Bold Native, o filme + terrorismo

O que é liberdade?
Nascemos livres ou a adquirimos?
E negando liberdade aos calados, aqueles que não têm voz, você pode se declarar livre?
Ou você está enjaulado por sua própria falta de compaixão?

Passamos nossas vidas dizendo não.
Não eu. Não é a minha luta.
Não é meu problema. Não esta noite.

Qual a diferença entre você e eu?

Há alguns anos me tornei alguém que diz sim. Eu. Minha luta. Meu problema. Esta noite.


Esse final de semana assisti ao filme Bold Native, que conta a história de um ativista pelos direitos animais que tem como objetivo de vida libertar animais usando técnicas de ação direta. O filme é simplesmente fantástico, consegue até ser bem engraçado em muitos momentos. E também, claro, me fez chorar trocentas vezes.

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Uma das perguntas mais frequentes que eu respondo, sendo vegana, além de De onde você tira a proteína?, é Por que não comer ovos se você tiver a galinha solta em casa ou beber leite se a vaquinha estiver feliz no seu pasto? De fato, muitos alunos volta e meia me oferecem (amo alunos que me dão comida) ovos “orgânicos” (seja lá o que isso significa). E sei que eles tem a melhor intenção do mundo. Mas eles não entendem a minha questão vegana como ética tout-court.

Existem, sim, pessoas que se tornam “veganas” por N motivos. Por saúde, por modinha, por questões ambientais. Eu particularmente rejeito a aplicação tão ampla do termo veganismo, e acho que as pessoas “veganas” que assim se declaram por qualquer motivo que não seja ético deveriam simplesmente se denominarem vegetarianos, ou vegetarianos estritos. Mas, oh well, essas pessoas existem, e elas meio que fodem todo o rolê do conceito original de veganismo e eu agradeço a elas #sqn por eu toda vez ter que explicar tim-tim por tim-tim que…

O veganismo é uma postura ética baseda na compaixão por todos os seres vivos. Significa viver sem explorar os animais. Buscamos o fim do uso de animais pelo homem para alimentação, apropriação, trabalho, caça, vivissecção, confinamento etc etc etc. Por conta dessa ideia de que não existe uma superioridade hierárquica humana que nos permita explorar animais de forma alguma, boicotamos qualquer produto de origem animal (alimentar ou não), além de produtos que tenham sido testados em animais ou que incluam qualquer forma possível de exploração animal nos seus ingredientes ou processos de manufactura. Ou seja, não utilizam produtos de beleza, de higiene pessoal, de limpeza, remédios, etc. que não estejam isentos de crueldade.

Veganismo não é dieta. É um conjunto de práticas focadas nos Direitos Animais que, por consequência, adota uma alimentação estritamente vegetariana. Ou seja, todo vegano é vegetariano estrito, mas nem todo vegetariano estrito é vegano.

Enfim, né?

Voltemos ao filme. O Animal Liberation Front, organização a qual o mocinho é filiado, é um grupo de ativistas dos direitos animais que usa a ação direta para libertá-los, incluindo destruição de instalações e sabotagens, como modo de protesto e boicote econômico à experimentação em animais, o uso de animais como roupa, alimento ou outras indústrias baseadas na exploração de animais. É um modelo de luta horizontal , sem líderes, com células ativas em mais ou menos 35 países. Por células, leia-se: operam clandestinamente e independentemente uma das outras, podendo consistir em uma só pessoa. Ou seja: não pode ser destruído, não pode ser infiltrado, não pode ser parado. Isso é bom. 😀

Quando o mocinho chega no apartamento de um publicitário que recém produziu uma campanha para a Happy Chicken (não sei o que é isso, mas imagino que seja uma rede de fast-food americana, o publicitário leva um tempo até perceber que está sendo “atacado” por um ativista dos direitos dos animais, no que o Charlie responde:

Somos todos dos Direitos dos Animais. Só depende de qual é a sua definição de animal. Por exemplo, acho que você tem o direito de se casar, ao contrário dos seus pais. (O publicitário é gay não-assumido.)

