Comunidade Indígena do Tupé – parte 2

Eu. E os índios. E eu apaixonada pelos índios.

Às vezes – mas nem sempre – as pessoas me perguntam como eu tive coragem de fazer essas coisas, ir sozinha e talz. Eu daqui penso que não fiz nada de mais, porque conheço tanta gente que faz tantas coisas mais malucas… Mas a real é que viajar sozinha foi uma descoberta precedida por muitas outras coisas que eu faço sozinha. Inicialmente por não ter companhia, e depois por gostar mesmo. Da liberdade de fazer só o que eu quero na hora que eu quero, sem ter que convencer ninguém ou ceder às vontades de ninguém. Além do que me dá muito tempo para ter as minhas próprias impressões sobre tudo que acontece e também para pensar e repensar na vida.

A real é que eu imagino que tenha tanto medo e tanta ansiedade quanto qualquer outra pessoa. Mas sigo a metodologia do pulo do trampolim. Pular de trampolim, bem como escorregar em toboáguas, sempre é uma coisa que dá o maior medo e vontade de desistir quando estamos lá em cima. Porque a zona de conforto é tão boa, né não? Tão familiar e tão simples e tão conhecida. Mas quando eu estou lá em cima do trampolim, só penso que tenho que pular, sem outra alternativa. E daí fecho os olhos e pulo. E praticamente tudo de desafiador da minha vida eu tenho feito assim. Fecho os olhos e penso que não há outra opção a não ser para baixo, pulando. Fechei os olhos e entrei no barco que me levou para Tupé. Pensando que, se não fizesse isso naquele momento, talvez nunca mais na vida teria essa oportunidade. E fechei os olhos e chamei pelo cacique quando cheguei na comunidade. Pensando que, no máximo, ele me diria não. Fechei os olhos e me acocorei no banheiro de patente. Pensando que não tinha (e no caso não tinha mesmo) outra alternativa a não ser fazer minhas necessidades ali mesmo.

Esses pequenos desafios de cada opção que eu fiz em cada passeio ou viagem nunca, mas nunca mesmo, me trouxeram arrependimentos. Penso que se eu tivese arregado e dado um passo para trás e descido do trampolim, aí sim haveria arrependimento.

Enquanto estive lá tive um pensamento muito recorrente, em quase todos os momentos de interação e observação daquelas pessoas tão exóticas ao meu olhar. O tal do mito do bom selvagem. Cristóvão Colombo quando chegou  nazamérica, escreveu um texto que ficou famosão dizendo que havia chegado ao paraíso terreno. Nesse texto, ele atribuiu todo tipo de bondades ingênuas aos indígenas. Eu provavelmente estava contaminada por essa fascinação por esse mundo tão alienígena que não consegui filtrar essas impressões todas que tive. Mas eu vi. Todo tipo de bondade e de ingenuidade neles. Nesses seres humanos em semi-estado de natureza (ou pelo menos em estado bem mais próximo de natureza do que eu e os meus). E vi, claro, todos os vícios e degenerações nos humanos civilizados. Os únicos vícios que vi nos indígenas foram aqueles que eles aprenderam conosco.

Em meu segundo dia na comunidade, haveria outra apresentação de dança para turistas. E dessa vez eu nem tive para onde correr: me pintaram também. Tá bom, eu nem queria correr, achei legalzão ter minha cara pintada.

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Eu já disse que não cansava das musiquinhas e de assistir às apresentações de dança? Já disse sim. Pois é. E foi lindo de novo.

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Poucas coisas poderiam ser tão lindas a meu ver quanto a relação deles com o próprio corpo. É tudo tão natural e tão nada-mais-além-daquilo-que-é, que em nenhum momento se comenta, discute, analisa ou avalia o corpo ou mesmo sua estética. Corpos simplesmente estão ali. Do jeito que são. Das crianças, dos mais velhos. Lindos.

