Lily Allen diz que feminismo não precisa mais existir.

E isso me irritou profundamente. Não. Não me irritou. Me chateou profundamente. leia a notícia AQUI.

Primeiro porque quem falou foi a Lily Allen. Não foi a Maria Mariana. Não foi a vovó. Não foi um homem. Foi a Lily Allen. E eu super acreditava, antes, que ela fosse mais politizada do que isso. Até porque, eu nem acho que seja necessário ser MUITO politizado para perceber a importância do movimento feminista, basta viver em sociedade e ter um tiquinho de olhar crítico.

Ela menciona, nas declarações que fez, que as maiores inimigas das mulheres são elas mesmas, e não os homens. Não vou falar que quem mata mulheres são homens e não elas mesmas (40 a 70% dos assassinatos de mulheres no mundo são cometidos pelo próprio marido ou companheiro). Não vou falar disso. Vou falar que, mesmo quando somos nossas próprias inimigas, mesmo quando estamos competindo seja lá pelo que for, ainda somos vítimas do patriarcado e de um sistema que NOS CONDICIONA a ser assim.

lily-allen-smile

Partindo do pressuposto de que não se nasce mulher, torna-se (sempre temos que partir desse pressuposto), sabemos que somos resultado do caldeirão cultural em que estamos inseridas. Aprendemos, desde cedo, desde quando saímos da maternidade naquele tip-top rosinha, como ser, como agir e até onde podemos ir dentro do papel social que nos é atribuído como mulheres. Aprendemos que mulheres usam laço no cabelo e brincam de boneca e de casinha, e que homens brincam de ser exploradores e curtem filmes de ficção científica. Aprendemos que nossos corpos tem que ser docilizados e domesticados e que não podemos sentar de perna aberta.

Quando nos interessamos mais pelas brincadeiras de meninos do que pelas de meninas, nos sentimos menos mulheres. Como se faltasse alguma coisa em nós, uma essência feminina. Somos criadas para sermos frívolas, infantis, frágeis. Aprendemos que temos que crescer e conseguir um homem para cuidar de nós, para pagar nosas contas, para abrir a porta do carro. E não só aprendemos que temos que ter um homem para CUIDAR de nós. Aprendemos também que é importante (principalmente hoje em dia, onde o malvado feminismo está castrando nossos homens, deixando-os confusos sobre seu papel) PERMITIR que os homens mantenham o papel de provedores e protetores porque se não, coitados, né? Morro de pena.

E daí muitas de nós aprendem, a duras penas e depois de dar muito murro em ponta de faca, que É MAIS FÁCIL deixar as coisas simplesmente serem do jeito que são. Não pense você que euzinha aqui nunca pensei em desistir também. Pensei nisso com frequência nos últimos tempos, aliás. Porque sou humana, bate a carência, uma vontade de compartilhar coisas com alguém e daí penso: pá, só tem prospecto imbecilóide, pra ter qualquer coisa parecida com um relacionamento vou ter que me contentar com o que vier. Mas não só isso. Também o cansaço que dá lutar todos os dias. Não to falando de tiro porrada e bomba. Tô falando da luta diária, do bate-boca, de defender posições, de não deixar passar piada machista, de denunciar conteúdo misógino, de aguentar assédio na rua, de convencer as pessoas que a felicidade plena de ser mãe não é universal, de acolher azamiga etcétera etcétera etcétera. E tantas vezes ver o backlash rolando e pensar Véi, essa poha nunca vai mudar. Então sim, é mais fácil.

Mas voltemos às mulheres inimigas de mulheres.

Acredito sim que nem toda mulher sinta empatia por outras mulheres. Acho que fomos criadas para nos odiarmos mesmo. Quantas mulheres tem o maior orgulho de dizer que sempre foram da turma dos meninos? Até eu já falei isso. Mas daí a dizer que as maiores INIMIGAS das mulheres são as próprias mulheres é um belo salto. Se eu fosse mesmo escolher um inimigo das mulheres, adivinha quem seria? Uzômi! Por motivos de… o hipotético machismo feminino mata em torno de ZERO mulheres todos os dias. E quantas mulheres morrem por contra do machismo masculino?

Mas não consigo, agora já não mais, ver mulheres como inimigas. Vejo comportamentos machistas, vejo competitividade, vejo tudo isso. Ao contrário do que vocês possam estar pensando, não estou cega. Mas não vejo, DE JEITO NENHUM, mulheres se BENEFICIANDO do machismo. Só acho que, das duas uma: ou elas fizeram como eu quase faço de vez em quando – desistiram para evitar a fadiga; ou elas simplesmente don’t know better. Aham, isso mesmo, V-I-T-I-M-A-S. Do patriarcado, que divide para conquistar, que tornou-nos todas competidoras em potencial pela atenção masculina.

Então. Lily Allen se equivocou.  Não acreditem nelas, meninas! O nosso maior inimigo não somos nós mesmas!

Anúncios

2 comentários sobre “Lily Allen diz que feminismo não precisa mais existir.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s