acredito mais em uma boa educação,dentro de casa, com respeito ao outros e a si próprio principalmente.Fui uma dessas crianças fora da curva como disse,cresci na ditadura,em um colégio maravilhoso de freiras,quanta recordação boa! Não concordo em ensinar sexo para crianças,tenho 48 anos e confesso isso me choca!! pelo simples fato não religioso,mas espiritualista de que:estamos aqui para evoluir,todos estamos aqui na terra pra evoluir como seres humanos!!! e não para o desleixo da nossa morada aqui na terra que é o nosso corpo físico.Vc pode achar que devo ser uma espírita radical,ressalto que não sou,nem mesmo espírita,apenas simpatizante.O assunto é polêmico de fato, e opiniões devem ser respeitadas.Acredito que a pureza da criança deva ser preservado acima de tudo, o máximo possível. Pois a Internet já ocupou espaço por demais, poluindo a infância,juventude e até mesmo nós.Também temos liberdade de expressão em todos os canais televisivos do Brasil,a liberdade sexual permeia toda a propaganda,quando não explícita, ela está ali sempre subliminar.Porque mais sobre isso?o que está faltando aqui e no Planeta: é humanidade!!!para com todos inclusive com os animais!!!!e a natureza!!! Eu estudei sobre todas as religiões!!! hoje com esse papo de tudo LAICO! ninguém sabe de nada,mas todos sabem do último joguinho da moda nos celulares!!! e da vida pseudo real das pessoas no Facebook.A vida se tornou fútil,efêmera,e se resume a uma falta de conteúdo, de Deus, seja lá na forma que cada um quiser entender que exista um.Esse conflito todo sobre gênero é bizarro e sem propósito,há tanto mais o que discutir e resolver neste País.Querem ensinar sexo para as crianças,mas é terminantemente proibido falar de JESUS,BUDA,CONFUCIO,entre outros…porque não???todos eles ensinaram sobre o amor ao próximo.Professores partidários mandam crianças estudarem e fazerem trabalhos sobre o PT, mas não sobre Marther Luther king(desculpe se errei na grafia do nome).é de dar um desânimo.E no final , somos preconceituosamente chamados de burros ou coxinhas!! Pra mim sexo é questão de foro íntimo e deve ser esclarecido como tal.

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