Num livro que comprei no Fazendo Gênero ano passado (Pensar/Escrever o Animal), indicação da professora Patrícia Lessa, da UEM, li muito sobre essa linha que separa e opõe o ser humano ao animal, e o quanto isso também é um construto cultural. E sobre como foi que determinamos essa alteridade que fez com que o animal fosse algo TÃO diferente? Deve ter sido em alguma época próxima de quando construímos o conceito de alteridade da mulher também…

O filme também traz a tona um dilema que eu tenho muito no meu dia-a-dia que é a questão do bem estarismo vs. abolicionismo. Eu já tinha tentado escrever um post sobre o assunto AQUI, post esse que não chegou a conclusão alguma. Mas veja que esses inquietamentos estão na minha cabeça há muito tempo. Pelo menos depois de pensar muito sobre isso, acabei decidindo definitivamente abandonar o ovolactovegetarianismo em prol do veganismo. Vamos ver o que vai acontecer depois do texto de hoje.

Bem estaristas basicamente lidam com a minimização do sofrimento animal. Abolicionismo, claro, quer o fim imediato da exploração animal. Os filósofos bem estaristas levantam que não há nada inerentemente errado com o uso de animais para comida, como entretenimento e em pesquisa, embora os seres humanos não obstante tenham a obrigação de assegurar que animais não sofram desnecessariamente. Mas volta e meia encontramos veganos – eu inclusa em alguns momentos – que apesar de almejarem o abolicionismo, vêem o bem estarismo como uma solução mais possível, concreta e imediata. Os abolicionistas mais radicais refutam o posicionamento bem estarista alegando que ele na verdade só implica um uso mais eficiente e lucrativo da exploração animal.

Quando no filme uma militante pelos direitos animais está comemorando algumas conquistas junto a empresas de fast-food (por exemplo, gaiolas algumas polegadas maiores para as galinas confinadas), rola uma discussão com um amigo onde fala (e eu não consigo discordar, gente, dscp):

Ela: Preferiria muito mais que, se as pessoas vão comer animais, que a experiência desses animais fosse a de menor sofrimento possível.

Ele (defendendo a ação direta): Em algum ponto as pessoas vão começar a perguntar por que estamos dispostos a arriscar tudo por esses animais. O que você realmente realizou, exceto fazer as pessoas sentirem-se melhores por prenderem e matarem animais por prazer e lucro? Enquanto forem propriedade vão ser explorados.

Ela: Ele está certo de estar insatisfeito. Acho que é um pouco egoísta querer tudo ou nada. Os animais não se beneficiam disso. Eles prefeririam viver em condições um pouco melhores, e prefeririam ser mortos de forma ligeiramente mais humana. E se isso é tudo que podemos conseguir agora, eu acho que vale a pena.

Ele: E acha que alguém vai ver dessa forma? Ou acha que vão comprar o cheesebacon duplo com uma sensação de paz, sabendo que os animais são bem tratados? Alguém precisa falar e não só obter essas migalhas, sabe, melhorias na legislação. A única mudança que foi feita foi quando alguém falou, quando alguém disse: “Não é certo ter escravos.” Quando você vai pedir pelo que você quer?

Ela: Não posso entrar em pânico, porque precisam de ajuda agora! Eles precisam de ajuda agora.

Ele: Então faça algo agora.

Ela: Estou fazendo algo agora.

Ele: Não faça algo que irá melhorar as condições de vida daqui a cinco, dez anos. A maioria das pessoas acha que tem o direito de comer carne. Direito bíblico, e temos que falar com elas. Acho que a única escolha moral é tirar a escolha.

Ela: Mas não é possível.

Ele: Ouse sonhar, Jane.