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Nesse mesmo dia a tarde, o cacique tinha que ir até a vila mais próxima para comprar alguns mantimentos e me convidou para ir junto. E fomos, para Vila Paricatuba.

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O barco do cacique.

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O Rio Negro super negro.

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Uma cidadezinha que poderia muito bem ter sido cenário de alguma aventura do Indiana Jones. Eu assisti Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal, mas lembro muito pouco porque foi mei chatim. Mas essa vila, sei lá, combina com algo do tipo Eldorado. Na época do Ciclo da Borracha, quando a Amazônia inteira florescia economicamente essa vila era bem populosa e maior do que é hoje. O que restaram foram as ruínas e a comunidade ribeirinha que acabou ficando por ali mesmo. A cidade foi abandonada há mais de um século.

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Essa escadaria leva do rio para a Vila, onde logo na entrada fica um enorme gerador abandonado. Aliás, na verdade uma fornalha (e não vou saber exatamente a diferença) que abastecia as edificações com energia.

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E logo depois da fornalha, já aparece a maior ruína de todas.

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Essa construção já teve usos bem diferentes: foi o prédio onde funcionou a cadeia pública do município de Iranduba (localizado a 25k de Manaus), a primeira escola técnica do Amazonas e, logo após, o internato para portadores de hanseníase do estado. Sim, foi um leprosário. E agora não é nada.

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Fiquei fascinada com como a floresta amazônica simplesmente pegou o lugar de volta pra si. Na maior. Como se nada nunca tivesse sido construído ali. Achei lindo demais, e até queria ter passado mais tempo por ali, mas como tava de carona, seguimos.

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A lanchonete que vende din-din a R$ 0,50.

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A coisa que mais me emputeceu nesse passeio todo foi ver tanta igreja, e por tudo. Eu tenho minhas 895 ressalvas contra a Igreja Católica, mas tenho 3x isso com relação a esse tipo de igreja evangélia (Assembléia de Deus, Universal, etc etc etc). Sério, quero que explodam todas, junto com seus pastores. De tudo que já estudei na vida sobre as merdas que os jesuítas e outras ordens religiosas fizeram com os nativos brasileiros, acho que ainda tinha a parte positiva do rolê, enquanto com essas igrejas só vejo destruição.

Aliás, né, quando é que vamos seguir o exemplo da Angola e proibir essas porcarias aqui no Brasil? Quando? (“a força das igrejas evangélicas brasileiras em Angola desperta preocupação. ‘Elas ficam a enganar as pessoas, é um negócio, isto está mais do que óbvio, ficam a vender milagres’.”)

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A volta para a comunidade, com direito a pôr do sol lindo de sempre.

No dia seguinte, café da manhã com mingau de aveia delicioso. E depois saímos de barco eu e mais 4 índios (dois deles recém tinham chegado de São Gabriel da Cachoeira para visitar os parentes). Eu era a única mulher, e confesso que me senti SUPER estranha, porque há alguns séculos que eu não participava do Clube do Bolinha. Mas né? Queria ir conhecer o Amazon Jungle Hotel e o lugar onde eles estão construindo a nova maloca.

O Amazon Jungle Hotel é uma coisa assim de outro mundo e ainda não tenho opinião formada sobre o assunto. É um hotel de selva. Como eu não conheço o Ariaú, não tenho base de comparação. Mas tenho algumas preocupações com relação a exploração gourmetizada dessa região. É um hotel super luxuoso, enorme, com três torres de uns 5 ou 6 andares, tudo TUDO flutuando. Eu não consigo nem imaginar o rolê que deve ser a estrutura pra fazer três torres + tudo que tem dentro flutuar, mas fiquei boquiaberta.

