O que estamos ensinando aos nossos alunos?

Sabe-se da importância da afetividade no processo de ensino-aprendizagem e no quanto relações interpessoais de qualidade, tanto entre os alunos quanto entre o professor e os alunos são determinantes na aquisição de conhecimento e principalmente na formação da imagem de si. Porém, no dia-a-dia da escola, entre demandas dos alunos, burocracia escolar e cansaço natural após anos de profissão, percebo que os professores deixam esse aspecto em segundo plano – se é que o levam em consideração.

Quando queremos pensar na escola como um lugar não apenas de aprendizado, mas de transformação social, quando desejamos que os alunos saiam do ambiente escolar cidadãos preparados não apenas para viver em sociedade, mas para questionar essa sociedade e para promover as mudanças necessárias para um mundo mais justo, mais igualitário e mais humano, certamente não pensamos em aulas dadas da forma que observei durante o estágio.

escola

Durante as entrevistas que fiz em meus estágios no curso de Pedagogia as professoras deixaram claro que o grande objetivo que se faz necessário atualmente é ensinar as crianças a ter disciplina. Alegam que elas vêm para a escola sem saber obedecer, sem saber respeitar, enfim, como se nunca tivessem antes saído de suas casas e convivido em grupos.

Apesar de essa realidade ser comum atualmente, já que podemos ver diversos relatos de professores não apenas brasileiros mas do mundo inteiro queixando-se da “falta de educação” dos alunos, a dúvida que fica é: Qual é a melhor forma de ensiná-los a ser educados e disciplinados? “Educados” não no sentido conteudista da palavra, mas no sentido de boas maneiras, de respeitar o colega, o professor e a si mesmos.

A abordagem escolhida por ambas as professoras não me pareceu a melhor e tampouco a mais eficaz. O que pude observar nas aulas foi uma educação pelo temor. Os alunos tinham muito medo das professoras. Medo de serem repreendidos e humilhados perante os amigos, medo de supostas punições, medo de participar e de fazer perguntas, enfim, medo de se expressarem de modo geral. E aparentemente esse tipo de abordagem, através do temor, não é um problema isolado dessa escola nesse município. Viviane Mosé denunciou isso numa palestra maravilhosa, quando falou que “a escola brasileira ainda guarda o modelo do reformatório e da prisão.” Será que a educação pelo temor traz resultados a longo prazo na formação do aluno que queremos?

O cidadão que queremos formar sairá da escola com diversas qualidades, e dentre todas as que podemos nomear, a criticidade e a capacidade de discernimento são as mais importantes. Um cidadão que saiba questionar, que saiba ver além das imagens, além do que a mídia veicula, que possa caminhar com as próprias pernas e tirar suas próprias conclusões para que tome suas decisões de maneira consciente. Um cidadão que tenha consciência da realidade em que vivemos e que tenha as ferramentas intelectuais para mudar o status quo e mudar a sua realidade social. É o trabalho realizado nas classes que decide, de modo diferenciado, o futuro dos alunos.

Da maneira que as aulas são levadas, o que vi foi um adestramento que visa justamente a manutenção do status quo. A escola, além da instrução, está encarregada de inculcar valores e atitudes nos alunos responsáveis tanto pela formação de automatismos intelectuais de base, como pela construção da percepção que o indivíduo forma de si próprio na confrontação cotidiana com os outros. Ou seja, além das fontes informais de ensino e convívio (família, comunidade, amigos) onde o aluno aprende a se ver e se reconhecer de determinada forma, a escola também exerce papel importante na construção da autoestima dos alunos.

A escola acima de tudo deve ser uma zona de conforto para os alunos, um lugar onde eles se sentem à vontade para serem eles mesmos, para exercerem sua cidadania, sua criatividade e seu senso crítico. A educação escolar é um direito da criança e não um favor prestado pelo Estado e pelas professoras e professores. Estamos deixando em segundo plano a verdadeira função social da escola hoje quando, depois dos grandes avanços da sociologia e psicologia da educação, ainda insistirmos em oferecer o ensino tradicional em nossas salas de aula.

Um comentário sobre “O que estamos ensinando aos nossos alunos?

  1. Sabe, cada vez mais eu acho que estamos criando robôs e não seres pensantes. É muito difícil você ver um professor que faça os alunos pensarem realmente, dando espaço para eles. Isso ajudaria nessas questões sociais e tudo mais. O único objetivo de “ir à escola” para uma criança é alcançar a média e passar de ano. É assim no ensino fundamental, no médio e até mesmo na faculdade. No fim, a maioria das instituições de ensino não educa, apenas expõe. Mas isso não é um problema ~dos professores~, é um problema da sociedade como um todo. E só tende a piorar.

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