Ainda os bonobos e a ciência feminista

Há pouco tempo concluí mais um curso do Coursera, chamado Moralities of Everyday Life. O curso tinha como objetivo discutir como o ser humano somos capazes de tanta bondade e tanta crueldade. Como chegamos a opiniões sobre aborto, casamento gay, ações afirmativas, e tortura. Como a evolução, cultura e religião moldam nossa natureza moral. O professor explorou a ciência moderna no que diz respeito a crenças e ações morais, atravessando disciplinas como ciência cognitiva, neurociência, economia e filosofia. Pesquisas de laboratório, pesquisa social, bebês, macacos e psicopatas. As alegações sobre diferenças morais entre homens e mulheres, liberais e conservadores, cristãos e muçulmanos, Falou sobre preconceito e ódio, sexualidade e pureza, ppunião, vingança e perdão, enfim. Foi lindo, definitivamente o melhor curso que fiz no Coursera até hoje, e olha que nem foi ministrado pela minha paixão platônica Michael S. Roth.

Sim, eu tenho minhas muitas inúmeras infinitas ressalvas com o que chamam de psicologia evolucionista, mas essa crítica eu vou deixar para fazer em outro post. Hoje eu quero falar somente sobre os bonobos. De novo. Porque estou apaixonada por bonobos. Tivemos que assistir a uma palestra com a Laurie Santos, uma professora de psicologia e ciência cognitiva em Yale que pesquisa as origens evolucionárias da mente humana comparando as habilidades cognitivas de humanos e não humanos, especialmente primatas e cães. Laurie Santos: diva, linda, maravilhosa. Cheguei a sonhar uns dois dias com a palestra dela e o quanto a minha cabeça quase explodiu com tudo o que ela falou.

Através da Laurie Santos conheci a Amy Parish, que documentou mais de uma década de estudos sobre os bonobos, que são quase iguais aos chimpanzés, mas um pouco mais magros, com cabeças um pouco menores e cabelos partidos ao meio. O trabalho dela demonstra que os bonobos vivem em sociedades surpreendentemente dominadas por fêmeas, que usam de alianças entre mulheres para exercer o poder. E isso deu uma reviravolta em crenças de muito tempo sobre o que é “natural” em termos de papéis sexuais e amizade entre fêmeas – não apenas para aqueles primatas, mas para seus primos: nós.

Chimpanzés

Chimpanzés

(Os bonobos também apreciam sexo de frente, entre outras posições, diferentemente dos nossos outros primos os chimpanzés, que geralmente copulam com o macho por trás da fêmea.)

Todos os nossos modelos evolucionistas no passado foram baseados nos chimpanzés, onde vemos dominância masculina, patriarcado e guerra. Mas, se você realmente quer entender de onde viemos, olhem para os bonobos. Os bonobos abrem muitas outras possibilidades. Um dos últimos grandes mamíferos descobertos, os bonobos somente foram confirmados como uma espécie separada no início do século XX.  Por mais de dois anos, Parish sentou em uma cadeira dobrável do lado de fora da parte de um parque onde ficaram os bonobos, tomando nota de seus comportamentos individuais em seu computador. Originalmente, ela queria estudar as ligações entre machos e fêmeas, mas então percebeu um comportamento incomum: fêmeas sem nenhum parentesco preferiam a companhia umas das outras do que a dos machos. Elas passavam o tempo cuidando uma da outra, compartilhavam comida, se beijavam e se abraçavam, e até esfregavam a genitália umas nas outras para firmar amizades especiais. Como um grupo, os bonobos machos pareciam estar fora do circuito, um grande contraste em relação à política de dominância masculina dos chimpanzés.

Bonobos.

Bonobos.

Pesquisadores já tinham percebido esse padrão incomum por pelo menos 10 anos, mas hesitaram em tirar conclusões. Segundo eles, dizer que um parente próximo dos humanos vive em sociedades dominadas por mulheres soaria improvável. Era perturbador para algumas pessoas, e havia resistência. Totalmente previsível.

E ainda há resistência. Mas Parish não poupou palavras em sua pesquisa, fortalecendo o caso posteriormente com um estudo: ela contablizou os ferimentos com sangue nos registros de zoológicos pelo mundo todo, descobrindo que as fêmeas bonobos vitimizavam machos em quase todos os casos violentos.

Enquanto alguns crítico ainda recusam o matriarcado bonobo, justificando como obra do acaso ou uma ilusão feminista, Parish e outros pesquisadores respondem com teoria e evidências que mostram como os laços entre fêmeas (sororidade gente, olha!) funcionam para controlar os machos, mesmo que eles sejam maiores que elas. Diferentemente das fêmeas solitárias e geralmente abusadas dos chimpanzés, é provável que as gangues de fêmeas bonobos evitem que os machos matem os bebês de machos rivais (como acontece com outros primatas) e permite que as fêmeas escolham seus parceiros e tenham acesso à melhor comida. Em seu habitat natural, as fêmeas também caçam e distribuem a carne, função considerada exclusivamente masculina.

