Sexo é construção cultural?

Nossa mania tão humana de categorizar e classificar e antonimizar

Os binarismos estão na base da estrutura sócio-cultural. Todo pensamento humano opera através de pares de oposição. As maneiras através das quais os povos categorizam animais, árvores, e assim por diante, são baseados em séries de antônimos. Classificamos binariamente para opôrmos certas coisas à outras e o resultado é a opressão e invisibilização das coisas classificadas como hierarquicamente inferiores.

A gente aprende, desde feminista-criancinha, e inclusive lendo Joan Scott, que gênero tem a ver com a designação das relações sociais entre os sexos. Que é a categoria social imposta sobre o corpo sexuado. Quando de repente escuta que o sexo TAMBÉM não é um dado biológico, e sim construção cultural. E pensa: wtf?!?!? Afinal, como negar que pênis e vaginas existem? Fomos ler e pesquisar, então.

O gênero…

O gênero (feminino/masculino) é algo que existe num viés social, e está à parte da nossa anatomia. Ele é uma construção que precede o corpo que nós temos. O gênero diz respeito aos signos que usamos, aos papéis que desempenhamos (e que somos forçados a desempenhar), às conclusões que a sociedade tirará sobre quem somos ou como devemos nos comportar. E isto nós podemos desempenhar independente das nossas anatomias (mesmo que isso signifique as mais variadas resistências e opressões.

E o sexo…

É claro que as nossas anatomias existem. É claro que pênis e vaginas existem, mas eles não existem neste vácuo ideológico que se supõe, como se fossem fatos da biologia – nada existe num vácuo, aliás. Esse binarismo pênis/vagina, é ele próprio uma construção social. Existe uma normatividade médica que entende o pênis e a vagina como morfologias “legítimas”, que precisam ter uma certa aparência pré-determinada.

Essa visão dominante de que há dois sexos estáveis e opostos, e que esses fatos baseiam a vida política, econômica e cultural dos homens e das mulheres (seus papéis no gênero), é bem mais recente do que a gente pensa. A diferença e a igualdade entre “homens” e “mulheres” estão por toda parte, mas quais diferenças importam e com que finalidade, é determinado fora dos limites da investigação empírica -> só houve interesse em buscar evidências de diferenças anatômicas e fisiológicas concretas entre o homem e a mulher quando essas diferenças se tornaram politicamente importantes. E quando tais diferenças foram encontradas, elas já eram, na própria forma de sua representação, profundamente marcadas pela política de poder do gênero.

Existe um dado biológico que diz que a maioria das pessoas nasce ou com um pênis, ou com uma vagina. Mas daí para falar que isso significa que estes genitais são determinantes do seu gênero é esquecer que a ligação entre a vagina e a mulher (e suas roupas, seu papel social, sua posição política, sua sexualidade, etc), e o pênis e o homem (e todas estas coisas também) são decorrentes desse dado biológico, é dizer muito mais do que a biologia oferece. A ciência não investiga simplesmente, ela própria define as diferenças, as normalidades. Tanto que pouco importa se a genitália da elefoa parece um pênis, ou se a lebre macho engravida, pois o sexo dos elefantes e das lebres importa pouco para nós.

A explicação entre essa conexão necessária que se faz entre um genital e um gênero é muito social e pouco biológica. Ela é política e histórica. Porque o dado biológico só é que existem estas anatomias. E a história trabalhou claramente para racionalizar e legitimar as distinções, não só de sexo, mas também de raça e classe com desvantagem para os destituídos de poder. Quem conecta a genitália ao gênero não é a biologia, porque um genital não traz em si essa carga toda. Quem conecta a genitália ao gênero é a ciência e o modo de fazer ciência.

O pênis só é o pênis porque assim o queremos, poderia ser o braço, a perna, ou mesmo a vulva, ou ambos, ou nenhum. Nós criamos a noção do sexo. E Vale mencionar que é sempre a sexualidade da mulher que está sendo constituída, a mulher é categoria vazia. Só a mulher parece ter “gênero”, pois a própria categoria é definida como o aspecto de relações sociais baseado na diferença entre os sexos, onde o padrão sempre foi o homem.

Eu ter uma vagina e meu companheiro ter um pênis são dados tão concretos quanto eu ter 1,67 e ele ter 1,74. Só que o nosso mundo não optou por categorizar pessoas por este dado anatômico da altura. Pênis e vagina, assim como a altura, sequer são opostos: essa formação anatômica é um continuum. Talvez a maior parte das pessoas tenham essa configuração definida o suficiente pra gente marcar essa diferença e categorizá-la, mas essa é uma construção cultural que poderia ter acontecido de outra maneira. Tem gente com pênis pequeno, tem gente com clitóris enormes. Vale a pena conferir a beleza da diversidade da nossa genitália no tumblr Large Labia Project.

Uma coisa é a diversidade, outra a construção de uma diferença como “estanque”. Mas porque a gente presta atenção em alguns aspectos em detrimento de outros na hora de categorizar um homem e uma mulher? O mundo poderia ser dividido entre pessoas de orelhas grandes ou pessoas de orelhas pequenas – como acontece em alguma sociedade que não consegui mais encontrar.

São os seres humanos que escolhem quais aspectos biológicos/anatômicos vão servir pra dividir as pessoas em grupos e classificações. Escolheu-se cor de pele, órgão reprodutores, mas podiam ser várias outras coisas. Os corpos diferem fisiologicamente de muitas maneiras, mas eles são completamente transformados pelas práticas sociais para se encaixarem em categorias de uma sociedade, sendo a forma mais difusa a de masculinofeminino, e homemmulher. E, de fato, há mais diversidade dentro das categorias de sexo e gênero do que entre elas.

