Cadê os homens no feminismo?

Não sei. Não sei e honestamente, não quero saber.

Esse é um posicionamento meu e não um posicionamento do feminismo. Até porque não existe um feminismo único, existem feminismoS (etc etc etc não vou desenvolver esse ponto agora).

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Passei a semana inteira – sim, acredite, A SEMANA INTEIRA numa discussão sem fim de “e os homens?’ pra lá e “e os homens” pra cá. Posso dizer que eu pedi por isso, já que a postagem original no saite feicis que incendiou a discussão justamente falava sobre como o machismo também oprime homens. O post no Nico Puig (Vamp, saudades) foi compartilhado por mim e trazia uma lista de coisas que também aprisionam os homens dentro da nossa linda sociedade patriarcal.

MANIFESTO HOMENS LIBERTEM-SE!
– Quero o fim da obrigatoriedade ao Serviço Militar.
– Posso broxar. O tamanho do meu pau também não importa.
– Posso falir. Quero ser amado por quem eu sou e não pelo que eu tenho.
– Posso ser frágil, sentir medo, pedir socorro, chorar e gritar quando a situação for difícil.
– Posso me cuidar, fazer o que eu quiser com a minha aparência e minha postura, cuidar da minha saúde, do meu bem estar e fazer exame de próstata.
– Posso ser sensível e expressar minha sensibilidade como quiser.
– Posso ser cabeleireiro, decorador, artista, ator, bailarino; posso me maravilhar diante da beleza de uma flor ou do voo dos pássaros.
– Posso recusar me embebedar e me drogar.
– Posso recusar brigar, ser violento, fazer parte de gangues ou de qualquer grupo segregador.
– Posso não gostar de futebol ou de qualquer outro esporte.
– Posso manifestar carinho e dizer que amo meu amigo. Quero viver em uma sociedade em que homens se amem sem que isso seja um tabu.
– Posso ser levado a sério sem ter que usar uma gravata; posso usar saia se eu me sentir mais confortável.
– Posso trocar fraldas, dar a mamadeira e ficar em casa cuidando das crianças.
– Posso deixar meu filho se vestir e se expressar ludicamente como quiser e farei tudo para incentivá-lo a demonstrar seus sentimentos, permitindo que ele chore quando sentir vontade.
– Posso tratar minha filha com o mesmo grau de respeito, liberdade e incentivo com que apoio meu filho.
– Posso admirar uma mulher que eu ache bela com respeito, sem gritaria na rua e me aproximar dela com gentileza, sem forçá-la a nada.
– Eu sei que uma mulher está de saia – ou qualquer outra roupa – porque ela quer e não porque está me convidando para nada.
– Eu sei que uma mulher que transa com quem quiser ou transa no primeiro encontro não é uma vadia, bem como o homem que o faz não é um garanhão; são só pessoas que sentiram desejo.
– Eu nunca comi uma mulher; todas as vezes nós nos comemos.
– Eu não tenho medo de que tanto homens como mulheres tenham poder e ajo de modo que nenhum poder anule o outro.
– Eu sei que o feminismo é uma luta pela igualdade entre todos os indivíduos.
– Eu nunca vou bater numa mulher, não aceito que nenhuma mulher me bata e me posiciono para que nenhum homem ou mulher ache que tem o direito de fazer isso.
– Eu vou me libertar, não para oprimir mais as mulheres, mas para que todos possamos ser livres juntos.
– Eu fui ensinado pela sociedade a ser machista e preciso de ajuda para enxergar caso eu esteja oprimindo alguém com as minhas atitudes.
– Eu não quero mais ouvir a frase “seja homem!”, como se houvesse um modelo fechado de homem a ser seguido. Não sou um rótulo qualquer.
– Quero poder ser eu mesmo, masculino, feminino, louco, são, frágil, forte, tudo e nada disso. E me amarem e aceitarem, não por quem acham que eu deva ser, mas por quem eu sou. E por tudo isso, não sou mais ou menos homem.
– Quero ser mais que um homem, quero ser humano!
– O machismo também me oprime e quero ser um homem livre!

Então. Claro que esse post é problemático. Mas mais problemáticas foras as reações a ele.

