Por que “De Esquerda”?

Embora as perguntas abaixo não necessariamente façam parte da competência de um deputado estadual, são bandeiras importantes que eu defendo. Achei interessante colocar essas perguntas aqui pois foram elaboradas provavelmente por algum Olavete que supostamente estava entrevistando os candidatos catarinenses a deputado estadual. Quem recebeu e compartilhou as perguntas foi o Ivan Rocha, candidato a deputado federal pelo PSOL. Não se iluda com a velha história (que é praticamente unânime) de que não se vota mais no partido, se vota na pessoa. Sim, essa vem sendo uma tendência do eleitor brasileiro, mas não consigo sequer imaginar um erro político mais colossal. As tais pessoas nas quais você vota fazem parte de partidos, e partidos defendem determinadas bandeiras. Você acha que está votando no Fulano porque ele é gente boa, mas não sabe exatamente o que está endossando. Embora haja pequenas divergências dentro do partido com relação a algumas pautas, concordamos amplamente na maioria delas – e por isso as pessoas se juntam e formam PARTIDOS: por terem alguns ideais em comum de sociedade. Inclusive no discurso dois candidatos podem prometer a mesma coisa, ainda que cada um tenha meios totalmente diferentes para fazê-lo, ou mesmo nem fazê-lo, de acordo com sua posição política mais geral.

1- Você apoiaria a uma privatização das universidades publicas? Jamais.

2- Você é favorável a redução da maioridade penal? Não.

3- Você é favorável a descriminação do aborto? Totalmente.

4- Você é favorável a descriminação do porte e uso de drogas? Sim.

5- Você concorda que o governo deve interferir limitando preços de aluguéis de forma que facilite assim que mais pessoas tenham acesso a moradia? Sim.

6- Você é favorável a campanha do desarmamento? Sim.

7- Você é favorável a “lei da palmada” que prevê punições aos pais que submetam seus filhos a castigos físicos? Sim.

8- Você seria favorável a uma estatização do transporte público de forma que ele fosse gratuito para a sociedade? Sim.

9- Você concorda que o governo deve financiar campanhas de conscientização popular em favor de minorias como por exemplos a distribuição de materiais contra a homofobia em escolas? Totalmente.

10- Você julga benéfica para a população concessões como por exemplo a da BR 101? Não.

11- Você acha que privatizações como a da telefonia e energia trouxeram benefícios para a população? Não.

12- Você acredita em um modelo de cobrança de impostos progressivo onde os ricos pagam mais impostos que os pobres? Totalmente.

13- Você concorda com medidas protecionistas que visam proteger a economia nacional aplicando severos impostos em mercadorias importadas. Sim.

14- Você concorda com a privatização do correios abrindo portas pra uma livre concorrência nessa área? Não.

15- Você concorda que o ensino religioso deve fazer parte das grades de matérias de todas as escolas? Discordo totalmente.

16- Você concorda que a maior causa de criminalidade é a falta de oportunidades iguais para todos? Sim.

Eu

Essa sou eu, aquela bolinha vermelha ali no canto inferior esquerdo.

Tô com preguiça de gente que ainda diz que não existe mais direitaesquerda. Mano, lamento, existe sim. Mas o que exatamente estamos falando quando dizemos que somos de esquerda?

A raiz do padrão esquerda-direita é a revolução francesa, em relação às posições espaciais que os membros ocupavam na assembléia nacional, quando os partidários do rei (e do antigo regime) sentavam-se à direita e os partidários da revolução (e do novo regime) à esquerda.

Desde então, embora alguns autores discordem, o termo direita tem servido para designar os partidários da ordem social e econômica vigente, e esquerda os partidários da transformação de tal ordem. 

Atualmente, sob o capitalismo, as condições de partida (tipo ideal, intrínsecas ao regime) são as condições liberais: o estado mínimo, democracia como não interferência na vida privada, “liberdade de expressão”, propriedade privada ilimitada, incluindo a possibilidade de propriedade privada dos meios de produção, o trabalho assalariado, etc. Que tem suas consequências intrínsecas: o aumento crescente da pobreza relativa ao longo da competição, acumulação e expansão do capital, portanto a justificação da desigualdade, a impossibilidade de se medir e impedir politicamente os impactos ambientais da vida social, a impossibilidade de impedir os desastres humanitários nas crises em que o capital se reestrutura, etc.

A direita representa a legitimação da ordem capitalista, com suas premissas e consequências, a centro-direita admite suprimir suas consequências desde seja a condição para manter o sistema, enquanto a centro-esquerda combate suas consequências como prioridade, mas sem esquecer de regular minimamente o sistema, e a esquerda propõe a substituição das próprias premissas para anular as consequências (ou seja, a substituição do sistema inteiro).