Arrepiei.E arrepiei de novo e chorei de soluçar quando o Charlie confronta o pai dele, CEO de uma rede de fast-food que ganha milhões em cima da escravidão animal. Esse diálogo merece TANTO ser reproduzido aqui e em todas as minhas paredes…

Charlie: Certo, Bold Native não é uma pessoa, é uma ideia. Os animais não são propriedade, não são nossos para usarmos. Eles têm um fim em si mesmos. A liberdade deles é linda, e a escravidão deles é um horror. Você não pode cometer violência contra a propriedade, certo? Não é nisso que todo o seu sistema é baseado? Animais são propriedade, então matá-los não é violência. É processamento ou erradicação ou confinamento, qualquer coisa para não chamar do que realmente é. Bife não vaca. Bacon não porco. Entendeu? Ave, não frango… Todo o seu sistema é uma mentira, uma mentira nojenta e suja.

E o pai dele insiste para que ele se entregue, e volte para casa, que ele vai dar um jeito de que o filho não fique muito tempo preso e vai financiar campanhas bem estaristas e dar uma mesada gorda e etc. E aí o auge do filme, para mim:

Charlie: Eu vou com você… Se você matar esse cachorro.

Pai: Que diabo está acontecendo com você? Não vou matar esse cachorro.

C: Por que não? Achei que você queria salvar a vida dos animais. Eu salvei a vida deste cachorro anos atrás, então, suponho que agora ela pertença a mim, certo? Você não tem problema em comprar corpos de animais das pessoas que alegam ser donas deles. Não me diga que é fraco demais para matar um, você mesmo. O que é a vida de um cachorrinho comparado com a segurança do seu próprio filho?

P: Estou realmente perdendo a minha paciência aqui, Charlie.

C: Oh, me desculpe. Porra! Não quis esgotar a sua paciência. Se eu dissesse que iria com você se você comesse um bife, você sentaria depressa e comeria, certo? Se isso o faz se sentir melhor, você pode comer o cachorro depois de matá-lo.

P: Pare de ser criança, pode?

C: Vem, faça! Um corte rápido na garganta, um pouco de sangue e todos os seus problemas acabam. Mate-o! Mate-o! Mate-o!

P: Pare com isso!

C: Eles vivem sob sofrimento insuportável e solidão para você poder vender seus corpos um pouco mais barato, ganhar alguns centavos a mais do que o outro cara, seu malvado bastardo de merda. Sua paciência está se esgotando? Bem, a minha já se esgotou. Sou o sacana mais impaciente que você já conheceu. Você acha que a sua maldade fedorenta não tem impacto? Bilhões de animais por ano, que eles não ligam? Acredite em mim, eles ligam. Agora mate a porra do cachorro, seu hipócrita de merda. É nisso que todo o seu reino é baseado. Você vive sem amor, pai. Eu acredito na liberdade. Eu acredito que uma jaula é uma jaula e ninguém merece ser posto em uma. Eu adoraria ser deixado fora da minha, mas não estou disposta a sacrificar outro ser vivo em uma, a fim de conseguir isso. Então você vai ter que me perdoar por eu não reconhecer o direito de alguém mais fazer isso, só para uma bosta de um hambúrguer.

Eu fiquei boladona com o filme inteiro. E  deprê, claro. Porque né? Como dormir tranquila depois de um filme assim? Depois fui dar uma folheada no livro da Carol J. Adams, A Política Sexual da Carne e deprimi ainda mais. Só folheei mesmo, super não estou pronta pra encarar essas questões todas de uma vez e a impressão que eu tenho é a de que se eu entrar mesmo de cabeça desse rolê filosófico todo não vai me restar outra alternativa a não ser largar tudo e virar terrorista também.


Cada vegan salva pelo menos 90 vidas individuais a cada ano.

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Um comentário sobre “Bold Native, o filme + terrorismo

  1. Pingback: Bold Native – Coragem Nativa | Libertadores de Animais ou Terroristas? – VOZES EM LUTO

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