Palmada – ainda. Sempre.

Eu quase não consigo entender quando as pessoas se posicionam contra a Lei da Palmada.

Eu entendo quando argumentam que não tem como fiscalizar, eu entendo quando dizem que essa lei seria redundante pois o ECA já trata disso. Mas DEFENDER a palmada como método legítimo de educar os filhos é o que eu não entendo. Não entendo também quando alguém posta aquela imagem besta no Facebook dizendo que sempre apanhou e estava muito bem educado, obrigado.

Pessoas em geral são avessas à mudanças. Mas tão, MAS TÃO avessas à mudanças que não conseguiram parar por um minuto sequer para realmente refletirem sobre as razões que as levam a ser contra. Apanhou quando era pequeno? Ok, hoje é “normal”, “saudável”, “bem-sucedido”. Mas gostou de apanhar? Lembra, mesmo que por alguns instantes, dos momentos de terror e da sensação horrorosa que teve naqueles momentos? Acha mesmo que apanhar, naqueles momentos era a única alternativa? Sério mesmo?

Não é só porque sou futura pedagoga, nem porque sou fãzona de Super Nanny, nem por ser professora de crianças pequenas que sou super a favor dessa Lei. É por todos esses motivos juntos e mais alguns. Acho, sim, que a palmada, o tapa, e a sua versão upgraded, a surra são a primeira e mais fácil alternativa para o pai e mãe brasileiros, que não tem muitas ferramentas para educar os filhos – e preferem repetir aquilo que vivenciaram e que aparentemente funcionou. Entre repensar alternativas, ler livros sobre educação ou mesmo perguntar para especialistas qual a melhor alternativa a escolher quando as coisas parecem fugir do controle, o melhor mais fácil acaba sendo repetir aquilo que viram.

Mas acho que o grande ponto mega positivo da tal lei que “espanca a liberdade individual” que os pais têm de bater na sua prole é justamente o de fazer com que as famílias reflitam sobre qual é realmente a melhor maneira de lidar com possíveis conflitos. Essa reflexão não tem como ser negativa.

Acho que violência nunca é alternativa, e nunca deve ser aceitável. Acho (e dizem que estudos mostram) que crianças que crescem com violência têm uma tendência muito maior de reproduzir violência em seu comportamento quando adultas. Quando nós, educadores, falamos de “palmada”, na verdade estamos nos referindo a maus-tratos de modo geral: qualquer forma de rejeição, depreciação, discriminação, desrespeito, cobrança ou punição exagerada. Todos esses métodos causam danos ao desenvolvimento da criança e, portanto, nunca -NUNCA – devem ser realizados.

E não dá pra discutir muito com os resultados de algumas pesquisas, que só vêm corroborar tudo o que acredito: as crianças que apanham (comparadas com as que não apanham) apresentam auto-estima mais baixa, comportamento mais agressivo, maior freqüência de sintomas psiquiátricos e menor bem-estar geral. Quem deseja isso para o próprio filho? Mesmo que tenha sobrevivido às palmadas quando criança? Vale a pena repetir os erros dos pais sem nem pensar a respeito?

Achei, aliás, um artigo bem legal no Scielo a respeito, O uso de palmadas e surras como prática educativa.

Em um post muito interessante li que o castigo físico imposto a crianças como método de ensino foi migrado para o Brasil pelas mãos dos padres jesuítas, no século XVI. Os indígenas que viviam na “Ilha Brasil” não aceitaram a prática, exatamente porque repudiavam o ato de espancar crianças (sim, eu sei, são MUITAS etnias, não dá pra dizer que índio faz isso ou faz aquilo porque cada realidade de cada tribo/comunidade é diferente – mas vale dizer que percebi que a falta de palmada é realmente uma realidade no Norte do país – nunca vi crianças tão livres). Não é a toa que amo os índios e detesto qualquer coisa que envolva a Igreja Católica. Não é justamente na Bíblia que encontramos o conselho “Não poupes ao menino a correção: se tu o castigares com a vara, ele não morrerá; castigando-o com a vara salvarás sua vida da morada dos mortos”??? Ah, pois é. Tô fora.

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2 comentários sobre “Palmada – ainda. Sempre.

  1. Excelente post Georgia! Tenho a mesma dificuldade que você descreveu para ‘aceitar’ castigos físicos como meio de educar.
    Eu apanhei como criança, e hoje carrego traumas em decorrência disso.
    É muito importante alertar o pais que desconhecem os perigos inerentes a esta prática e seu texto vem de encontro a isso.
    Beijos!

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