Meu pronunciamento na Câmara Mirim.

Eu não canso nunca de apontar os problemas de Blumenau, mas tem algo que eu não posso deixar de elogiar: a Câmara de Vereadores Mirim. A ideia foi colocada em prática pelo ex-vereador Deusdith de Souza em 1999 e desde então vem ensinando um pouco de política e cidadania às crianças de 6o a 9o anos do Ensino Fundamental.

No dia 04 de abril desse ano eu fui convidada a dar um pronunciamento em uma das sessões ordinárias, e fiquei felicíssima em ver o quanto o trabalho é levado a sério e como os vereadores mirins são comprometidos com o seu cargo e suas funções.

O vídeo do meu pronunciamento pode ser assistido aqui, a partir dos 6:16.

Confesso que há muito tempo não ficava tão nervosa. Mesmo já tendo ido na Globo, mesmo já tendo dado tantas entrevistas na rádio e na televisão, esse momento foi particularmente especial. Senti a responsabilidade de levar para muitas dessas crianças, pela primeira vez, o que significa feminismo e quais algumas das lutas dos feminismos que defendo. Então era como se qualquer erro que eu cometesse fosse levar essas crianças para longe das coisas em que acredito. Não sei se dá pra ver no vídeo o quanto gaguejei e como me perdi no texto, mas acredite: eu estava muito, mas muito nervosa mesmo.

E o texto é o que segue:

Eu vou falar hoje sobre o que eu achava, quando jovem, sobre feminismo. Comecei a pensar no assunto num certo Dia Internacional da Mulher. Sempre achei essa data insignificante, mas naquele ano especificamente (2002 ou 2003), ela me irritou profundamente. Pensei: mas que diabos estão comemorando?

Fiz até um post furioso no meu blog da época. Agradeci as mulheres que queimaram soutiens e morreram queimadas naquela fábrica, mas isso era passado. O que é que EU, hoje, tenho a ver com isso? Ganho rosas no semáforo simplesmente por ter nascido mulher? Não considerava ter nascido mulher como um mérito – já que nem escolha minha foi!

O fato é que eu fui criada em uma família definitivamente fora do padrão. Eu não soube, durante a infância e adolescência, o que era preconceito, o que era racismo, o que era sexismo. Lá em casa todo mundo sempre foi igual, principalmente no relacionamento entre meu pai e minha mãe.

Nunca houve um que mandasse mais, um que servisse o outro, um que fosse submisso aos caprichos do outro… Até quando a briga ficava mais feia, nunca um se calou por respeito ou medo do outro. Pra mim, feminismo era tão antiquado que não fazia sentido nenhum ser feminista em pleno século XXI!!! Eu achava que todas as conquistas já tinham sido feitas, que não havia mais nada pelo qual lutar, e que na verdade as feministas não passavam de mulheres briguentas e frustradas. É interessante como é difícil para nós vermos as realidades que estão fora do nosso mundinho.

E eu não vi mesmo, essa realidade. Eu não vi até EU me sentir vítima das circunstâncias, vítima de um homem, vítima do posicionamento da sociedade e da atitude dessa sociedade com relação ao papel que se espera da mulher.

Agora, quando chega o Dia Internacional da Mulher, eu não fico mais vociferando sobre a inutilidade do feminismo. Muito pelo contrário. Eu geralmente fico triste. E até choro. Choro em quase todas as homenagens bobas que vejo sendo feitas. Choro porque sinto que ainda falta TANTO para que eu seja vista com o mesmo respeito e consideração que seria vista se fosse homem. Choro quando me dou conta de que a primeira coisa que esperam de mim é que eu seja bonita, muito antes de esperarem que eu seja inteligente, ou uma boa professora, ou qualquer outra coisa. Choro quando lembro de todos os comentários que escutei NA VIDA, justificando que qualquer atitude “estranha” de qualquer mulher era por causa da sua feiúra, ou da sua solteirice, ou da gordura, ou da sua TPM. Nenhuma queixa feminina é válida para a maioria das pessoas: sempre é consequência de alguma falta ou frustração.

Durante muito tempo da minha vida adulta, eu analisei um certo acontecimento trágico do meu passado não como uma “fatalidade”, algo que aconteceu por puro azar, mas sim como um resultado de toda uma estrutura focada no poder-fazer do homem. Resolvi analisar meu relacionamento não como uma relação de serventia obrigatória, mas sim como um resultado da minha vontade de me encaixar e ser uma mulher completa (mulher completa é aquela com marido e filhos, não é?), de ser uma dona de casa perfeita. E essa vontade que eu sentia de ser aquilo que muitos acreditam ser uma “mulher perfeita” também é produto de tudo isso que nos cerca.