Fêmeas humanas são geralmente caracterizadas como mesquinhas, intriguentas e ciumentas, mas o fato é que, quando fêmeas estão juntas, isso dá a elas (a nós!) uma incrível força. Parish diz:

“A falsidade entre mulheres deriva do patriarcado, que força as mulheres a competirem entre si em um jogo regulado pelos homens e ao mesmo tempo as recrimina por fazê-lo.”

Por mais de um século, cientistas evolucionistas negligenciaram a importância do comportamento das fêmeas, tratando-as como uma constante passiva onde quem competia por sexo e protagonizava todos os rolês eram os machos. As fêmeas, os cientistas decidiram, apenas esperavam para ficar com o vitorioso. Freud pelo menos perguntou o que as mulheres querem?, enquanto esses cientistas não chegaram tão longe, porque achavam que as fêmeas não faziam diferença.

Nas últimas três décadas, porém, cientistas feministas começaram uma surpreendente reavaliação do comportamento animal. Agora, pesquisadoras reuniram evidências para provar o que parece óbvio mas foi negado por muito tempo: animais fêmeas têm um papel ativo na evolução, tanto quanto os machos. Os estudos atuais, de primatas em seu habitat natural até insetos em laboratórios, revelam uma política feminina complexa, onde a hierarquia, sociabilidade, escolha de parceiros, parceiros múltiplos, competição e infantícidio influenciam a reprodução, sobrevivência dos bebês, e também como os genes e comportamentos passam para a geração seguinte.

“Nas décadas de 50 e 60, os cientistas herdaram uma visão da evolução humana onde os machos naturalmente dominam as fêmeas. As feministas mudaram o quadro”, dusse Londa Schiebinger, diretora do Instituto para Pesquisa em Mulheres e Gênero da Universidade de Stanford. Seu livro, O Feminismo Mudou a Ciência? (Harvard University Press, 1999)  identifica a primatologia como um dos principais campos onde homens (?) e mulheres feministas reformularam sob influência dos movimentos de mulheres dos anos 70.

O objetivo desses primatologistas era simples: prestar igual atenção aos interesses dos machos e das fêmeas. E essa atitude finalmente tornou-se padrão, as críticas feministas à teoria da evolução foram incorporadas às correntes principais de estudos de maneira surpreendente.

Introduzir as ideias feministas em círculos Darwinianos teve certa resistência nos turbulentos anos 70. O campo empolgante e controverso da sociobiologia – um revival mais atualizado da teoria evolucionária de Darwin – estava entrando em voga, mas alguns de seus pensamentos ainda eram sustentados em uma visão de papéis de gênero retirada da era Vitoriana: a que diz que machos são agressivos e sexuais, fêmeas passivas e recatadas. As próprias cientistas mulheres dizem: “Naquela época, e ainda hoje, feminista ainda é um palavrão – uma mácula que as jovens cientistas na área desejam evitar.”, disse Hardy. Mas ela e outras persistiram, e sua crítica ao Darwinismo, que colcou as fêmeas das espécies de volta ao quadro da evolução, desenharam a base teórica para os 25 anos de pesquisa que tentaram preencher todas essas lacunas.

Muitas dessas lacunas foram preenchidas por novas maneiras de observar. Por exemplo, os métodos de campo da primatologista Jeanne Altmann removeram qualquer avaliação tendenciosa dos pesquisadores ao escolher animais aleatoriamente para serem observados em intervalos específicos. Isso levantou o status de atividds anteriormente ignoradas, como alimentação dos pequenos, coleta de comida, socialização, asseio e brincadeiras. Conforme o novo foco se distanciou dos estereótipos – incluindo a ideia de que a monogamia feminina é natural – os pesquisadores inicialmente encontraram ceticismo, e até mesmo indignação.

Então o que isso significa para nós humanos? Pesquisadoras feministas dizem que sua principal preocupação é mostrar a diversidade da experiência humana e animal. “Feministas estão interessadas em variação. Nós resistimos ao essencialismo”, diz Gowaty. “Se todo mundo está fixado em uma característica, então não há possibilidade de evolução. É aí que começamos nossos estudos.”

Encontrar tais variações tem sido o objetivo da psicóloga Barbara Smuts, da Universidade de Michigan, cujos estudos linkam coerção sexual difundida no reino animal com estupro humano, mostrando o quanto laços fortes entre mulheres e relações igualitárias com os machos podem reduzir ou prevenir a incidência de tais perigos. “Entender como nos tornamos desse jeito pode nos ajudar a mudar”, ela fiz. “Nós estamos tentando usar a ciência para fins políticos.”

Assim como todo mundo. É por isso que os argumentos evolucionários causam controvérsias por todo o espectro político, desde criacionistas que negam que descendemos dos primatas até esquerdistas que acreditam que a cultura e moralidade humanas transcendem a natureza. Enquanto o livro da Susan Brownmiller Contra Nossa Vontade: Homens, Mulheres e Estupro redefiniu o estupro como um ato de poder masculino e dominação – não biologia ou sexo, ela ainda acha as feministas Darwinianas provocadoras.

“Seria muito difícil dar o salto do comportamento animal para humano, mas é extremamente interessante”, Brownmiller diz. “Essas mulheres são muito corajosas ao levantar questões sobre maternidade e alianças femininas.”

Um comentário sobre “Ainda os bonobos e a ciência feminista

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