Mulher pública, corpo público

De todas as repercussões que eu esperava ter com a campanha eleitoral, uma das últimas que eu pensava que iria realmente me incomodar era a questão do assédio. Pensei em tudo enquanto me preparava psicologicamente para todos os desafios que viriam com a candidatura: pensei em como lidaria com slut-shaming, com ameaças, com manifestações de ódio gratuito, com críticas ao programa político, com iuzomismo, com a falta de apoio de amigos… Mas nunca nunca pensei que iria sentir na pele, todos os dias, o quanto o corpo da mulher pública realmente é público.

Wendy Davis DYVA

Wendy Davis DYVA

Por mais que os tempos tenham mudado, nas sociedades ocidentais, consagrou-se uma divisão racional de papéis: aos homens, o espaço público e o político – o mundo do trabalho; às mulheres, o espaço privado e a casa, com a função de gerar e cuidar dos filhos. Os próprios nomes falam por si só. Homem público é o homem de renome, de sucesso, político de importância na sociedade. A expressão mulher pública pode levar a outra conotação, pejorativa, da mulher prostituta. A prova disso tem sido justamente a associação automática que alguns homens vêm fazendo de Geórgia-figura-pública com Geórgia-corpo-a-disposição.

Aparentemente, se eu estou colocando a minha cara na rua, se estou me expondo, se estou fazendo campanha, só pode ser porque quero ser mulher pública no sentido patriarcal do termo: quero ser assediada, quero ser tocada, quero ter meu espaço privado invadido por homens. E não duvido que alguns, ao lerem ese post, venham a colocar a culpa em mim, afinal, só posso estar pedindo. Alguns podem lembrar de eventos onde mulheres que se apresentam publicamente com roupas provocantes sofreram algum tipo de violência e tal violência foi atribuída justamente ao fato de ela se apresentar como objeto. E quando ese nem é o caso? Não estou querendo dizer que um caso é mais sério ou grave do que o outro, quero apenas esclarecer que nós, mulheres, para algumas pessoas somos SEMPRE vistas como objeto, independentemente de estarmos vestidas de maneira considerada vulgar ou de estarmos nos colocando a disposição para um cargo político. Botou a cara na rua, é objeto, está a disposição.

Como toda mulher que se apresenta como objeto (ou seja, como toda mulher que se apresenta como mulher), mereço a “lição” do constrangimento. Ou seja, desconhecidos me adicionando via facebook e me fazendo propostas com uma frequência nunca antes vista. Simplesmente porque não correspondo ao que os homens acham que deve ser o comportamento adequado para mulheres. A sociedade nos ensina diariamente que temos que nos vestir e nos comportar de determinadas maneiras para sermos respeitadas.

Isso, meus amigos, faz par d que chamamos de cultura do estupro. E cultura do estupro é exatamente essa postura de legitimar agressão de conteúdo sexual a mulheres que não se vestem ou se comportam de uma forma predeterminada. Cultura do estupro é uma série de comportamentos, macro e micro, que legitimam o assédio até que mulheres nos enquadremos ao que nos é determinado.Ela generaliza mulheres e as trata como subordinadas à vontade e julgamento dos homens. É essa cultura que deve ser combatida e superada para que haja efetivamente igualdade entre homens e mulheres.

Lugar de mulher é onde ela quiser. Isso se chama liberdade. E não julgar a mulher por conta das suas escolhas ou aparência se chama respeito.

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