Teste de QI não significa nada.

Sim, eu sei, você já sabia disso.

E eu também já sabia. A primeira coisa que eu descobri na minha pesquisa sobre altas habilidades/superdotação, é que tal “condição” requer três fatores: (1) potencial elevado em qualquer uma das seguintes áreas, isoladas ou combinadas: intelectual, acadêmica, liderança, psicomotricidade e artes; (2) grande criatividade; (3) envolvimento na realização de tarefas em áreas de seu interesse.

Mas. Muita gente e muitos sistemas educionais ainda se baseiam em resultados em testes de QI (sendo o mais famoso o Stanford-Binet) para classificar seus alunos. E como era de se esperar, testes de inteligência deixam muitos pontos relevantes de fora (criatividade e envolvimento com a tarefa não são medidos em testes de QI). E isso talvez explique porquê os resultados em testes de QI não sejam boas previsões de excelência futura. Nos anos 20, um psicólogo e super defensor dos testes de inteligência, Lewis Terman – que aliás foi quem aperfeiçoou o teste Binet, desenvolvendo o Stanford-Binet – começou um famoso estudo longitudinal com cerca de 1500 crianças californianas que apresentavam QIs extremamente altos. Ele ambiciosamente chamou tal estudo de “Estudo Genético da Genialidade”, e sua esperança era demonstrar que essas crianças, a quem ele chamou de “excepcionalmente superiores”, um dia se tornariam a espinha dorsal da elite intelectual e criativa norte-americana, trazendo avanços cruciais nas ciências, política e artes. Mas, conforme o tempo passou, esse assunto foi se tornando menos e menos impressionante . Nenhuma daquelas crianças ganhou prêmios Nobel (mas dois que foram dispensados do estudo foram indicados), nenhum se tornou musicista renomado mundialmente (mas outros dois rejeitados para o estudo sim). Outro cientista, Malcolm Gladwell, fez uma observação importante: que o QI de uma pessoa não precisa ser super-alto para que ela seja bem sucedida, apenas precisa ser alto o suficiente. “Uma vez que uma pessoa atingiu um QI em torno de 120, ter pontos adicionais não se traduz em vantagens no mundo real”.

A maioria dos pesquisadores da infância concordam que as mentes das crianças da educação infantil e séries iniciais ainda é muito crua para ser julgada. O cérebro de uma criança pequena é um alvo em movimento, e não dá pra tratá-lo como se fosse fixo. Como se não bastasse, quanto mais alto o QI, mais instável ele é, maior a probabilidade de ele acabar reduzindo com o passar do tempo. Além do mais, outros fatores também influenciam a obtenção de um resultado alto: uma boa noite de sono antes do teste, sentir-se confortável com o examinador – além de chutes certeiros em questões que valem mais pontos.

Em 2006, David Lohman, um psicólogo da University of Iowa, co-escreveu um trabalho chamado “Gifted Today but Not Tomorrow?” (Superdotado Hoje mas Não Amanhã?) no Journal for the Education of the Gifted, demonstrando o quão instável é a classificação de “superdotação”. Ele percebeu que APENAS 45% das crianças que tiveram um escore de 130 ou acima no teste Stanford-Binet mantiveram esse escore em outros testes feitos posteriormente. Combine essa informação com a instablidade cerebral das crianças, e fica bastante claro que julgamentos sobre superdotação deveria ser algo feito continuamente, ao invés de um laudo diagnóstico feito em um momento arbitrário. Ao ser perguntado qual porcentagem de crianças que atingiram escore de 130 ou acima aos 4 anos de idade conseguiria repetir o feito aos 17 anos, o pesquisador respondeu: apenas 25 porcento.

As implicações dessa resposta são imensas. Significa que TRÊS QUARTOS das crianças em programas específicos para altas habilidades/superdotação não entrariam mais no programa se tivessem que refazer o teste de QI no ano de sua formatura. O pesquisador reforçou: “Mesmo as pessoas que se consideram bem versadas nesses assuntos se surpreendem ao descobrir quanto movimento/ruído/instabilidade há mesmo quando a correlação parece alta”.

