Gênero e envelhecimento

O envelhecimento com esse significado de declínio é uma construção cultural (como tantas outras) que começou a se fortalecer especialmente a partir do século XIX – mais ou menos ao mesmo tempo em que o conceito de infância também começou a ser lapidado. E adquiriu uma força persuasiva ainda maior sobre as mulheres, que precisam estar sempre magras e sempre jovens, ou seja, não podem nunca, NUNCA, envelhecer.

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É o que vemos na mídia e em todo o meio que nos circunda. Uma mensagem muitas vezes explícita, mas tambem muitas vezes bastante sutil. Mas sabe-se – e nego-me a explicar – o quanto essas linguagens são carregadas de discursos ideológicos e produzem efeitos na sociedade.

De modo geral, o peso da idade é muito mais problemático para mulheres do que para homens. A maioria dos adjetivos pejorativos são também usados no feminino: coroa, velha, feia. O homem mais velho, por conta dos charmosos cabelos grisalhos também é chamado de coroa, mas raramente de maneira pejorativa. São vários os sistemas de avaliação que usamos para “catalogar” nossos amigos humanos, mas certamente o que é usado amplamente com as mulheres em todas as idades é a apreciação estética. Mulher não faz, mulher é.

Quantas vezes vemos chamadas em portais de entretenimento chamando a atenção para “Fulana, linda aos 50 anos…”

O que exatamente isso quer dizer? Quer dizer: (1) nenhuma mulher é linda aos 50 anos, por isso Fulana é uma exceção e merece destaque. (2) Fulana não é simplesmente linda, ela é linda dentre o grupo de mulheres de 50 anos.

Somos, mulheres, rodeadas por discursos coercitivos e normativos sobre nosso corpo – seja linda, seja magra, e o mais importante de tudo, nunca envelheça. Só temos valor enquanto belas e jovens, e somos validadas pela idade que aparentamos ter. E assim nos tornamos essas pessoas obcecadas pela nossa aparência física, vivemos em dieta, nos desdobramos em várias para dar conta de casa, trabalho e a rotina exaustiva de beleza, com cremes, massagens, academia, géis redutores. Somos bombardeadas por mensagens e conselhos sobre como sermos mais atraentes, desde que usemos produtos anti-idade, Botox, cirurgia plástica, fotos de antes e depois.

Sendo o Brasil o segundo país em número de cirurgias plásticas, penso que esa pressão é um pouco mais forte para nós brasileiras. A cirurgia plástica de tornou uma prática normalizada – o corpo disciplinado tem avaliação positiva, traz a imagem de pessoa não apenas resistente ao envelhecimento, mas forte moral e mentalmente.

Uma vez eu li em algum lugar (e preciso encontrar isso de novo) que essa pressão toda pela vaidade feminina também é uma forma de manter as mulheres ocupadas com outras coisas que não o auto-empoderamento e a independência e autonomia. Enquanto elas estiverem trancadas por horas em salões de beleza e fazendo tratamentos estéticos, não estão lendo e se informando e galgando os degraus da vida corporativa. Para mim isso faz todo o sentido do mundo.

Vale a pena concluir esse post citando Caldas-Coulthard (ese post todo é um resumo de um artigo dela, aliás):

Mais de 35 anos após os protestos dos soutiens, é claro que muitos dos desafios dos movimentos feministas tornaram-se realidade e produziram novas “normas” – mas também, como contrapartida, a manipulação de corpos se tornou uma norma através da naturalização de “estilos de vida” discursivos. Assim, expostas a discursos conflitantes, mulheres se tornam instáveis e problemáticas: biologicamente estão ficando velhas, mas desesperadamente lutam para se manter jovens, como, possivelmente, as jovens mulheres que atraem seus parceiros também envelhecidos.

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