Religião mente sobre as mulheres

Há um bom tempo apareceu um artigo da Paula Kirby no Washington Post (não está mais no ar) que guardei e recém encontrei. Vou traduzir aqui porque sim.

Religião mente sobre as mulheres

“A discriminação contra mulheres de modo global é frequentemente atribuída à declarações de líderes religiosos do Cristianismo, Islamismo e outros religiões que dizem que mulheres são inferiores aos olhos de Deus,” o ex-presidente Jimmy Carter disse na semana passada. Muitas tradições ensinam que enquanto tanto o homem quanto a mulher são iguais em valor, Deus ordenou papéis específicos para homens e mulheres. Esses deveres distintos geralmente mantém mulheres fora de posições de liderança em suas comunidades religiosas. Qual é o papel da religão na discriminação por gênero?

Vós, mulheres, sujeitai-vos a vossos maridos, como ao Senhor; Porque o marido é a cabeça da mulher, como também Cristo é a cabeça da igreja, sendo ele próprio o salvador do corpo. De sorte que, assim como a igreja está sujeita a Cristo, assim também as mulheres sejam em tudo sujeitas a seus maridos. Efésios 5:22-24 

Aqui, em Efésios 5, atribuído a São Paulo, temos em resumo a atitude da Igreja com relação às respectivas posições do homem e da mulher. O papel do homem é ser a cabeça, o da mulher é subemeter-se à ele. O significado é claro como cristal, inconfundível; e mesmo assim, apesar dos fundamentalistas que acreditam piamente que esses preconceitos da Idade do Bronze ainda sejam aplicáveis hoje, há muitos Cristãos liberais que tem a decência de se encolher perante a priimtividade de tais instruções e portanto as “re-interpretam” para fingir que elas não são tão ruins quanto patentemente são. “Ah, sim”, eles dizem, “mas Paulo continua e diz que os maridos devem amar suas esposas. E não apenas amá-las, mas amá-las como amam a si mesmos. Então, claramente, esse é um acordo recíproco, igual em valor, impondo restrições de peso equivalente tanto no homem quanto na esposa. Tudo está bem no mundo e podemos continuar a fingir que o cristianismo é amigo das mulheres.” Mas não. Não está tudo bem no mundo, e apenas os iludidos ou dissimulados podem alegar ver igualdade onde há apenas subserviência.

É interessante perceber o contexto no qual essa passagem infame ocorre: imediatamente depois do mandamento para que mulheres se submetam aos seus maridos, encontramos o mandamento para que crianças obedeçam seus pais, e para que escravos obedeçam seus donos. Nenhuma instrução para que os maridos, pais e proprietários em questão para que não expxlorem impiedosamente suas posições de poder pode alterar o fato de que mulheres estão classificadas como crianças e escravos em posição social, liberdade e auto-determinação e, como eles, são invocadas a abraçar seu status inferior com alegria e entusiasmo. Nessa mesma sequência de instruções, proprietários de escravos são exortados a não ameaçar seus escravos. Isso faz a escravidão aceitável? Claro que não. Apenas a religião poderia tentar apresentar tal ideia repugnante como se não fose uma mancha na dignidade da humanidade, e o requisito para que mulheres sempre se submetam aos homens não é menos repugnante.

A verdade é que as religiões abraâmicas temem as mulheres e portanto ultrapassam limites extraordinários e muitas vezes brutais para controlá-las, restringí-las e reprimí-las de todas as maneiras possíveis. Mostre-me uma sociedade não-religiosa que se sinta tão ameaçada pelo pensamento da sexualidade feminina a ponto de cortar o clitoris de uma menina apenas para se assegurar que ela jamais sentirá prazer sexual. Mostre-me uma sociedade não-religiosa que sinta a necessidade de vestir as mulheres dos pés à cabeça e forçá-las a experimentar o “mundo de fora” através de uma fenda de alguns centímetros quadrados. Todas as três religiões abraâmicas compartilham o mito de Adão e Eva, o mito de que foi através da mulher que o mal foi libertado no mundo. Eles compartilham a herança de Levítico, que declarou impura a mulher menstruada, para que fosse separada dos demais, intocável, um asco que permanece até hoje entre alguns judeus ortodoxos, que se recusam a cumprimentar mulheres com um aperto de mãos por medo de que ela esteja menstruada. Que tipo de loucura é essa? É a loucura da mentalidade da Idade do Bronze fossilizada pelas forças reacionárias da religião.

