Fim da viagem – o sonho acabou

No meu penúltimo dia na comunidade, o café da manhã foi algo tipicamente tukano: chibé.

Chibé é um mingau salgado de tapioca. Li em alguns lugares que é uma bebida, mas ali no Tupé era um mingau mesmo, que eu comi no prato, de colher. Achei ruim, mas também aprendi que é a maior desfeita DO MUNDO rejeitar o chibé. Sorri e falei que estava delicioso. 🙂

Eu cometi a burrice fenomenal de ter esquecido de levar o carregador de bateria da máquina fotográfica, então meus últimos momentos no Tupé dependeram exclusivamente do meu celular, que vivia sem bateria também. Ótimo. Me amei muito nessa hora. Principalmente porque eu não me dei conta disso, deixei as meninas brincarem com a máquina até a bateria acabar e quando fui pegar o carregador… Ops…

O almoço foi beiju. BEIJU, MANO. Beiju é vida, é luz, é raio estrela e luar. Beijú é o upgrade da tapioquinha. Se tapioquinha já é coisa das deusas, beijú eu tenho certeza que é servido no céu só em ocasiões muito, mas muito especiais. A dona Terezinha (esposa do cacique) tem um fogão a lenha com uma panela em cima que pelo jeito é só para fazer beijú, porque não a vi usando para mais nada. Não bati fotos do fogão/panela pelos motivos acima explicados, mas peguei uma no Google:

Então. Ela pega tipo quilos de tapioca e faz uma tapioquinha giante e bem grossa, que fica aquele grude no meio – ficou bem mais grosso do que esse da foto e bem maior. E eles comem o beijú com a mão mesmo, mais ou menos parecido com como árabes comem o pão sírio. O almoço foi beijú com peixe e eu abri a exceção de comer carne nessa refeição porque sim. Comer com a mão é muito, mas muito legal e inclusive to pensando em adotar esse hábito.

Aproveitei a tarde para ir pasear pela comunidade ribeirinha que ocupa praticamente o mesmo espaço que a comunidade indígena. Fomos eu e Johnny (um menino da comunidade) até a Praia do Amor, que fica do outro lado da maloca. Uns cinco minutos caminhando, passando pelas ruazinhas estreitas da comunidade. E é muito legal passar pelas pessoas e observar o que elas estão fazendo, mas eu, como sempre, acabo tendo um radar que direciona meu olhar pros bichinhos, sempre. Todas as casas têm bichos. Cachorrinhos, porquinhos, galinhas. Poucos gatos, porém.

Mas a praia… A praia… Que lugar lindo!

Ainda bem que existe o Google Images pra vocês conseguirem ter uma idéia da belezura que é aquele lugar.

Praia do amor 01

Praia do Amor 02

Praia do Amor 03

Claro que Johnny me deu a recomendação básica: não faça xixi na água. O tal do candiru aparentemente é onipresente pelas praias dali, tamanho o medo que as pessoas têm dele. Evitei ao máximo, então.

 Depois fiquei mais um tempo com as crianças.

DSC02800

Eu queria tanto saber o que essas crianças aprendem/escutam na escola sobre a história do país… Sobre como aconteceu o genocídio dos povos indígenas… Porque se a escola e os livros didáticos ainda trazem alguma semelhança com o que eu aprendi na escola, sério… Eu iria ficar muito revoltada. Todo aquele orgulho europeu, aquela lenga-lenga dos descobridores que vieram heroicamente desbravar essas terras… O jeito que eu aprendi história foi a maior filhadaputice com quem já estava aqui bem antes da gente. Aliás, foi a maior filhadaputice com todo mundo que não era europeu, né. 

Conversando com o Cacique sobre a infância dele e etc, ele me falou muito de São Gabriel da Cachoeira, a cidade de origem dele. E morri de vontade de conhecer lá também, o município mais indígena do Brasil. Lá, 9 entre 10 habitantes são indígenas.  São Gabriel da Cachoeira também é o único município brasileiro a ter três línguas além do português como co-idiomas oficiais aprovados por lei: Nheengatu, Tukano e Baniwa (esta última pertencente ao tronco lingüístico Aruak). Pomerode (aqui em Santa Catarina) e Tacuru (em Mato Grosso do Sul) outros dois municípios a possuir mais de um idioma oficial (Pomerode reconheceu o idioma alemão como co-oficial em seu território, enquanto que Tacuru reconheceu a língua guarani como co-oficial) mas SÓ São Gabriel da Cachoeira tem TRÊS idiomas oficias. E também é uma cidade enorme, em território: um dos maiores do país, maior que a soma das áreas de Rio de Janeiro, Alagoas, Sergipe e Distrito Federal juntos.

Então. Cacique me disse que aos 6 anos de idade foi levado para uma Missão Salesiana onde ficou oito anos sendo evangelizado. Eu não consigo não ficar puta com essas histórias das missões e talz. Não consigo. Daí fui entrar na página da missão salesiana no Brasil e descobri que eles tão infiltrados por tudo, em uma porrada de comunidades e tribos indígenas, civilizando o índio. E eu não sei como pode esse acesso deles ser tão facilitado. (E por favor não venham me falar dos religiosos que estão lá realmente dando uma mão com trabalhos humanitários e tal, não mencionem Pastorais, eu tô ligada em todo esse rolê, mas o objetivo ds missões, da salesiana em especial, é EVANGELIZAR e isso é um absurdo).

Bom, esse é o último post diarinho da minha viagem. Queria dizer que o nome do cacique em tukano é Tholamü (se fala Toalaman), e significa ser humano do dia; o nome da dona Terezinha, é no idioma tuyuka = Yossokamo, e significa ser humana da natureza; e o nome da menina Fernanda é Diakapiró,  e significa sereia. Carapanã todo mundo sabia o que era, menos eu: pernilongo.

Ficou na minha lista de coisas a fazer e pesquisar re-assistir o filme What the bleep do we know? e quem sabe depois eu explico qual foi o link que eu fiz entre o filme e toda essa experiência.

Escrever esses posts todos sobre a viagem foi uma experiência bem difícil pra mim, pois eu realmente me apaixonei perdidamente por todo esse rolê. Às vezes chorava, as vezes isso acabava com o meu dia. Eu ainda estou tentando descobrir o que exatamente essa tristeza toda significa para mim e até onde essa fascinação toda foi coisa de turista mesmo. Porque o que a maioria das pessoas me pergunta quando falo desse amor todo é: você vai morar lá? E eu realmente não sei se, apesar de tudo o que sinto, conseguiria morar no norte. Ao mesmo tempo em que tudo é lindo e mágico e as pessoas são fantásticas e os cenários incríveis eu também vi muita pobreza e muita tristeza e muitas coisas que eu não sei se teria estrutura emocional para aguentar numa rotina diária.

Mas uma coisa é certa: vou voltar. Provavemente para conhecer os outros estados – Roraima, Acre. Quem sabe em 2015…

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