A discriminação política às mulheres

Os historiadores chamam a antiga Atenas de berço da democracia, porque foi o primeiro Estado a estabelecer um sistema que permitiu a todos os cidadãos o direito de voto. Mas apenas 6 por cento da população era constituída de cidadãos. As mulheres e os escravos não podiam ser cidadãos e a lei mantinha as mulheres em estado de quase escravidão. Ensinaram-nos que as revoluções políticas dos séculos recentes aperfeiçoaram a democracia, que hoje um maior número de pessoas tem voz ativa no governo do que no passado. Pode ser que seja verdade, embora a maior parte dos sistemas “democráticos” contemporâneos mascarem o fato de que o poder do Estado é detido por pessoas anônimas, dirigentes de empresas multinacionais e de instituições importantes. De qualquer modo, o governo “democrático”, supostamente exercido “pelo povo”, os cidadãos de um país, até este século nunca incluiu as mulheres.

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As discussões sobre mulheres e poder político muitas vezes confundem duas situações muito diferentes: uma mulher extraordinária ascendendo ao poder como um indivíduo num governo predominantemente masculino e poder político mantido por mulheres como uma casta, que seriam mulheres em geral. Desde a formação dos estados, não se permitiu às mulheres ter voz ativa, mas elas puderam governar em muitos sistemas, especialmente as monarquias. As primeiras nações foram governadas por um único homem, apoiado por sua clã, que se apropriava da produção e, às vezes, da terra dos que eram dominados. Mas os homens em clãs (famílias) estão cercados de mulheres – mães, esposas, irmãs, concubinas e escravas. Dentro das famílias, as mulheres são importantes, detêm poder pessoal (em contraposição ao poder formal) e muitas vezes assumem o governo. A maior parte manteve o poder como eminência parda, incluenciando o governante homem ou como regente no lugar de um rei menor de idade, mas muitas governaram diretamente, em plena autoridade, desde os primeiros estados sumérios e japoneses, até as monarquias da Europa medieval. Mas a maioria governava como um homem entre homens. As mulheres de elite podem ter poder político sem que haja qualquer mudança na situação da mulher como uma casta. Elas não falam em nome das mulheres.

Isso se dá porque, onde conseguem deter o poder, as governantes são mulheres apenas incidentalmente consideradas extraordinárias, capazes de superar as “deficiências do sexo”. No entando, estão sujeitas a fortes ataques, por causa do seu sexo (os chineses culpavam as concubinas dos imperadores pelas quedas de dinastias). Parece irônico que uma mulher, Indira Gandhi, tenha governado um país que, mais do que qualquer outro, mata suas mulheres. O fato de que Indira Gandhi, Golda Meir e Margaret Thatcher terem governado não significa que seus países devotem menos desprezo pelas mulheres do que os outros. Hoje, as mulheres geralmente chegam ao poder em países com tradições impostas pela elite dominante. Os homens da elite podem permitir que as mulheres de sua própria classe governem, se elas têm potencial para unificar o país, baseando-se na sua maleabilidade ao controle masculino (como os homens do Partido do Congresso Indiano erradamente pensaram de Indira Gandhi e o Partido Trabalhista de Israel achou de Golda Meir). Mesmo que essas mulheres não tenham se submetido ao controle masculino, os homens geralmente podem contar com elas para defender os interesses de classe. Não tendo esposas, as mulheres precisam de servidores mais do que os homens. E sabem que governam pela tolerância dos homens.

Tanto nas instituições governamentais quanto nas econômicas, onde se supõe que o mérito substitua o sangue como norma, o sistema se torna mais impessoal e mais dominado pelos homens. As mulheres têm um acesso mínimo ao poder nos sistemas supostamente baseados no mérito, onde as funções são conseguidas, não herdadas. Isto não ocorre, como afirmam os homens, porque elas sejam incompetentes, mas porque os caminhos do sucesso estão fechados para elas. Nos sistemas controlados por feudos masculinos – oligarquias militares e falsas democracias – a posição social é conseguida pelo serviço militar (que exclui as mulheres), pela experiência profissional ou política (das quais as mulheres são amplamente afastadas). Quando os homens instruídos começaram a ter voz ativa na Europa, as mulheres foram proibidas de frequentar as universidades e poucas tinham a mais rudimentar educação. Simplesmente por essa única exclusão, os homens mantiveram as mulheres fora de todas as profissões, exceto o ofício de parteira. (Mas logo eles barraram também as parteiras – ou as queimaram.)

Hoje, na maioria dos países industrializados, as mulheres se formam e conseguem trabalhar em diversas (mas não em todas) áreas. Mas os superiores hierárquicos masculinos relutam em promovê-las e raramente as colocam em condições de fazer carreira. Nos países não-industrializados, ou “em desenvolvimento”, as mulheres ocupam cerca de 6 por cento dos postos governamentais.

A Noruega é um dos países mais feministas do mundo. Pelo menos em princípio, os homens eas mulheres gozam dos mesmos direitos. Mas os especialistas, executivos e políticos arrolados na pesquisa declaram que uma ds razões pelas quais as mulheres estavam ganhando proeminência na vida pública era que os homens estavam deixando. Como os homens americanos que chefiavam as igrejas protestantes na Nova Inglaterra, quando a Igreja e o Estado estavam unificados, mas que desertaram em grande número (deixando a religião para as mulheres) assim que o capitalismo abriu caminho para um maior poder, os noruegueses estão trocando o restrito campo da política da Noruega pelas empresas multinacionais, mais rendosas e poderosas.

Mais ainda, as poucas mulheres que exercem funções na área pública estão sujeitas a críticas raramente feitas a homens – embora o primeiro prefeito negro da cidade de Nova York, David Dinkins, tenha sido criticado por seus hábitos e maneira de vestir, nunca foi por sua sexualidade. Mas quando Margaret Thatcher era a primeira-ministra da Grã-Bretanha, os jornalistas frequentemente duvidavam da sua sexualidade, da “virilidade” do marido (entenda-se domínio sobre ela) e criticavam sua aparência. Ao mesmo tempo que as críticas às políticas de Margareth Thatcher eram legítimas, os ataques pessoais agiam fortemente no sentido de recordar às chefes femininas de que elas estavam sob a vigilância constante dos homens, que solapariam qualquer tentativa de alterar a política governamental que se orientasse para as mulheres. Duvida-se que uma mulher fortemente feminista possa receber cargos políticos de importância em qualquer nação. Mesmo se Golda Meir, Indira Gandhi, Benazir Bhutto e Margaret Thatcher tivessem tido a inclinação de amenizar a sorte das mulheres, elas não teriam ousado. Com poucas exceções, apenas os homens se atrevem a eliminar as leis que restringem as mulheres.

(Trecho do livro A Guerra Contra as Mulheres, de Marilyn French)

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