A grande diferença – ó, que óbvio – é na questão das bandeiras que defendemos. Normalmente, associamos as ideias políticas que favorecem a burguesia à direita porque – assim como os deputados que se sentaram do lado direito do salão, durante a Assembleia Nacional Constituinte – seu principal objetivo é manter o funcionamento das relações sociais que a beneficiam (conservando sua posição de classe dominante). Enquanto isso, todas aquelas ideias que questionem minimamente a posição dominante da burguesia e que são comprometidas com a transformação e o progresso da sociedade são consideradas ideias de esquerda. Podemos considerar de esquerda, então, todos aquelas ideias que defendam, por exemplo, o fim da desigualdade social e da exploração do homem pelo homem; que defendam que todos os seres humanos sejam igualmente livres, por possuírem os mesmos direitos e por terem suas características particulares respeitadas; que tragam um projeto de sociedade no qual a burguesia não seja mais a classe dominante, porque todos teriam as mesmas condições financeiras e o mesmo poder de decisão e administração sobre o que é importante. No Brasil, o sufrágio universal, a legalização do aborto e a reforma agrária, por exemplo, são bandeiras historicamente de esquerda. A distribuição de renda – distribuir o dinheiro entre todas as pessoas possíveis, a inclusão social (todos devem ter acesso a serviços que só quem é da elite ou é rico tem acesso), o máximo possível de serviços públicos, inclusive o transporte e especialmente educação e saúde.

A direita, por outro lado, concentra muito mais esforços nas privatizações (por exemplo), sendo a favor do acúmulo de capital (de que as pessoas posam ficar ricas e não importa se isso faça as outras pessoas ficarem pobres), acreditam em meritocracia e livre comércio (acesso a serviços de acordo com o sucesso que elas têm financeiramente), intervenção mínima do governo, serviços privados (é contra pegar o dinheiro do imposto que eu pago trabalhando tanto pra pagar serviço de graça pras outras pessoas).

Mas tem mais! Por exemplo, a esquerda acredita que deve haver intervenção na socieda de e nas vidas das pessoas. A direita não quer intervenção. A esquerda apóia trabalhadores, enquanto a direita apóia empregadores. Na esquerda, o foco é na sociedade. Na direita, é no indivíduo . A esquerda acredita que a economia deve ser regulada, e que o governo deve cobrar impostos e gastá-los para o bem da sociedade. Já a direita não quer regulamentação nenhuma, nem quer pagar impostos (ou quer pagar o mínimo possível), e acha que o governo deve cortar gastos, sempre.

No que se refere à criação e educação, a esquerda crê em educar os filhos com amor para criar um relacionamento baseado em respeito e confiança, e ensina a criança a fazer perguntas, a se relacionar e cooperar com os outros. Já a direita crê num amor mais disciplinador para criar um relacionamento baseado em respeito e medo, que ensinará a criança técnicas para ser bem-sucedida, para competir e para ser indiv idualista. O mais importante é fortalecer o caráter. 

A esquerda acredita que criminosos são vítimas sociais e econômicas, enquanto a direita crê que criminosos optam por aderirem ao crime. Vê a sociedade como a sobrevivência do mais forte. A esquerda crê na diplomacia e na paz, enquanto a direita defende a guerra para resolver conflitos, e é militarista. A direita vota em quem quer manter a ordem, ajudar quem se ajuda (isso explica por que tanta gente de direita é contra o Bolsa Família). A esquerda vota em justiça social, em ajudar a quem não consegue ajudar a si próprio.

Todas as ideias que busquem romper o padrão comportamental imposto pelo modelo burguês de sociedade que temos hoje (essa que dá hegemonia ao homem, branco, heteronormativo, cis, cristão, monogâmico e proprietário) são de esquerda, pois têm o objetivo de libertar da opressão aqueles que não se encaixam em tal padrão. Ou seja, só a esquerda realmente quer questionar a sociedade como a temos hoje em suas questões estruturais. Destruir esse modelo desigual e excludente que temos hoje para criar uma sociedade mais humana, mas justa, mais igualitária.

Não existe questionamento do “sistema” fora da esquerda.

