O meu primeiro beijo

O meu primeiro beijo não foi aos 11 anos com o menino que eu escolhi, um escoteiro do meu grupo, naquela tarde cheia de frio na barriga. O meu primeiro beijo não é aquela história que meus amigos escutaram de mim, não é a história que eu queria que tivesse sido a minha, aquela do primeiro amorzinho. O meu primeiro beijo não foi aquele que deixou meu pai absolutamente embasbacado ao saber – afinal, eu mal era uma pré-adolescente. O meu primeiro beijo não foi aquele que foi seguido de um passeio envergonhado de mãos dadas na rua XV, cheia de orgulho e me sentindo super adulta por já ter um mini-relacionamento. Esse foi meu segundo beijo.

Porque o meu primeiro beijo foi roubado.

E não, não existe nada de romântico em ter tido o meu primeiro beijo roubado.

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Roubaram-me, aos 7 ou 8 anos, a possibilidade de ter a história de um primeiro beijo que eu quis, com o menino que eu escolhi. Um homem 30 anos mais velho, um criminoso, alegadamente bêbado, me roubou, dentro da Fundação Cultural de Blumenau, o primeiro beijo, forçando sua língua dentro da minha boca de criança que nem sabia exatamente o que significava aquilo tudo que estava acontecendo. O meu primeiro beijo todos os presentes disseram não ter visto. O meu primeiro beijo foi seguido de muitas, muitas lágrimas escondida atrás de um piano na sala ao lado, sabendo que o que eu tinha sofrido fora uma violência, porém não sabendo o que fazer com aquela informação.

A história desse primeiro beijo, aquele que eu escondi a sete chaves no fundo da memória, foi revivido quando vi que esse homem que hoje deve ter seus sessenta anos, me segue no facebook. Ter visto a foto dele na minha lista de seguidores foi um golpe cruel que me fez, por um bom tempo, retornar para atrás daquele piano e chorar como se tudo tivese acabado de acontecer.

É incrível. Eu sei que esse senhor já não pode mais me fazer mal algum. Sei que ele é velho e doente, e que eu sou jovem e forte e poderia muito bem quebrar a cara dele. Mas esse tipo de violência, que quase toda mulher sofre de algum jeito em algum momento da vida, nos deixa completamente impotentes e catatônicas. Ao ponto de eu paralisar quando o vejo pessoalmente (nas poucas vezes nesses 24 anos em que o vi pessoalmente), ao ponto de eu atravesar a rua, ao ponto de meus olhos encherem de lágrimas quando o vejo pessoal ou virtualmente. Não existe a ameaça física, não mais, mas existe a ameaça de ele tentar falar comigo (como já tentou, algumas vezes) e me fazer, de novo e de novo, lembrar daquela noite horrível em que ele roubou a minha história.

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2 comentários sobre “O meu primeiro beijo

  1. NOJO. Que nojo! A única coisa que consegui dizer sobre esse cara.
    Parabéns pela tua postura!
    “Sei que ele é velho e doente”… aqui se faz, aqui se paga. A vida vai fazer esse cara pagar pelas merdas que fez/faz naturalmente. Eu só espero que ninguém mais tenha sofrido nas mãos desse nojento.

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