Primeiro meu opositor argumentou que alguns dos itens da lista nem são coisas de homem de verdade. E eu sempre fico bastante intrigada com esse lance de “homem de verdade” e “homem de mentira”. Porque pra mim todo mundo que existe é “de verdade”. E há que se parar de acreditar que o homem agressor é aquele monstro escondido atrás de uma moita esperando uma mulher passar. Os homens que agridem e oprimem são bem reais, bem de verdade mesmo, e estão ao nosso redor, em nossas casas, em nossos ambientes de trabalho. Então, amiguinho, se você não faz as merdas que outros homens fazem, tapinha nas costas pra você. Mas saiba que esses homens são tão reais e de verdade quanto você, e sabe lá se em algum momento em alguma circunstância você também se comporte como um…

Só para depois dizer que homens se comportam desse jeito por culpa das… MULHERES. Sério, esse rolê de culpabilizar as mulheres pela agressão e opressão é algo que me cansa muito, mas muito mesmo. Os mesmos argumentos velhos de sempre: temos TPM, somos loucas. Um gaslighting sem fim de que somos as histéricas. Daí a gente manda o link pro post do PdH explicando o que significa gaslaitear porque caímos na burrice de pensar que se for homem falando com homem o argumento vai ganhar mais credibilidade, só que não.

O erro já está aí, né. O sintoma já é esse. A gente, mulheres, falando nunca vamos ter a mesma atenção e as opiniões tão respeitadas como seriam se fôssemos homens. Porque sempre nos são atribuídos aqueles outros fatores complicadores: tipo nossos hormônios, que nos deixam descontroladas e histéricas. E aí pra sobreviver na selva a gente acaba dispondo das armas que temos: pedindo reforço pra homem. Me ajuda a fazer esse outro homem entender o que eu estou falando; Não quero mais fazer isso, sabe. Estou cansada de fazer isso.

Mas antes de me retirar da discussão eu ainda tive que ler: talvez o machismo seja regra geral porque as mulheres se folgam, se assim não o for?

Daí eu concluo que não adianta, sabe. Algumas coisas não adianta discutir com algumas pessoas porque essas pessoas não tem a mínnima base para compreender absolutamente nada. Nada. Porque, penso, pra manjar feminismo tem que manjar opressão. E não opressão dessas do senso comum, opressão polícia batendo em preto pobre. Manjar de O-P-R-E-S-S-Ã-O, e como funcionam os mecanismos de opressão e violência.

Acho que é muito fácil para quem está numa posição de privilégio – especialmente homens cis heteros brancos classe média etc etc etc – vir exigir que nós expliquemos exatamente cada ponto do que acreditamos e ainda termos que dar nó em pingo d’água para convencer alguém do ponto. Acho nobre da parte das mulheres que se dispõem a esse papel, quem tem a paciência para isso, mas já decidi ha muito tempo que não é isso que eu quero fazer da vida. E também acho que o feminismo não precisa da ajuda dos homens, apesar de o discurso bonitinho sempre dizer que o ideal é andarmos todos de mãos dadas rumo ao mundo perfeito. Acho que se os homens querem mesmo saber como ajudar, meu melhor conselho é just google it. Vão ler a respeito. Vão procurar informações. O mar da internet está cheio de informações valiosas – um monte de merda também, mas vamos ter que confiar no discernimento de cada um.

Isso me remeteu à milhares de experiências que tive com homens (repito: os homens privilegiados) dentro do movimento. Existe, de modo geral, uma resistência muito grande por parte deles em aceitar que não serão protagonistas. Então vemos homens entrando em coletivos e listas de discussão e grupos cheio de ideias e teorias, pautando quais lutas são válidas e quais são devaneios nossos, quando temos razão e quando estamos sendo histéricas, e então quando falamos: hey! a luta é nossa, ajude mas não protagonize! eles simplesmente vão embora. Apenas não aceitam a posição de bastidores que as mulheres aceitamos durante TODA A HISTÓRIA.

Eu escolhi, em algum ponto dessa jornada, não me preocupar mais muito com o que os homens estão fazendo ou pensando ou querendo com o feminismo. Acho super nobre, válida e necessária toda a discussão em torno de masculinidades e a reflexão sobre o papel masculino nos dias atuais, mas não é a causa que eu quero abraçar. Decidi que meu tempo limitado vai ser usado para acolher e empoderar mulheres mesmo. Isso é para mim mais urgente, mais necessário e mais lindo. Então não, não me interessa saber se o pobre homem coitadinho assedia mulheres na rua porque foi educado assim, porque essa é a forma de ele se identificar como macho e ser respeitado pelos seus pares. Quero, isso sim, estar ao lado das mulheres explicando para elas porque não podemos aceitar caladas o assédio e porque, por exemplo, não precisamos nos prender a um relacionamento abusivo apenas porque a sociedade nos diz que aos 30 anos temos que estar casadas e com filhos.

Esse foi mais um post-desabafo trazido a você. Beijas.

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