E para finalizar… De Esquerda e Feminista:

Simone de Beauvoir, e porque eu não acredito em feminismo de direita:

“Mulheres de direita não querem revolução. Elas são mães, esposas, devotadas aos seus homens. Ou, quando são agitadoras, o que elas querem é um pedaço maior do bolo. Elas querem salários melhores, eleger mulheres para os parlamentos, ver uma mulher se tornar presidente. Fundamentalmente, acreditam na desigualdade, só que elas querem estar no topo e não por baixo. Mas elas se acomodam bem ao sistema como ele é ou com as pequenas mudanças para acomodar suas reivindicações. O capitalismo certamente pode se dar ao luxo de permitir às mulheres a servir o exército ou entrar para a força policial. O capitalismo é certamente inteligente o suficiente para deixar mais mulheres participarem do governo. O pseudo-socialismo pode certamente permitir que uma mulher se torne secretária-geral de seu partido. Isso são apenas reformas sociais, como o seguro social ou as férias pagas. A institucionalização das férias pagas mudou a desigualdade do capitalismo? O direito das mulheres trabalharem em fábricas com salários iguais aos dos homens mudou os valores masculinos da sociedade Tcheca? Mas mudar todo o sistema de valor de qualquer sociedade, destruir o conceito de maternidade: isso é revolucionário. Uma feminista, quer ela se autodenomine esquerdista ou não, é uma esquerdista por definição.Ela está lutando por uma igualdade plena, pelo direito de ser tão importante, tão relevante, quanto qualquer homem. Por isso, incorporada em sua revolta pela igualdade de gêneros está a reivindicação pela igualdade de classes. Numa sociedade em que o homem pode ser a mãe, em que, vamos dizer, para colocar o argumento em termos de valores para que fique claro, a assim chamada “intuição feminina” é tão importante quanto o “conhecimento masculino” — para usar a linguagem corrente, apesar de absurda — em que ser gentil ou delicado é melhor do que ser durão; em outras palavras, em uma sociedade na qual a experiência de cada pessoa é equivalente a qualquer outra, você já estabeleceu automaticamente a igualdade, o que significa igualdade econômica e política e muito mais. Dessa forma, a luta de sexos inclui a luta de classes, mas a luta de classes não inclui a luta de sexos. As feministas são, portanto, esquerdistas genuínas. De fato, elas estão à esquerda do que nós chamamos tradicionalmente de esquerda política.”

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Um comentário sobre “Por que “De Esquerda”?

  1. Importa observar que foi o próprio Karl Marx quem na obra Contribuição à crítica da Economia Política discerniu o cenário em que se formam as condições para um processo de revolução social, descrevendo-o da seguinte forma:

    “Em certa etapa de seu desenvolvimento, as forças produtivas materiais da sociedade entram em contradição com as relações de produção existentes ou – o que é apenas a expressão jurídica delas – com as relações de propriedade no seio das quais se tinham até aí movido. De formas de desenvolvimento das forças produtivas, estas relações transformam-se em grilhões das mesmas. Ocorre então uma época de revolução social.”

    (Reproduzido conforme MARX, K. Prefácio à Contribuição à crítica da Economia Política, organizado por Florestan Fernandes e publicado com o título K. Marx: Teoria e processo histórico da revolução social, In Marx & Engels, Coleção Grandes Cientistas Sociais, História, vol. 36. São Paulo: Ática, 1983. p. 232. Edição comemorativa do centenário de falecimento de Karl Marx.)

    Ora, para qualquer um que tenha vivenciado o período da Guerra Fria, não era difícil perceber que, enquanto os países capitalistas desenvolvidos avançavam, os países socialistas mostravam-se estagnados no tempo, incapazes de acompanhar o seu ritmo de evolução.

    Enquanto o mundo capitalista vivia sob a égide das transformações trazidas pelo advento da robótica, da informática, da química fina e da biotecnologia, o bloco socialista ainda estavam preso ao estágio em que aqueles países se encontravam desde o período pós-guerra.

    Eles foram capazes de chegar ao espaço primeiro, concentrando suas energias nos setores bélico e aeroespacial, mas muito pouco fizeram tanto antes quanto depois desse fato em matéria de avanços tecnológicos em outras áreas. Com o tempo, acabaram perdendo para os países capitalistas tanto a corrida espacial quanto a competição pelo desenvolvimento nos demais setores.

    Incapacitado para acompanhar a transição rumo à sociedade pós-industrial, o “modo de produção socialista” foi vítima de suas próprias contradições internas. Assim, o “colapso geral do socialismo” ocorrido entre 1989 e 1991 e a subsequente implantação do “modo de produção capitalista” no Leste Europeu acabaram sendo a maior comprovação das causas do estado de revolução social conforme descritas por Marx. Por uma ironia do destino, esta concepção é proveniente do próprio arcabouço teórico sobre o qual aquele regime fundamentara a sua existência. Em outras palavras, “o feitiço virou-se contra o feiticeiro”!

    P.S.: Tirando as suas ideias espúrias sobre economia, muito semelhantes às da política que trouxe o nosso país à sua atual situação crítica, principalmente sob a batuta de Guido Mantega, o pior Ministro da Fazenda desde Zélia Cardoso de Melo (a do confisco da poupança), posso dizer que gostei do seu blog.
    A questão é muito simples: se a Esquerda entendesse alguma coisa de economia, ela não estaria quebrando agora a Venezuela como já quebrou a antiga U.R.S.S.

    Abraços!

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