Mulheres na política.

Dei um pronunciamento na última semana para a Cãmara Mirim aqui de Blumenau. Fiquei extremamente nervosa, muito mais do que eu imaginava. E enquanto algumas pessoas tentavam me acalmar dizendo que são apenas crianças, eu só pensava que estava nas minhas mãos a responsabilidade de apresentar o feminismo para essas crianças – e que qualquer mancada poderia ser fatal. Ou seja, muito mais importante e possível para mim é ajudar a construir uma sociedade para o futuro, trabalhando com os nossos jovens, do que tentar mudar a cabeça dos tantos idiotas que já estão circulando por aí.

No final do discurso eu encerrei falando:

Vocês, que hoje estão aqui na Câmara de Vereadores Mirim, são os jovens que tem grandes possibilidades de serem líderes no futuro. Hoje vocês são em 15 vereadores, seis meninas e nove meninos. Mas dentre vocês, quantos realmente serão líderes políticos? Vocês já se perguntaram por que hoje não temos nenhuma mulher vereadora entre os adultos? Por que as mulheres acabamos optando em ficar com posições nos bastidores, ou com os cuidados da casa, ou absorvidas em qualquer outra ocupação que não receba destaque? Deixo essas perguntas para vocês refletirem.

E no final das contas essa pergunta ficou para eu mesma refletir. Primeiro de tudo sobre o motivo que leva eu mesma a recusar de forma veemente a possibilidade de assumir protagonismo na política, me envolvendo de maneira mais direta – dentro do meu partido ou quiçá numa futura disputa eleitoral. E depois, motivada por um aluno, fui atrás de números sobre a participação das mulheres no Congresso Nacional.

Só para me frustrar, claro. Porque é pior do que eu pensei, as mulheres são muito mais subrepresentadas do que eu imaginava.

De 513 deputados federais, apenas 43 são mulheres. Sim. Apenas 8%. E apenas uma de Santa Catarina, a Luci Choinacki – PT, do município de Descanso. Já senadores, de um total de 81, temos 12 mulheres, ou seja, quase 15%. E isso é pouco, gente. MUITO pouco. E, claro, nenhuma senadora de Santa Catarina. Não me surpreende, porque os dados que tenho recebido ultimamente sobre Santa Catarina me fazem crer que o machismo aqui é muito, mas muito maior do que nossa autoestima sulista nos faz crer. Em um ranking que avalia a penetração política por gêneros em 146 países, preparado pela União Interparlamentar, o Brasil ocupa o modesto 110º lugar, atrás de nações como Togo, Eslovênia e Serra Leoa.

E fico até meio ofendida quando escuto aquele mesmo argumento simplista de sempre: mulheres não se interessam por política. Ponto. Como se fosse algo dado, uma coisa natural assim. Mulheres no ambiente privado, homens na vida pública. Porque cada um se interessa mais por uma coisa ou por outra. A culpa da subrepresentação, como a culpa de tudo o mais – inclusive dos estupros – é das mulheres.

Esse processo cultural e institucional que faz com que as mulheres acabem não ocupando (ou ocupando muito timidamente) posições de destaque é muito mais complexo do que a simples falta de interesse. Há que se pensar não só em por que poucas mulheres se candidatam (apesar de que agora as cotas partidárias vêm sendo cumpridas – por força de lei, mas vêm) mas também no por que as pessoas não votam nessas mulheres. E durante essa análise, pensar em porque os partidos preenchem as cotas de cadidaturas só para constar e ao mesmo tempo não investem capital financeiro e político nestas candidaturas. Os partidos políticos, claro, também são formados e controlados majoritariamente por homens, que acabam por dar pouco espaço para que mulheres estruturem suas campanhas.

Mulheres na política

Quando se fala em candidatos, e obviamente nos vem à cabeça a imagem de candidatos homens, brancos, hetero, cis, etc etc etc, pensa-se em um homem que vá lutar em várias frentes por várias causas e quando se pensa em candidata mulher se pensa em uma mulher que vá lutar somente pelas mulheres (creche, jornada de trabalho, aborto). E daí o raciocínio de não vou votar em mulher porque antes quero resolver os problemas relacionados à saúde, educação e segurança pública (como se a solução desses problemas não estivesse diretamente ligada à destruição do patriarcado racista e heteronormativo, mas enfim). Mais uma vez a classificação do homem como universal – o político homem é aquele que vai ser capaz de melhorar a sociedade como um todo,  enquanto a política mulher é aquela que vai se preocupar apenas com os problemas exclusivamente considerados femininos. Isso para não falar da percepção comum de que mulheres não vão ter pulso para lidar com as disputas políticas.

Penso que não se deve votar em mulheres somente pelo fato de serem mulheres. É preciso mais do que isso, claro. Propostas, ideias, planos de governo. Mas vejo como bastante sintomático o fato de que elas não estejam ocupando cargos políticos porque não somos capazes de associar competência e boas propostas e bons planos de governo a mulheres. Muitas vezes como machismo consciente – não voto em mulher porque ela é mulher, mas muitas vezes como um processo insconsciente de ignorar as tentativas de participação feminina. Nem se discute porque nem se considera a hipótese de que haja tantas alternativas femininas viáveis quanto masculinas. Porque há, acreditem.

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3 comentários sobre “Mulheres na política.

  1. Pingback: Mulheres Vereadoras em Blumenau | Georgia Martins Faust

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