A língua inglesa é especista.

Que a língua é extremamente machista é ponto pacífico entre feministas. Pensamos nisso o tempo todo. Estou há 5 anos brigando para que as pessoas parem de chamar a Dilma de presidentE. Independente de seu posicionamento com relação ao governo petista, a mina é presidentA, e negar isso é negar que uma mulher possa estar exercendo um cargo de poder. (Leia mais sobre isso AQUI.)

Mas confesso que nunca parei para pensar na linguagem especista. Até encontrar um artigo da Joan Dunayer na On The Issues Magazine. Abaixo, a tradução – falando do inglês, mas que pode ser facilmente aplicado ao português.


Assim como a linguagem sexista rebaixa as mulheres, a linguagem especista denigre os animais não-humanos. “Um substantito é uma pessoa, lugar ou coisa”, nós obedientemente repetimos quando crianças. O que, então, são os animais não-humanos? Eles não são pessoas ou lugares, então – as convenções nos dizem – eles só podem ser coisas. O uso atual do inglês é especista. Ele glorifica a espécie humana e desmerece todas as outras. Assim como a linguagem sexista rebaixa as mulheres e as exclui de uma consideração completa, a linguagem especista rebaixa e exclui os animais não-humanos. Quando nós colocamos os animais na categoria coisa, nós obscurecemos sua senciência, individualidade e direito a autonomia.

O uso padrão dos pronomes também “coisifica” outros animais. Nós dizemos “the person who” mas “the squirrel that.” Reservando o who para humanos e relegando aos outros animais o that ou which sugere falsamente que somente os humanos são seres que pensam e sentem. A consciência de qualquer animal merece o who: “The bird who
flew past.” De maneira similar, o gênero de um animal justifica o uso de she ou he, não it. Com raras exceções (por exemplo, larvas hermafroditas), animais são fêmeas ou machos. Uma galinha ou uma égua são obviamente she, um galo ou garanhão, he. Em casos de sexo desconhecido, she or he evitaria tanto o especismo quando o sexismo. Se você for citar alguém que se refere a um animal não-humano como that, which, ou it, considere a hipótese de incluir [sic] para marcar o uso desse pronome como especista.

Mais manifestamente especista que o uso padrão de pronomes, muitas expressões comuns evocam outras espécies como forma de insultar um humano: sly as a fox, crazy as a loon, bull-headed, chicken-hearted, catty bitch. Ironicamente, tais comparações insultam animais não-humanos, sobre os quais projetamos nossas próprias características negativas. Nenhum porco, por exemplo, sua como um porco. Possuidores de pouquíssimas glândulas de suor, os porcos mal suam. Nenhum lobo é promíscuo como um lobo humano. Durante a vida, os lobos são basicamente monogâmicos. Aplicado a um humano, o mero nome de outro animal é injurioso: “Seu rato, gambá, doninha, cobra.” Por que? Outras espécies são presumidamente inferiores. Na evolução, porém, as espécies de movem em direção de maior adaptatividade, e não maior humanidade. Ratos não são deficientes ao ponto de diferir dos humanos. Ratos se mantiveram adaptativos por muito mais tempo do que a existência dos humanos.

Adicionalmente a apoiar uma hierarquia arbitrária com os humanos no topo, a língua especista reforça uma falsa dicotomia entre animal e humano. Por mais que muitas pessoas odeiem admitir, todos nós somos animais. E ainda assim, “animal” serve como epíteto para uma pessoa que cometeu um ato brutal (para outra pessoa). Em contraste, usamos “humano” como elogio com reverência.  Nossos olhos ficam úmidos por conta da nossa humanidade única e nossos níveis de auto-aprovação sobem. Nesses momentos, nós esquecemos que a gorilidade é mais pacífica que a humanidade, a corujidade tem visão melhor e a abelhidade é mais ecologicamente benigna. Outras espécies têm poderes e bondades que nós não temos, por mais que nós analisemos e inventemos.

Talvez você esteja pensando: “Ok, então o inglês é especista. Mas isso não machuca outros animais. Eles nem conseguem entender as palavras que os denigrem.” As palavras, porém, fazem crer que somente a experiência humana tem realidade ou importância. Se um urso dançante entretem hhumanos, que importância tem o fato de que o cativeiro roubou dele a liberdade e a felicidade? Ou que surras ensinaram o urso a dançar? Assim como a linguagem sexista, a linguagem especista legitima a exploração e a violência.

