Sororidade bonoba = a solução dos nossos problemas

Há pouco tempo concluí mais um curso do Coursera, chamado Moralities of Everyday Life. O curso tinha como objetivo discutir como o ser humano somos capazes de tanta bondade e ao mesmo tempo tanta crueldade. Como seres humanos chegam a determinadas opiniões sobre aborto, casamento gay, ações afirmativas, tortura etc. Como a evolução, cultura e religião moldam nossa natureza moral. E assim foi: ciência moderna no que diz respeito a crenças e ações morais, disciplinas como ciência cognitiva, neurociência, economia e filosofia. Pesquisas de laboratório, pesquisa social, bebês, macacos e psicopatas. Textos com alegações sobre diferenças morais entre homens e mulheres, liberais e conservadores, cristãos e muçulmanos; preconceito e ódio, sexualidade e pureza, punição, vingança e perdão, enfim. Foi lindo, definitivamente o melhor curso que fiz no Coursera até hoje, e olha que nem foi ministrado pela minha paixão platônica, Michael S. Roth.

Michael Roth

❤ Michael J. Roth ❤

Sim, eu tenho minhas muitas inúmeras infinitas ressalvas com o que chamam de psicologia evolucionista, mas essa crítica eu vou deixar para fazer em outro post. Hoje eu quero falar somente sobre os bonobos. Na terceira semana do curso tivemos que assistir a uma palestra com a Laurie Santos, uma professora de psicologia e ciência cognitiva em Yale que pesquisa as origens evolucionárias da mente humana. Ela faz isso comparando as habilidades cognitivas de humanos e não-humanos, especialmente primatas e cães. Laurie Santos: diva, linda, maravilhosa. Cheguei a sonhar uns dois dias com a palestra dela e o quanto a minha cabeça quase explodiu com tudo o que ela falou. Vamos às informações.

A maior parte do tempo, quando estamos procurando preocupações morais nos animais, estamos pensando na parte da bondade, estamos pensando em minimizar os danos e ajudar e etc. Mas também pode ser que, através dessas observações, também tenhamos uma maior compreensão sobre nossa própria natureza, ou ao menos a parte da nossa natureza com a qual precisamos lidar se formos levar a sério essa ideia de estudar os princípios que agem por trás da crueldade extrema.

Humanos podem ser agressivos e violar normas morais das sociedades de maneiras completamente absurdas e envolvendo inúmeros danos, agressividade e letalidade. E isso geralmente contra indivíduos que fazem parte de grupos diferentes do nosso. Se nós fizessemos uma eleição para escolher o que consideramos a maior atrocidade moral da cultura humana, o que quer que fosse eleito envolveria violência em larga escala, de grupo contra grupo, geralmente muito agressiva e com alta taxa de mortalidade.

E se formos curiosos o suficiente para tentar descobrir de onde esse tipo de coisa vem, o melhor a fazer é pegar todo o reino animal e perguntar: em que outras espécies nós vemos esse tipo de coisa? Coisas imorais, bem, isso deve aparecer em todo lugar, certo?

Não.

Se você olhar para todas as espécies de animais, as únicas duas onde você encontra agressão letal somos nós, humanos, e um dos nossos dois parentes mais próximos.

bonobotree

Não os nossos dois parentes mais próximos, apenas um deles. Infelizmente, e você já sabia disso, nós podemos ver violência mortal nossa própria espécie. Mas também vemos essa característica nos chimpanzés. Mas não vemos isso nos bonobos, que estão tão próximos de nós quanto os chimpanzés.

Então o que acontece?

A resposta a essa pergunta pode começar conosco olhando para a sociedade dos chimpanzés e pesquisando que sabemos sobre ela. A parte boa é que sabemos muito sobre a sociedade dos chimpanzés, especialmente através do trabalho pioneiro da Jane Goodall e seus colegas. Eles pesquisaram e descobriram que os chimpanzés usam ferramentas, e que eles são mais sofisticados cognitivamente do que nós imaginávamos. Mas também descobriram muitas coisas negativas, como que a sociedade dos chimpanzés não é aquela maravilha idealizada que alguns de nós podemos pensar.

Muitas vezes espécies diferentes parecem estar em polos opostos. Mas às, vezes, o que separa duas espécies é algo mais social que físico, e é isso o que acontece com os nossos dois parentes mais próximos, os chimpanzés e os bonobos.

