Fim das eleições, e agora?

Minha candidatura foi algo de inusitado, atropelado e fantástico ao mesmo tempo. Eu não imaginava, quando estava de férias em janeiro, que esse seria o ponto alto de 2014. Tinha tantos outros planos em mente! No final das contas todas as prioridades foram invertidas e a única meta definida antecipadamente para 2014 e que de fato foi cumprida foi fazer a minha primeira maratona, em Porto Alegre, em maio. Aliás, devo confessar, foi mesmo o momento mais emocionante do ano. Não existem palavras para descrever a sensação de cruzar a linha de chegada depois de 42 quilômetros correndo, e a vontade de NUNCA MAIS repetir essa insanidade. Dois dias depois eu já estava na internet procurando minha próxima maratona. Acho que é assim com todo corredor, quando terminei minha primeira meia-maratona também jurei que jamais faria isso de novo e hoje já tenho várias provas nas costas.

Bom, mas não era sobre isso que eu queria falar.

Apesar de eu ter usado esse espaço para a minha campanha para deputada estadual na última eleição, esse ainda é meu blog pessoal, então não espere uma análise de conjuntura super formal e detalhada porque não haverá.

A pergunta que TODO MUNDO me faz: e aí, gostou?

Então. Não sei ainda. Sinceramente mesmo. Não sei se gostei. É legal fazer campanha? É. Super legal. É legal visitar as pessoas, falar do que eu acredito, compartilhar ideais, receber apoio, ler comentários bacanas. É legal começar a ficar mais por dentro de como tudo funciona. É gostoso ter o reconhecimento e o apoio das pessoas que a gente gosta e principalmente das pessoas que a gente nem espera. Recebi declarações de voto de última hora que me encheram o coração, de amigos com quem eu acreditava ter divergências ideológicas intransponíveis… E claro, tem a parte do ego também, as pessoas te elogiando e te encorajando a seguir em frente, não desistir. Foi massa pesquisar as coisas para a campanha, descobrir ainda mais sobre as bandeiras que sempre defendi e também ter virado referência para esses assuntos para algumas pessoas. Foi uma delícia ver o engajamento do núcleo duro da minha campanha, mulheres fantásticas que acreditaram no partido e dedicaram horas dos seus dias a me ajudar na produção de conteúdo, comícios domiciliares, divulgação e multiplicação de tudo isso.

Mas teve a parte não tão legal. Não é tão legal dar-se conta de que tudo isso é baralho de cartas marcadas. Fuçar incansavelmente os números dos financiamentos de campanha só para ter mais certeza ainda que ganha quem tem mais grana, e que essa grana sempre vem de corporações com interesses “excusos” (não é doação, é investimento, lembram?). Eu não sou tão burra inocente assim, eu sempre soube que essas coisas rolavam, mas quando você está envolvido diretamente com o rolê dá um desânimo a mais. Não foi legal eu ter que lidar com as minhas próprias variações absurdas de humor. Tinha dias que eu acordava querendo morrer desistir de tudo por saber que as chances de vitória eram mínimas e por desanimar com os debates que assistia nas redes sociais.

Os ataques que eu sofri não foram muito legais também, mas o mais incrível – incrível de inacreditável mesmo – é que o maior número de ataques e encheções de saco vieram justamente DA ESQUERDA. Eu esperava reações bem mais inflamadas dos reacionários blumenauenses. E rolaram, claro, gente questionando como eu posso ter um iphone, como posso ter um carro financiado pelo Banco FIAT e dar dinheiro pra banco ao invés de ter um Lada (sim, falaram isso). Mas alguns compas da esquerda, olha. Difícil, viu.

E a parte MAIS não-legal de todas foi tentar continuar sendo a Geórgia de sempre, mas vendo os outros candidatos se transformarem em seres sem opinião e entrando na fantasia do não-posicionamento para também não gerar comprometimento. Candidato tem que fazer isso. Candidato tem que fazer aquilo. Agora que você é candidata, não pode mais falar tal coisa. Esse “profissionalismo” das candidaturas me irritou muito. Tanto que escrevi um desabafo antes mesmo de a candidatura ser homologada:

Desabafo

Essa imagem originalmente foi uma atualização de status no meu facebook pessoal e recebeu uma enxurrada de curtidas. Mas mesmo assim. São posturas que eu assumi e banquei, mas sabia que me custaria. Porque não é o que as pessoas querem e esperam de um candidato, né. E eu nunca fui de pegar bebê no colo e construir essa imagem de comercial de margarina.

Saber que eu não tinha condições financeiras de trabalhar menos para me dedicar mais a campanha também foi algo que me incomodou demais. Especialmente por ver candidatos que já estavam afastados de seus trabalhos 6 meses antes das eleições dedicando-se exclusivamente a campanha – mesmo antes de campanhas serem liberadas já estavam na rua, conversando, conquistando, articulando. Contei muito – exclusivamente, na real – com a militância, do partido e de amigos. E esse também foi um problema. Porque apesar de uma carrada de gente apoiar e declarar apoio em chats, essas mesmas pessoas acham que apoiar alguém é isso: mandar pensamento positivo. Mas não se davam conta que em uma campanha pequena com recursos mais do que escassos, apoiar deveria significar MILITAR mesmo. E ninguém é afim de militar porque nunca se criou essa cultura, da forma que nossa política eleitoral é estruturada. Os eleitores estão acostumados a ser mimados pelo seu voto, a ser convidados para churrascos oferecidos pelos candidatos. Eu fiz uma feijoada para ARRECADAR dinheiro onde as pessoas tinham que PAGAR para estar lá. E isso quebra totalmente a expectativa das pessoas – de que o candidato tem grana e vai me DAR benefícios, e não PEDIR coisas para mim. Sabe?

No final das contas fiquei absolutamente satisfeita com os meus 1649 votos. Muito mais votos do que o número de curtidas na fanpage do facebook, o que indica que sim, algumas pessoas militaram em meu favor. E muitas declarações de apoio, muita torcida e muitos pedidos para que eu não desista, dizendo que a campanha foi corajosa e que Blumenau precisa de gente fazendo esse tipo de política.

Se vou me candidatar de novo?

Difícil dizer. Primeiro porque não é uma decisão minha. Faço parte de um partido político com uma estrutura bastante democrática e compartilho com meus companheiros um projeto de sociedade. Não é a Geórgia individualmente quem levanta essas bandeiras, é um coletivo múltiplo, lindo, diverso, engajado. Esse tipo de decisão é tomada em conjunto, de acordo com os interesses desse coletivo. Mas mesmo se essa decisão dependesse exclusivamente de mim, ainda assim não saberia.


E o saldo das eleições para nós, mulheres?

Eu até iria discorrer a respeito aqui, mas o blog Ensaios de Gênero fez uma análise tão completa que não me resta dizer nada além de linkar o post deles AQUI. Emplacamos, somente nessa eleição, 51 mulheres na Câmara dos Deputados, o equivalente a 9,94%. No Senado, teremos, 12 mulheres, ante 69 homens: 14,8% de mulheres, também um recorde, e… 85,2% de homens. Mas não esqueçam: uma maior representação feminina não implica necessariamente o avanço de pautas feministas. Uma coisa são lideranças femininas; outra, lideranças feministas – aliás, a história é pródiga em nos mostrar exemplos de mulheres que, no poder, agiram verdadeiramente como homens, no sentido de um exercício político patriarcal, machista, conservador.

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