Animais de estimação são criados e vendidos como mercadorias customizadas – incluindo nosso “melhor amigo”. Através de crias seletivas (inbreeding), os humanos transformaram o cachorro em uma variedade de tipos nada natural e grotesca, de raças gigantes às raças toys. Doenças genéticas afetam os cachorros de raça pura muito mais do que os sem raça definida.

Ainda assim, raça pura implica superioridade, vira-latas inferioridade. Cachorros de raça pura continuam tendo demanda enquanto milhões de cachorros sem lar são mortos em abrigos norte-americanos todos os anos. Entre os cachorros que encontram lares, muitos são abusados por seus donos que se vêem como donos.

Por não serem explorados por sua pele, pelo menos os cachorros escapam da categoria “portador de pele”, que rotula um animal como casaco de peles em potencial. Uma fazenda de peles pode até soar idílico, mas esses animais criados nesses lugares como minks, raposas e coelhos não experienciam nem espaço aberto nem verde; vivem confinados em pequenas jaulas.Transformar um animal não-humano consome muito mais combustível fóssil do que produzir pele sintética.

Mesmo assim, para parecer ambientalmente engajada, a indústria da pele chama esses animais de recursos renováveis. Esse termo nega completamente a individualidade de cada animal. Caçadores matam outros animais à guisa de “manejo ambiental”. Esse eufemismo revela a suposição especista de que os humanos têm o direito de manejar outras criaturas. (O “manejo ambiental” já destruiu numerosas espécies e ecossistemas.) Animais de caça, por definição, são alvos preestabelecidos no esporte da caça. Animais predadores, cujos habitats foram apropriados para a exploração de gado e ovelhas, são sacrificados em programas enganosamente chamados de “controle de danos”. São feras selvagens para serem envenenadas, emboscadas ou mortas a tiros.

Em laboratórios, animais não-humanos experienciam tratamento ainda mais brutal. Para evitar pensar sobre o sofrimento que infligem, aqueles que vivissecam animais se referem a suas vítimas como biomáquinas, ferramentas de pesquisapreparações descartáveis. Para evitar o uso da palavra medo, cheia de carga emocional, os pesquisadores relatam apenas que seus sujeitos urinaram, defecaram, tremeram… Jargões encobrem a crueldade mais sistemática e fria.

Privacção terminal de comida substitui o termo inanição forçada. Aversiue stimuli significa choques elétricos repetidos, pancadas, queimaduras e outros tipos de tortura. A cada ano, pesquisadores sacrificam – ou seja, matam – milhões de ratos, ratazanas, cachorros, gatos, macacos e outros que não têm a proteção de serem membros da espécie humana.

Entre os animais criados para comida, a taxa anual de morte norte-americana excede os seis bilhões. em unidades de produção e máquinas de conversão (convertem alimentos em carne, leite ou ovos), a vasta maioria desses animais são produzidos em massa em uma fazenda-fábrica. A “fazenda” é uma construção sem janelas. Lá dentro os animais vivem suas vidas, com superlotação encarcerados em paredes ou restritos a gaiolas incapacitantes. Nas casas de abate – agora chamadas de unidade de processamento – a gentil e paciente vaca torna-se um bife. O sensível e inteligente porco se torna pernil. O bezerro anêmico de quatro meses de idade, que viveu na escuridão, acorrentado pelo pescoço, torna-se vitela. Tal linguagem mascara o tormento e a dor nas quais esses animais vivem, e o medo que passam ao morrer. Felizes por não retirarem suas vendas, os consumidores comem suas carnes sem remorso.

Uma fazenda de vitela, que você acha TÃO gostosa.

Uma fazenda de vitela, que você acha TÃO gostosa.

Cada ser senciente é alguém, e não algo. Ao esconder essa verdade, a linguagem especista sanciona a crueldade. Em pouco tempo, espero, as crianças vão aprender: “Um substantido é um animal, um lugar ou uma coisa.” Com uma linguagem não-especista, nós podemos ensinar o respeito a todas as criaturas. Apenas palavras compassivas podem ajudar a libertar nossos irmãos que não podem falar.

* Joan Dunayer é escritora/editora freelancer e ativista pelos direitos dos animais.

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