Chimpanzés e bonobos vivem em florestas parecidas na África Equatorial. Eles são muito parecidos fisicamente, moram em comunidades de mesmo tamanho e comem comidas parecidas.

E mesmo assim…

A violência é algo corriqueiro para os chimpanzés. Guerras entre comunidades vizinhas são comuns. E também o abuso sexual de suas fêmeas. Os chimpanzés são uma espécie que, se você olhar para o seu comportamento natural, muitas vezes parece ser muito legal, mas a verdade é que eles são uma espécie bastante violenta. Muita violência intragrupo, indivíduos espancando fêmeas, infanticídio. E fica ainda pior quando você tenta entender como a violência intergrupo funciona, porque vemos muitas característcias de uma espécie que se importa bastante com o que está acontecendo na outra comunidade e está sempre anaisando se é possível obter recursos desse outro grupo.

Chimpanzés gritam. E essas são vocalizações que são úteis para manter as comunidades de chimpanzés juntas. E as comunidades de chimpanzés ocupam uma ampla área, e então eles precisam manter controle de onde todos estão. Não porque haja predadores de chimpanzés (além dos humanos, claro), mas sim porque há violência em potencial proveniente de outros chimpanzés, então eles vocalizam para alertar o resto da sua comunidade de que há perigo.

O ponto é que as interações que ocorrem entre comunidades diferentes de chimpanzés são incrivelmente assustadoras. Por que?

Os chimpanzés machos costumam se juntar, sair de sua área e fazer uma patrulha em áreas próximas. O que acontece quando eles encontram outro indíviduo, de outra comunidade, sozinho? Bom, eles fazem coisas horrorosas como estraçalhá-lo. E geralmente isso acontece quando o outro é um outro chimpanzé mais fraco e menor que eles, então não  dá nem pra argumentar legítima defesa. Você pode encontrar imagens horrorosas, de animais com cortes profundos pelo corpo todo, testículos arancados…

Quais são as similaridades com os humano? Vemos muitas semelhanças especialmente com o que vemos nas guerras humanas. Essa agressão fatal por membros em coalizão significa uma força mortal por parte de grupos de indivíduos que saem de seu grupo e vão a um grupo vizinho, aparentemente com o propósito de causar guerra, ou agressão. E essa característica acontece não apenas entre grupos, mas também intragrupo. E tipicamente isso envolve machos e os alvos dessas ações também são machos.

E também rola o saldo da guerra, onde os vitoriosos tem acesso a mais terra, mais recursos, e nesse caso até mais fêmeas. Esse é nosso legado, e é uma característica que deveríamos achar muito perturbadora porque há muitas semelhanças em termos do que acontece em termos de violência letal entre chimpanzés e o que acontece entre os humanos.

Mas, claro, tem ese outro caso, o caso dos bonobos, nosso parente tão próximo quanto o chimpanzé, que não mostra nenhuma dessas características. O que aconteceu com os bonobos que fez com que eles não tivessem esses comportamentos?

Bonobinhos lindos!

Bonobinhos lindos!

Se olharmos para a estrutura social dos bonobos, veremos que é muito mais descontraída do que o que vemos entre os chimpanzés. E em parte é porque eles não aparentam ter os tipos de sociedades violentas que vemos entre os chimpanzés. Não vemos violência intergrupo. Nem reprimendas letais. Na verdade os casos de interação intergrupos são sempre bastante prazeirosas com os indivíduos se comportando de maneira muito civilizada. Vemos muito pouca violência intragrupo. Os machos não são tão malvados com as fêmeas como acontece entre os chimpanzés. Nenhuma evidência de infanticídio. Parece uma sociedade bem feliz, bem sossegada.

O que acontece?

O que os pesquisadores descobriram é que, se você estudar o comportamento social dos bonobos, eles em parte são não-violentos porque escolhem fazer amor e não guerra. O comportamento sócio-sexual nos bonobos parece ser um mecanismo muito importante que eles usam para não ter muitos desses problemas de violência.

Na última década, Amy Parish tem observado o comportamento dos bonobos no San Diego Wild Animal Park. Ela encontrou as mesmas interações sexuais que vemos entre humanos (sexo de frente um para o outro). Viu machos e fêmeas transando pendurados em árvores. Viu machos fazendo sexo com outros machos em um movimento próprio, onde eles esfregam as bolsas escrotais um no outro. Viu masturbação. E também fêmeas esfregando suas genitálias inchadas umas nas outras rapidamente. E não viu violência, nem intragrupo nem intergrupos.