Paramos de barco nele, fomos recebidos pelo gerente que mostrou todos os modelos de suíte e mais as áreas de convivência, restaurante, playground e etc. Acho meio estranho também você querer conhecer a selva e a floresta amazônica desde que de dentro de um hotel mil estrelas totalmente climatizado, mas tá, né. Enfim. O cacique queria ir até lá para se apresentar ao gerente novo, já que esses contatos com hotéis próximos da maloca ajudam a levar mais grupos de turistas para assistir as apresentações deles. Eu tava me sentindo super parte da comunidade e senti, por consequência, o estranhamento desse choque de cultura. Lembra quando falei do quanto era engraçado assistir novela com eles? Pois é, o mundo civilizado é um universo a parte pra eles, tão a parte quando, sei lá, Star Trek é pra gente. E chegar lá no hotel, aquele luxo todo, aquela coisa de outra dimensão, tão distante, tão inacessível… Acho que tive uma coisa meio catártica e senti mesmo esse lance de não-pertencimento. Foi massa.

Em seguida, fomos para o lugar onde eles estão construindo a nova maloca, que vai ser o local onde eles vão se apresentar – não vai mais ser lá onde eles moram. A idéia é fazer xunxo mesmo, eles acham que onde eles estão agora já está “civilizado demais” e fica estranho pro turista chegar lá e ver as pessoas com roupas normais em casas de alvenaria (algumas são, a do cacique não). Então nesse lugar mais afastado vão ficar duas ou três famílias morando bem roots mesmo e nada das poluições visuais modernas.

O lugar que eles conseguiram é lindo, pertinho do Hotel (que pra azar deles será transferido em breve para mais perto de Manaus) e também bem no meio do mato. A maloca já está quase pronta, a armação está ok e agora eles estão amarrando as palhas que vão ser a cobertura. Quase o dobro do tamanho da maloca atual.

A viagem inteira eu fiquei boiando porque eles só falaram tukano (exceto no hotel). E eu ali, usando todos os neurônios possíveis pra tentar contextualizar palavras e entender pelo menos uma coisinha ou outra. Sério, brazew, eu não sei como vocês tem coragem de ir para outro país sem falar nada da língua, É MUITO FODA. Ou eu só descobri que sou muito burra nisso mesmo.

Bom, enfim, o fato que me chamou a atenção nessa parte do passeio foi a seguinte frase em tukano que eles falaram:

“lihefg hweuohfowru jiow oçwaehfeurg chbuheu hvuag njwuhfgo EXTREMA URGÊNCIA liufehui ncoaweuge ncuwgef mciewh wedhbfukw PREOCUPAÇÃO luiwf qjwhbv nfueawy mndewue.”

Tristeza que invadiu meu coração.

As palavras de uma língua se restringem a ser um reflexo do mundo em que o falante está inserido, ou seja, a gente só cria palavras para aquilo que existe para nós e faz sentido no nosso contexto. Por isso dizem que os esquimós tem cents palavras diferentes para neve. Na real, eles têm palavras para cada fenômeno distinto, como a neve que cai, a neve que já caiu, a neve endurecida, a neve derretida ou a neve empurrada pelo vento. Porque não só eles têm neve, como reconhecem diferenças entre as neves e entre as cores delas and so on. Os astecas vão muito mais longe no sentido oposto, pois dispõem de uma só palavra para expressar “gelo”, “frio” e “neve”. Eles nunca cunharam palavras novas para tipos diferentes de neve porque para eles NÃO EXISTEM tipops diferentes de neve.

Ou seja.

Os índios da etnia tukano não sabiam o que era extrema urgência nem preocupação. Isso não existia para eles até terem contato conosco, e nossas obrigações, e nosso estresse, e nossos prazos. Mas que merda. Como não ficar triste sabendo que demos para eles, além da gripe que dizimou tantos, os grandes males da modernidade: a urgência e a preocupação? Putz grila, mano.

Juro, prometo, que essa sequência de posts sobre as minhas férias já está acabando. O próximo será o último. É que realmente é muita coisa para falar. E muito amor pra compartilhar.

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