A culpa não é (só) sua. Nem a responsabilidade.

Isso seria apenas uma atualização de status no facebook, mas achei tão especial e tão importante que preferi registrar aqui, porque as coisas no blog não se perdem – no facebook sim.

Eu sempre fui da filosofia do beija-flor. Lembra daquele video do Betinho de fazer qualquer um chorar? Pois é. Um beija-flor apagando um incêndio, carregando gotinhas de água no bico. E continuo sendo assim, tentando fazer a minha parte no que for possível. O lance é:

NEM SEMPRE É POSSÍVEL. PRA QUASE NINGUÉM É POSSÍVEL.

Hoje cedo me deparei com um post no mural da Vanessa Prates compartilhando uma matéria sobre uma mulher que está há dois anos sem produzir lixo nenhum. Esse post já tinha sido compartilhado antes por outres amigues da minha timeline, mas hoje em especial eu fiquei chateadíssima ao lê-lo com mais atenção.

A matéria termina com “A escolha é sua”.

Porra. Que injusto. Não é não. Vem ver o tempo q leva pra cuidar de uma porra de uma horta de 3x2m. Vem ver o tempo que leva pra fazer seu próprio queijo vegetal. Não é escolha de ninguém. Aliás, de quase ninguém. Pouquíssimos privilegiados conseguem se dar ao luxo de viver com um mínimo de sustentabilidade. A escolha não é sua. E, lamento informar, quem vai mudar o mundo não é você e a sua escolha.

Eu tô querendo, há tempos, esquematizar alguma coisa aqui em casa para armazenar e reutilizar água da chuva. E veja bem, para conseguir fazer o básico do básico, guardar água sem tratar apenas para regar as plantas e talvez lavar o piso, eu não vou conseguir gastar menos de R$ 500,00. Todos os projetos que eu pesquisei, mesmo os mais simples, custam caro. Caro para mim, óbvio. E uma fortuna para a maioria dos brasileiros.

A gente aprende desde pequeno que temos que salvar o planeta individualmente, economizando água, economizando luz, não lavando calçada, não deixando a torneira aberta enquanto escovamos os dentes. Como se a minha ação individual fosse salvar o mundo e como se nós, indivíduos, cada um na sua casa reciclando o seu lixo fôssemos os grandes destruidores ambientais.

Somos destruidores ambientais. Mas não os GRANDES destruidores ambientais. Podemos sim reduzir nosso consumo, nosso consumismo, ter hábitos menos terríveis. Mas é muita inocência achar que é só isso e lavar as mãos. Como se o problema não fosse SISTÊMICO, mundial e, principalmente, vinculado ao capitalismo e à lógica de mercado.

Mas tá na moda liberal esse lance das escolhas individuais. A Fabíola Ladeira bem falou, que assim como estamos numa época de um forte feminismo liberal, estamos numa época de um forte veganismo liberal. Então casos que colocam que a ação pessoal que muda o mundo, ou somente que é ‘cool’, ‘hyper’ estão aflorando. Existe todo um sistema arquitetado para fazer com que a gente pense que a mudança está 100% nas nossas mãos (e não está) e parte desse sistema é justamente transformar essas decisões em algo da moda. A própria moça que não produz lixo tá ganhando rios de dinheiro vendendo produtinhos e dicas. Ou seja. Tá contribuindo exatamente como, quando reforça o tal consumismo ao se transformar numa estrelinha cool?

Nosso modelo produtivo é do “compre e jogue fora”. Produtos que antes duravam 30 anos (lembra daquela TV da vovó?), tem seu uso reduzido propositalmente, de modo a forçar que consumidor compre novamente e gere mais lucros para a empresa. Nossa gestão de recursos é uma bosta e o modelo do nosso agronegócio é criminoso. O Brasil é o país que mais utiliza agrotóxicos NO MUNDO, sendo que 14 dos agrotóxicos que utilizamos são proibidos no resto do mundo. Foram oito mil casos de intoxicação por agrotóxicos em 2011 (não achei dados de 2014, mas imagino que só aumente a cada ano). E intoxicação por agrotóxico é uma coisa que a gente vê na hora. Como medir o efeito disso a longo prazo?  Ou seja, deve existir muito, mas MUITO mais vítima do consumo de agrotóxicos que a gente jamais vai conseguir relacionar diretamente com eles.