E Deus nos livre do pensamento que essas religiões – em seu alegado valor igual atribuído às mulheres – permitam a elas que finalmente controlem seus próprios corpos! Mulheres existem para o propósito da reprodução! Então deixe-as se reproduzir! Deixe-as se reproduzir, não importando que elas queiram ou não! Azar para a mulher que ousar fazer sexo sem estar disposta a conceber uma criança como resultado! Aflição para a mulher que usar contraceptivos para controlar sua fertilidade e gerenciar o tamanho da sua família! E aflição vezes mil para a mulher que ousar interromper uma gravidez que ela não queira! A questão do aborto ilustra perfeitamente bem o papel das mulheres no que diz respeito a igreja. Os órgãos reprodutores de uma mulher não pertencem a ela, e ela não tem permissão para decidir o que acontece com eles. A Igreja Católica proíbe o aborto, mesmo quando a vida da mãe está em risco. Proíbe, mesmo que ela tenha sido estuprada e esteja carregando o filho de seu violador. Não tem como ser mais claro que a mulher tem valor somente como veículo para um filho de um homem e que não tenha valor intrínseco nenhum.

Aos olhos das religiões abraâmicas, o arquétipo da mulher é Eva: desobediente, instável, facilmente desviada, e sedutora de homens – sendo os homens mais nobres, porém presas fáceis para os ardis e seduções de sua companheira frágil. A mulher é a fonte de perigo, aquela que corrompe o homem, o canal para tudo que há de mau no mundo. Ela é perigosa… E mesmo assim, irresistível; e essa irresistibilidade faz dela ainda mais perigosa. Mas você vai perceber que os perigos da tentação sexual não serão encarados da mesma forma por homens e mulheres: não, a religião ordena que é a mulher quem carrega o fardo. Salomão, nos ensinaram, tinha 700 esposas e 300 concunbinas, e Davi era mais modesto e tinha 5 esposas e 10 concunbinas e ainda assim nenhum dos dois tornou-se exemplo da insaciabilidade masculina. Jezebel, por outro lado, tornou-se sinônimo de excesso sexual, apesar de esse não estar entre os defeitos atribuídos a ela na estória bíblica. O Islã Fundamentalista, ao invés de exigir que seus seguidores homens controlem sua luxúria e assumam responsabilidade por ela, esconde suas mulheres sob sacos hediondos e assexuados, privando-as de sua beleza e individualidade, literalmente privando-as até de sua habilidade de respirar livremente – e ainda permite a poligamia, mas apenas para os homens, é claro. E você já parou para pensar o que de fato aconteceu ao homem amante da mulher condenada por adultério no Evangelho de João? Por que ele não foi ameaçado com a execução por apedrejamento perante Jesus?

O Novo testamento tem lamentavelmente pouquíssimas personagens femininas significativas, e um rápido olhar para aquelas que conseguiram chegar no hall da fama será suficiente para nos dizer exatamente como elas eram percebidas. De um lado, temos Maria Madalena – a prostituta. E do outro lado, temos Maria, mãe de Jesus – a virgem. Parafraseando Dorothy Parker, a visão de mulher do Novo Testamento motra a gama completa de A até B. Prostituta ou virgem: escolham seus papéis, mulheres. A mulher que transa com múltiplos homens é considerada a epítome da queda, da maldade; como alguém tão corrupta que o fato de Jesus estar disposto a perdoá-la é visto como praticamente milagroso. E ao mesmo tempo nos oferecem nosso papel ideal, nossa aspiração, nosso modelo – a virgem eterna: assexuada, presa eternamente em um estado infantil; desprovida de paixão sexual ou sensualidade; obediente, abnegada, altruísta: uma mulher, em outras palavras, de quem foi-lhe tirada tudo o que a faria ser um ser humano completo, uma mulher completa. Aqui, finalmente, está a mulher que a religião não precisa temer. Esse é o ideal mais alto ao qual uma mulher cristã pode aspirar: uma feminilidade feita de papelão, uma mera serva, silenciosa, submissa, um recipiente para a produção de bebês, passiva e gratamente aceitando seu destino.

Religião é uma mentira depois da outra: a mentira do pecado original, a mentira da vida eterna, a mentira do inferno, a mentira da oração atendida, a mentira de que a vida não tem sentido sem religião, a mentira de que religião é a fonte de moralidade, a mentira do criacionismo, a mentira do espião-no-céu que escuta todas as suas palavras e lê todos os seus pensamentos. E à essa lista temos que acrescentar a mentira de que ela vê homens e mulheres como iguais. E ela tem escapado por tanto tempo com esses jogos de palavras lunáticos que permitem morte por tortura como se fosse um ato de amor, e tormento eterno nas chamas do inferno como se fosse um ato de justiça necessário, que talvez nõs nem deveríamos nos surpreender que também tenha conseguido enganar seus seguidores para que vissem a sistemática supressão e o silenciamento das mulheres como um ato de liberação e igualdade. Mesmo assim, é uma mentira, como todas as outras: uma cínica e perversa mentira. É hora de as mulheres acordarem para isso.

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