Porque eu sou contra a Comenda Municipal do Mérito da Família

Anteontem, até me arrepiei ao descobrir, foi promulgado pela nossa belíssima Câmara de Vereadores o Decreto Legislativo 863 – aquele que cria a Comenda Municipal do Mérito da Família.

Art. 2º A Comenda Municipal do Mérito da Família será conferida aos casais, devidamente casados, no civil e/ou no religioso, nos quais os mesmos comprovem o matrimônio completado em 40 (quarenta) anos ou mais.

Eu nem sei se eu quero mesmo comentar a utilidade de tal projeto e questionar como os nossos nobres representantes utilizam o precioso tempo das sessões da câmara. Porque de todas as coisas que eles poderiam estar discutindo, eles preferem fazer de conta que estão em uma reuniãozinha da TFP. Não todos, OK. Mas os poucos que não estão nessa vibe aparentemente não têm feito muita diferença.

A Comenda basicamente homenageia famílias de verdade. Eu não sou família. Minha amiga mãe solteira não é família. Minha mãe, divorciada com três filhos, não é família. A Fulana, mãe de vários, que nunca teve grana pra casar (ou mesmo interesse em casar) e rala o cu nas ostras todos os dias pra dar comida pros filhos, também não é família. So ó é família de verdade e só merece ser homenageada aquela, sabe, aquela tradicional, aquela do casamento indissolúvel, aquela pré-divórcio e pré-liberdade das mulheres, aquela onde as mulheres têm espinha pra se curvar. Sabe? Aquela.

Pelo menos a redação mudou. O projeto original dizia apenas “casais devidamente casados” e isso dava margem pra um monte de merda. Porque o que significa “devidamente casado”? Aos olhos de deus? Agora pode ser aos olhos de deus e da lei, porque vale casamento no civil. Mas e contrato de união estável? E o que significa “casal”? Pode ser casal homossexual?

Sou absurdamente contra homenagear casais heterossexuais, casados legalmente, saca? Esse padrãozinho caga regra da nossa sociedade dizendo como uma família deve ser? Aquela coisa linda de dois velhinhos cheio de filhos, netos e bisnetos? Família não é SÓ isso. Existem inúmeros modelos de família que merecem ser homenageados. Família de uma pessoa só que mora com 20 gatos (oi!), casais hétero e homo com ou sem filhos, uma vó que mora com sua filha e neto, sem homens como líderes, mães e pais solteiros com seus filhos…

Nosso nobre vereador, crente, Marcos da Rosa fez o seguinte comentário quando estávamos discutindo a imbecilidade do projeto:

Marcos

Aparentemente ele matou todas as aulas sobre Estado Democrático de Direito, laicidade do estado e tudo o mais. Já é um absurdo completo existir o tal do Momento Bíblico na casa, o crucifixo se não me engano finalmente foi retirado, mas meus amores… TÁ ERRADO ISSAÊ!

Tal vereador – bem como seus colegas que votaram favoravelmente – nem se dá conta da falta de perspectiva histórica, da complexidade das relações sociais, das inúmeras configurações familiares possíveis… O que vejo, o que tenho visto nos últimos tempos, são os valores da TFP inundando o legislativo. Ficaram sabendo da Marcha da Família com Deus pela Liberdade? Vão agilizando seus passaportes aí, garotada, eu não sei se o futuro será legal por aqui.

A neutralidade e a imparcialidade que deveriam ser garantidas pelo Estado Laico não existem, e o que estamos vendo ultimamente é uma chuva de moralismos. Um ataque a democracia, ao parlamento, aos blumenauenses que estão em outros padrões e organização familiares. Esse projeto é o mais um sinal da uma onda de conservadorismo e retrocessos que estão por vir. E o pior é a turma do deixa-disso, que assiste e não consegue fazer a reflexão do que está por trás de tudo isso. Não duvidem: daqui a pouco a cura gay chega em Blumenau, em defesa da família.

E se você quer mesmo saber: não me espanta essa situação em Blumenau, uma cidade ultra-conservadora, em um estado conservador.

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3 comentários sobre “Porque eu sou contra a Comenda Municipal do Mérito da Família

  1. A imbecilidade da lei é discutível, mas a imbecilidade do texto é certa. Não gosta da noção de família como o mundo a tem a milhares de anos? Fica sem uma então. Sinto informar querida, mas você nasceu da união de uma homem e uma mulher, assim como TODOS os habitantes do planeta. O dia que isso mudar talvez a noção de família possa mudar também.

    Por enquanto, acho razoável homenagear pessoas que conseguiram cumprir suas promessas, e aos trancos e barrancos seguiram lado a lado um ao outro diariamente por amor aos filhos, em vez de pensar somente em si e ir embora, como é o consenso dessa sociedade egocêntrica que só pensa no seu umbigo.

    • Não, não gosto da noção de família como o mundo a tem a milhares de anos. E por isso permaneço sem uma. E tá bem bom assim! 😉

  2. Pingback: Os Planos Municipais de Educação e a tal ~ideologia de gênero~ | Georgia Martins Faust

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