E a pergunta é: o que permitiu que as fêmeas bonobos tivessem um relacionamento tão pacífico com os machos?

Parish acredita que é a solidariedade feminina. Ao cooperarem umas com as outras e solidificarem seus laços, elas são capazes de formar alianças entre elas e de maneira cooperativa dominar os machos. E isso muda todo o equilíbrio de poder e a dinâmica social do grupo, o que faz o bonobo ser radicalmente diferente do chimpanzé. Os machos não conseguem formar coalizões para agir contra as fêmeas porque elas já tem seus laços e suas coalizões.

E a pergunta de um milhão de dólares: por que as bonobos fêmeas conseguem estabelecer esses laços e as chimpanzés fêmeas não?

E aí chegamos à hipótese que o Richard Wrangham tem tentado postular, a do Macho Demoníaco (Demonic Males: Apes and the Origins of Human Violence). A ideia é de que esse comportamento de coalizão das fêmeas acontece devido a circunstâncias ecológicas.

Aparentemente uma mudança bastante simples na ecologia alimentar foi responsável por essa dramática diferença no comportamento social e sexual desses primatas. Os bonobos vivem em ambientes onde há muito mais fartura de ervas, continuamente, e no chão. E há chimpanzés que vivem em áreas parecidas, mas nessas mesmas florestas onde eles vivem sempre há gorilas. Os gorilas comem a comida que está no chão, deixando os chimpanzés altamente dependentes das árvores frutíferas. Para conseguir comer, as fêmeas coletam frutas sozinhas. As fêmeas com bebês de idade entre 0 e 5 anos não conseguem se mover tão rapidamente quanto os machos. Então é bastante típico que os chimpanzés machos já tenham comido tudo quando as mães chegam. Então, as mães se dispersam, ficam longe umas das outras e longe dos machos.

Isso significa que elas não conseguem ter muitas oportunidades de criar laços entre elas. Ou seja. O simples fato de que havia mais comida disponível no chão parece ter sido a força que guiou a evolução dos bonobos.

Wrangham acredita que o catalisador disso foi uma longa seca que aconteceu há dois milhões de anos onde agora é o Zaire. As plantas e os gorilas que dependiam delas morreram. Foi duro para os chimpanzés, mas eles conseguiram sobreviver das frutas nas árvores. Quando a chuva e as plantas voltaram, os gorilas não. Então os chimpanzés podiam se alimentar das plantas que estavam no chão, e com o tempo aqueles que eram chimpanzés nessa região da seca evoluíram para bonobos.

Suspeita-se que essa mesma seca forçou nossos ancestrais a saírem das florestas do leste da África para as planícies. Era impossível, para aqueles primeiros humanos, viajar em grandes grupos como os bonobos fazem e, portanto, também impossível para as nossas fêmeas formarem alianças e dominarem os machos da forma que aconteceu com os bonobos.

Uma pequena diferença na história da nossa alimentação e nós poderíamos ter evoluído para uma espécie totalmente diferente, mais pacífica, menos violenta, mais sexual.

E isso levou aos tipos de violência, de violência intragrupo e intergrupos que vemos entre os chimpanzés. O tipo de coalizão entre machos que não pode ser detido pelas fêmeas por causa da ecologia alimentar. A alegação é de que os mesmos tipos de mecanismos levaram ao tipo de violência intragrupo que vemos nos humanos. Esses mesmos mecanismos que vemos nos chimpanzés provavelmente existem em nós porque nossa ecologia alimentar foi muito semelhante à dos chimpanzés.

Quais são esses mecanismos psicológicos? E como podemos lidar com eles ou detê-los? Essas são grandes perguntas para as quais não temos respostas, mas podemos ter algumas pistas ao estudarmos as semelhanças e diferenças entre nós e nossos parentes próximos.

Que conclusões podemos tirar disso tudo? Quais percepções morais podemos ter sobre os humanos ao olharmos para os animais? Acho que vou falar mais sobre isso nos próximos posts, porque esse assunto tem me fascinado demais.

Anúncios

5 comentários sobre “Sororidade bonoba = a solução dos nossos problemas

    • Nossa. Adorei ler esse comentario!
      Foi um dos posts que mais deu trabalho escrever na historia do blog e um dos que menos foi lido.
      Tava bem triste. 😦

  1. Pingback: Preocupações morais nos animais | Georgia Martins Faust

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s