É realmente muito ilusório pensar que está tudo bem com o mundo, que mulheres estão em pé de igualdade com o homem, quando na verdade há muitas, mas muitas coisas que acontecem nos bastidores, o preconceito velado, as piadinhas sem graça, o salário mais baixo, a violência…

Faz pouco mais de cinco anos que sou militante da causa feminista, que luto pelas mulheres e pelos seus direitos. Estou começando apenas. Estou lendo, estou me informando, estou vendo as coisas com outros olhos, estou errando e acertando… Afinal, ser feminista não apaga o fato de eu ter nascido onde eu nasci, ter sido criada onde fui, ter vivido imersa num caldeirão de idéias, cultura, ideologia, hábitos, costumes, métodos. Hoje, eu provavelmente tenho uma postura mais crítica com relação às minhas atitudes, eu também acredito que o pessoal é político, eu  tento pensar e repensar as minhas maneiras de ver o mundo e interagir com ele.

Mas não basta que mulheres se reúnam e discutam feminismo e lutem por seus direitos. É preciso que os homens juntem-se a nós. Especialmente quando o assunto é violência contra mulheres.

Por exemplo: culpar a vítima é algo que acontece o tempo todo, ou seja, culpar a pessoa em quem algo foi feito ao invés de culpar quem o fez. E falamos coisas como: por que essas mulheres saem com esses homens? Por que elas se atraem por esses homens? Por que elas continuam voltando para eles? O que ela estava vestindo naquela festa? Que burrice! Isso é culpar a vítima, e há inúmeros motivos para isso acontecer, mas um desses motivos é que nossa estrutura cognitiva é montada para culpar vítimas. Tudo isso é inconsciente. Fazer perguntas sobre as mulheres e as escolhas das mulheres e o que elas estão fazendo, pensando e vestindo. Fazer perguntas sobre Fulana não vai nos levar a lugar algum quando o assunto é prevenir violência.

Nós temos que fazer perguntas diferentes. As perguntas não deveriam ser sobre Fulana. Deveriam ser sobre ele. As perguntas deveriam incluir coisas como: por que o John bateu na Mary? Por que a violência doméstica ainda é um problema tão grande no mundo? O que está acontecendo? Por que tantos homens abusam fisicamente, emocionalmente, verbalmente e de tantas outras formas, as mulheres que eles dizem amar? O que está acontecendo com os homens? Por que tantos homens abusam sexualmente crianças? O abuso sexual de crianças. Escutamos sobre isso o tempo todo. O que está acontecendo com os homens? Por que tantos homens estupram mulheres em nossa sociedade e ao redor do mundo? Por que tantos homens estupram OUTROS homens? E então, qual o papel das várias instituições em nossa sociedade que estão ajudando a produzir homens abusivos a taxas tão altas?

Porque essa conversa não é sobre agressores individuais. Essa conversa é sobre algo que é um problema social sistemático muito mais profundo. Esses agressores não são aqueles monstros que rastejam para fora do esgoto e invadem a cidade, cometem seus crimes bárbaros e voltam para a escuridão. Os bandidos são muito mais normais do que isso, e muito mais cotidianos do que isso. Então as perguntas certas são: o que estamos fazendo em nossa sociedade e no mundo? Quais são os papéis das várias instituições (escola, família, igreja) que estão ajudando a produzir homens abusivos? Qual o papel do sistema de crenças religiosas, da cultura do esporte, da cultura da pornografia, da estrutura familiar, da economia e como tudo isso está conectado? Como tudo isso funciona?

E apenas quando nós começarmos a fazer esse tipo de conexões e a fazer essas grandes perguntas, então poderemos falar em como poderemos transformar o mundo. Poderemos falar sobre como fazer algo diferente. Como mudar as práticas? Como mudar a socialização de garotos e as definições de masculinidade que levam a esses resultados atuais? Esses são os tipos de perguntas que precisamos perguntar e os tipos de trabalhos que precisamos fazer.

Vocês, que hoje estão aqui na Câmara de Vereadores Mirim, são os jovens que tem grandes possibilidades de serem líderes no futuro. Hoje vocês são em 15 vereadores, seis meninas e nove meninos. Mas dentre vocês, quantos realmente serão líderes? Vocês já se perguntaram por que hoje não temos nenhuma mulher vereadora entre os adultos? Por que as mulheres acabamos optando em ficar com posições nos bastidores, ou com os cuidados da casa, ou absorvidas em qualquer outra ocupação que não receba destaque? Deixo essas perguntas para vocês refletirem.

Obrigada.

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2 comentários sobre “Meu pronunciamento na Câmara Mirim.

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