Então o que será que os psicólogos e educadores acham que faz a diferença entre “bom” e “excepcional”? Oportunidades, conexões, bons mentores. Perseverança e devoção monomaníaca, ou o que a psicólogca Ellen Winner chama de “a fúria de dominar”. Criatividade, aceitação do próprio fracasso.

O maior problema não é apenas o fato de o teste em crianças ser intelectualmente pouco útil. Mas muito mais por ser emocionalmente pérfido. Quando nós recorremos a qualquer tipo de medição de capacidades das crianças – que deveria ser qualitativa -, não importa quão divertido nós façamos o teste, não importa quantos pirulitos nós damos para desestressar o processo, crianças pequenas são extremamente perspicazes. Elas absorvem a ansiedade dos pais com relação a isso, absorvem os julgamentos que as pessoas fazem sobre elas. Então há um processo de organizar as crianças em uma hierarquia de valor, e que tem começado em tenra idade – o que é cruel.

E a grande ironia é que se dar bem nesses testes pode ser tão danoso quanto se dar mal. A superdotação é uma etiqueta um tanto desconfortável para uma criança usar. Pode abalar seu raciocínio, fazendo-as temer correr riscos.  Não é a toa que muitas dessas crianças não chegam nem a se destacar na escola. Não fazem perguntas, não têm ideias originais. E não é porque tem algo de errado com elas, mas sim porque desde muito cedo elas foram condicionadas a acreditar que aprender = dar a resposta certa = agradar o adulto que está na sua frente.

No final das contas, qual ferramenta deveria ser usada para diagnosticar os alunos com altas habilidades/superdotação?

O que muitos estudiosos sugerem é fazer uma imagem mais abrangente da criança. E isso só é possível através da observação da criança em situações de sala de aula, e olhando o produto de seu trabalho – a chata avaliação descritiva. E conhecendo a criança. E isso não é muito prático. Pois significa ensinar os professores a fazer isso. Sai mais caro. Mas é possível, e a única forma de colocar a criança certa no programa diferenciado certo. E além: uma criança nunca deveria ser avaliada uma única vez, já que os resultados podem mudar de tempos em tempos.

Mas a minha aposta fica no teste do marshmallow. Já falei sobre ele AQUI. É um teste bem convincente e, aparentemente, bem famoso. Nos anos 60, um psicólogo de Stanford chamado Walter Mischel reuniu 653 crianças pequenas e deu a elas uma escolha: elas poderiam comer um marshmallow naquele exato momento, ou poderiam esperar por um período de tempo não especificado e comer dois marshmallows. A maioria escolheu esperar pelo segundo marshmallow, mas no final do teste, só um terço da amostra teve a auto-disciplina suficiente para esperar os quinze minutos. Mischel depois teve a inspiradora ideia de acompanhar seus jovens sujeitos de pesquisa, verificando como eles estavam ao concluir o Ensino Médio. Ele descobriu que as crianças que escolheram e conseguiram esperar por aquele segundo marshmallow atingiram uma pontuação, em média, 210 pontos mais alta no SAT (espécie de ENEM norte-americano) do que as outras crianças – aquelas que não conseguiram ou não quiseram esperar.

Duzentos e dez pontos. Talvez nossas escolas deveriam estar “filtrando” as crianças pela sua auto-disciplina e habilidade de tolerar deferred gratification (gratificação adiada), ao invés de inteligência e conquistas acadêmicas. Parece um preditor de futuro sucesso muito melhor…

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Um comentário sobre “Teste de QI não significa nada.

  1. Conheci uma pessoa com Q.I. 121, e eu, tenho 128. Hoje ela é formada em Direito, trabalha na área, ganha bem, enquanto eu só cursei o ensino médio e ganho uma miséria. Mas… ela é desinibida e eu sofro de fobia social grave. Ou seja alguém sem traquejo social pode ter até 200 de Q.I. que não lhe valerá nada na vida real. Os pais e os professores deveriam fazer de tudo pra que seus filhos sejam desinibidos.

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