Organicos-I

Durante a minha campanha eu falei sobre soberania alimentar, e em determinado momento alguém foi na minha fanpage dizer que… Eu era playboy porque falar mal de agrotóxico é fácil, “quero ver ser agricultor”. Então tem isso mesmo: o consumo de orgânicos é elitista. Não é escolha, é PODER ECONÔMICO. O que aquele crítico não soube foi avaliar que estamos aí, eu e outros, justamente querendo questionar essa estrutura e esse elitismo das opções menos tóxicas para TODOS. E totalmente contra essa glamurização da escolha individual de produzir menos lixo e consumir produtos direto da horta. Porque, de novo, isso não é uma escolha.

E a Fátima Tardelli Belegante, pra mim, lacrou: A Sabesp é uma das maiores desperdiçadoras de água simplesmente porque NÃO fizeram a manutenção nos canos e a água é desperdiçada antes de chegar nas torneiras. 40% de toda a água consumida em São Paulo, Grande São Paulo e Baixada é consumida pelas industrias. mas quem é que o sistema demoniza? O consumidor residencial, que começou a ser criticado até por regar suas plantas ou lavar seus animais de estimação. A culpa de tudo é colocada no consumidor, na pessoa.

A pergunta é: como é que qualquer cidadão médio, tendo de trabalhar 8 h/dia (geralmente mais), se deslocar para o trabalho, cuidar dos filhos e da casa, vai ter tempo (e espaço) para cultivar horta, fazer compostagem do lixo, etc. Não vai. Pra rico TUDO e possível e é muito fácil se gabar de poder fazer todas essas coisas ignorando que o problema é outro, e tem que sair do individualismo liberal e da lógica capitalista.

Isso também passa por políticas públicas, que dependem muito mais de pressão popular do que imaginamos (e principalmente dependem de uma reforma política, porque o agrobussiness e a indústria da carne são negócios bilionários que estão comandando o congresso hoje). A agricultura camponesa é uma prática em extinção. Ninguém consegue sobreviver no campo e trabalhar a terra. No atual modelo de produção, distribuição e consumo de alimentos avançamos para uma agricultura sem camponeses.

A essência da soberania alimentar reside em “poder decidir”: que os agricultores possam decidir o que cultivam, que tenham acesso à terra, à água, às sementes, e que os consumidores tenhamos toda a informação sobre o que consumimos, que possamos saber quando um alimento é transgénico ou não. Tudo isto hoje é impossível. A não ser para quem é privilegiado e pode tomar essas tais decisões individuais.

Todo esse blablabla foi só para que você possa ficar um pouco mais tranquilo se, como eu, não tem condições de ter a sua própria composteira em casa. Mas não jogue sua ecobag fora. Continue sendo uma pessoa legal. Mas saiba que precisamos de bem mais do que não usar sacolas de supermercado se o objetivo é salvar o mundo.

A Fabíola Ladeira também me lembrou do Coletivo Até o Talo. Um projeto lindo que tira um pouco essa inidividualização do consumo e tenta a desglamurização do veganismo e a promoção de um relacionamento saudável com a natureza, o corpo e a comensalidade. Já tive a oportunidade de participar de um evento deles aqui em Blumenau e realmente é algo fantástico (e delicioso). Ando me interessando também pela ideia de hortas coletivas e outros projetos interessantes desse mesmo quilate. Quem sabe algo surge em 2015? Bora arregaçar as mangas? A única certeza que eu tenho é: eu, aqui, sozinha, no meu quintal, colhendo os meus tomates não estou fazendo a menor diferença.

(misturei um monte de assunto, né? dsclp)

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2 comentários sobre “A culpa não é (só) sua. Nem a responsabilidade.

  1. Eu trabalhei numa contabilidade três anos e fazia todo o controle de uma cooperativa alimentícia que produzia geleia de frutas (frutas dessas plantadas nas hortinhas do quintal), doces caseiros e pães. Essa cooperativa surgiu da União de pessoas simples, que não tinham muitas condições, mas pra vender seus produtos em mercados, por exemplo, e ter sua renda, precisavam de um CNPJ. Era terrível ter que cobrar as “fatias” de impostos de cada cooperado. Eles faziam com tanto amor, uma simplicidade… Enfim. O produto deles era bem mais saudavel e trabalhoso e os industrializados pagavam os mesmos impostos. Na real, se a gente for pensar, a nossa parcela é pouquíssima. Nossas atitudes, idem. Sad but true!

    • O governo nao facilita pq nao lhe convem. Com todo o financiamento de campanha vindo do agronegocio olha a merda que da: katia abreu ministra.

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