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5 comentários sobre “Sexo é construção cultural?

  1. Estudos em torno do mundo animal são interessantes uma vez que os animais dificilmente podem ser influenciados pelas normas sociais e papéis de género humanos. Se a natureza criou [sic] os animais de modo a que os sexos sejam distintos por motivos biológicos, porque é que os homo sapiens seria uma excepção? Seguem-se alguns projectos de pesquisa com os animais interessantes.

    Um estudo usou um certo número de macacos a quem foram dados um certo número de brinquedos. Eles encontravam-se entre bonecas, camiões e brinquedos genericamente neutros como livros com pinturas.

    Os pesquisadores observaram como os machos passavam mais tempo a brincar com os brinquedos “masculinos” enquanto que as fêmeas passavam mais tempo que os machos a brincar com os brinquedos “femininos”.

    Ambos os sexos passaram o mesmo tempo em redor dos livros com imagens e em redor de outro brinquedos genericamente neutros.
    Outro projecto expôs os fetos fêmea dos macacos aos andrógenos (hormonas sexuais masculinos). Mais tarde, e nas suas brincadeiras, estas fêmeas exibiram um comportamento mais masculino que as demais fêmeas.

    Uma terceira pesquisa levada a cabo por um terceiro grupo de cientistas ofereceu paus como brinquedos aos macacos e observou como as fêmeas, de forma bem clara, brincavam com os paus como se os mesmos fossem bonecas, algo que os machos fizeram em escala muito menor.

    Num quarto projecto os pesquisadores deram dois tipos de brinquedos aos macacos – veículos com rodas e brinquedos de peluche. Os machos demonstraram um forte e persistente interesse nos veículos enquanto que as fêmeas não demonstraram qualquer tipo de interesse por nenhum dos brinquedos.20
    Um quinto estudo em torno dos macacos demonstrou como, em larga escala, os machos focaram-se nos carros enquanto que as fêmeas preferiram as bonecas.

    Fontes:

    Article ‘His Brain, Her Brain’, Scientific American, May 2005
    Handbook of social psychology, Volume 1, page 639, Susan T Fiske, Daniel T Gilbert, Gardner Lindzey
    Article ‘Young female chimpanzees appear to treat sticks as dolls’, 20 December 2010, PhysOrg.com
    Williams CL and Pleil KE. 2008. ‘Toy story: Why do monkey and human males prefer trucks? Comment on ‘Sex differences in rhesus monkey toy preferences parallel those of children’, Hassett, Siebert an Wallen
    Alexander G and Hines M. 2002. ‘Sex differences in response to children’s toys in nonhuman primates, Evolution and Human Behavior’
    – See more at: http://omarxismocultural.blogspot.com.br/2012/07/o-genero-como-construcao-social.html#sthash.d26o2Crt.dpuf

  2. Homo Sapiens é um animal.

    Estudos em torno do mundo animal são interessantes uma vez que os animais dificilmente podem ser influenciados pelas normas sociais e papéis de género humanos. Se a natureza criou [sic] os animais de modo a que os sexos sejam distintos por motivos biológicos, porque é que os homo sapiens seria uma excepção? Seguem-se alguns projectos de pesquisa com os animais interessantes.

    Um estudo usou um certo número de macacos a quem foram dados um certo número de brinquedos. Eles encontravam-se entre bonecas, camiões e brinquedos genericamente neutros como livros com pinturas.

    Os pesquisadores observaram como os machos passavam mais tempo a brincar com os brinquedos “masculinos” enquanto que as fêmeas passavam mais tempo que os machos a brincar com os brinquedos “femininos”.

    Ambos os sexos passaram o mesmo tempo em redor dos livros com imagens e em redor de outro brinquedos genericamente neutros.
    Outro projecto expôs os fetos fêmea dos macacos aos andrógenos (hormonas sexuais masculinos). Mais tarde, e nas suas brincadeiras, estas fêmeas exibiram um comportamento mais masculino que as demais fêmeas.
    Uma terceira pesquisa levada a cabo por um terceiro grupo de cientistas ofereceu paus como brinquedos aos macacos e observou como as fêmeas, de forma bem clara, brincavam com os paus como se os mesmos fossem bonecas, algo que os machos fizeram em escala muito menor.

    Num quarto projecto os pesquisadores deram dois tipos de brinquedos aos macacos – veículos com rodas e brinquedos de peluche. Os machos demonstraram um forte e persistente interesse nos veículos enquanto que as fêmeas não demonstraram qualquer tipo de interesse por nenhum dos brinquedos.20
    Um quinto estudo em torno dos macacos demonstrou como, em larga escala, os machos focaram-se nos carros enquanto que as fêmeas preferiram as bonecas.

    Article ‘His Brain, Her Brain’, Scientific American, May 2005
    Handbook of social psychology, Volume 1, page 639, Susan T Fiske, Daniel T Gilbert, Gardner Lindzey
    Article ‘Young female chimpanzees appear to treat sticks as dolls’, 20 December 2010, PhysOrg.com
    Williams CL and Pleil KE. 2008. ‘Toy story: Why do monkey and human males prefer trucks? Comment on ‘Sex differences in rhesus monkey toy preferences parallel those of children’, Hassett, Siebert an Wallen
    Alexander G and Hines M. 2002. ‘Sex differences in response to children’s toys in nonhuman primates, Evolution and Human Behavior’
    – See more at: http://omarxismocultural.blogspot.com.br/2012/07/o-genero-como-construcao-social.html#sthash.d26o2Crt.dpuf

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