Comunidade Indígena do Tupé

Acordei feliz da vida, com a mochila pronta para ir pro Tupé. Eu, minha mochila, minha rede. Mas antes, um passeio mais do que especial com a anja da minha viagem, Adrienne. Fomos conhecer o Museu do Seringal.

Fui de bus até a Ponta Negra, um bairro nobre de Manaus e também a sede de tudo quanto é coisa militar do Brasil. É um bairro enorme, e lá se concentram instalações militares, como o CMA (Comando Militar da Amazônia), a PE (Polícia do Exército), o Centro de Embarcações, a 12° Região Militar e outras, muitas outras, infinitas outras.

Chegando lá, encontrei a Adrienne, linda, querida, fofa, simpática e ligada no 220. Quanta energia! E fomos caminhando até a Marina do Davi, de onde saem barcos para algumas comunidades do Rio Negro, inclusive a do Tupé. E pegamos o barquinho para ir ao Museu.

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Para descobrir que o Rio Negro é preto mesmo. 🙂

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O Museu é lindo. Uma linda aula prática sobre o Ciclo da Borracha. O Museu é na verdade o cenário preservado do filme A Selva, uma produção luso-hispano-brasileira de 2002, com Chico Dias e Maitê Proença no elenco. E esse cenário é a reprodução de um seringal que realmente existiu em Humaitá, a 600 km de Manaus.

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A entrada custa R$ 5 e dá direito a uma visita guiada. Em pouco menos de uma hora, você percorre a casa da família do barão, o armazém dos empregados, o barracão dos seringueiros, a capelinha, a sala de banho da Dona Yajá. Também vê como é retirado o látex da seringueira e como era o processo de fabricação da borracha. E achei super legal que a guia explica tudo nos mínimos detalhes, principalmente o que diz respeito à condição de escravidão mesmo, em que os seringueiros eram mantidos — com dívidas impagáveis no armazém. “Manaus foi construída às custas da vida de muitos nordestinos.”

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Como eles faziam a maior parte do trabalho a noite, usavam essa vela na cabeça.

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Em cada seringueira fazem um corte e colocam o copinho. Deixa-se passar uns dias até o copo encher e depois é retirado e levado para casa onde é defumado e colocado em grandes barras de onde vão para as indústrias.

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A casa de banho, linda, olha essa vista! Tinha água na banheira e deu muita vontade de entrar hehehe

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O abrigo onde os seringueiros passavam as noites.

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E o lugar onde defumavam a borracha, enrolando em grandes “novelos”, que depois eram pesados e enviados para as indústrias.

Em pouco mais de uma hora, o passeio acabou, voltamos para a Marina do Davi. E o coração batendo mais forte, pois estavam chegando a hora de ir para o Tupé olhar bem nos olhos do cacique e conquistar o coração dele. Descobri que não tinha barco “de linha” para lá, teria que fretar um. O primeiro menino com quem conversamos queria fazer por R$ 100,00, e a Adrienne pechinchou, chorou, pisoteou até que conseguimos achar outro menino com um barco menos potente (portanto menos gasolina) que cobrou R$ 80,00

Só que, burra, eu estava sem dinheiro em espécie. Tivemos que voltar até o Hotel Tropical para procurar por um caixa eletrônico. Achamos. Do Bradesco. Só para eu descobrir que meu dinheiro tinha acabado. Mas que ótimo. Parada para o “almoço”: açaí. A primeira vez que comi açaí desde que cheguei no Norte. Vou dizer que esse lance de que o de lá é melhor é balela. Açaí é uma delícia, e esses que recebemos aqui no sul e compramos congeladinho fazem muito bem o seu papel.

Bora para o Banco do Brasil ver se lá ainda tinha $$$. Uma amiga dela veio nos buscar e me levou até uma das mil sedes do exército onde tinha caixa do BB. Saquei o que restava da minha fortuna e voltei para a Marina do Davi. Beijo na Adri, subi no barquinho e fui. Eu e o Léo.

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Quarenta minutos depois… Comecei a avistar o lugar com o qual sonhei praticamente 2013 inteirinho.

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Cada vez mais e mais perto…

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Ali. O porto da comunidade. Desci, e sério, eu não sei como meu coração não colapsou, porque eu estava muito, mas muito nervosa mesmo. E quanto mais perto eu chegava, mais o coração acelerava e eu pensei que talvez não fosse nem conseguir falar quando encontrasse o Sr. Domingos (cacique).

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A escadaria que leva até a comunidade.

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A vista lá de cima, que eu não cansava de olhar e fotografar. Meu lugar preferido era ficar ali sentada no banquinho, olhando o rio, sentindo o vento na cara.

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Cheguei na frente da maloca e encontrei a esposa do cacique, que foi chamá-lo. Lá veio o Sr. Domingos, “vestido de índio”, pintado, etc. Expliquei minha situação e pronto, comecei a chorar. 🙂

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Funcionou, apesar de não ter sido planejado, e ele me deixou ficar. Me levou até a casa dele, mostrou onde eu poderia atar minha rede para dormir.

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A rede onde ele dorme, “enrolada” em um mosquiteiro.

Depois voltei lá para frente, onde eles estavam esperando um barco de turistas para quem iriam fazer uma apresentação de danças indígenas. E me vi olhando essas imagens lindas de crianças lindas comendo manga que colheram do pé.

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Os turistas chegaram, a apresentação foi linda, muitas danças, muitos instrumentos cujo nome eu não lembro e nem anotei, mas o som era lindo, delicioso, e eu poderia ficar escutando o dia inteiro que não iria enjoar.

Depois a esposa do cacique me chamou para lanchar. Açaí com tapioca. Comi atééééé quase explodir. Eu já tinha almoçado açaí, mas saca só, não enjoa!

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A casa deles era incrivelmente simples. Chão de azulejo, paredes de armação de madeira maizomeno coberta com palha, rede do cacique num canto, colchão da esposa dele do lado (com uma cortininha que deve servir para que eles tenham alguma privacidade de quando em vez), no outro canto a cozinha, que é basicamente duas mesas e o fogão. Não tinha pia, não tinha água encanada e a energia elétrica so aparecia no horário da novela das 9, via gerador.

A parte mais surpreendente foi o banheiro. Eu nunca tinha visto nem usado “patente”, que é um buraco no chão. Um buraco no chão, umas paredes de madeira e uma toalha como porta. No começo foi BEM esquisito, mas logo acostumei e até acho que faz mais sentido fazer as coisas de cócoras.

A tribo deles na verdade não é dali, eles são de São Gabriel da Cachoeira, fronteira com a Colômbia e Venezuela. Vieram para Manaus quando três filhos do cacique se mudaram para estudar. A mãe não aguentou de saudade dos filhos e vieram cinco famílias, que se estabeleceram ali. Como é área de preservação permanente e reserva estadual, eles não podem plantar. Podem caçar e pescar, mas só para subsistência. Isso faz com que a atuação deles seja bastante limitada, e eles acabam tendo que viver dessas apresentações para turistas.

Entre eles, falam apenas em tukano, uma língua absolutamente alienígena para mim. Não consegui aprender UMA PALAVRA SEQUER nos cinco dias que passei lá. Nada. NADA. Muito frustrante. Comigo eles falavam português, mas se o papo não era diretamente comigo, foda-se, tukano. E é muito massa perceber as palavras que eles NÃO TEM originalmente na língua deles, que daí eles pegam emprestado do português. Então é basicamente “lweuhnxerhcg4 hunc3uk honcucn hfmpo,mnhc primo luicyn hiuntauy ikrhefuigvb oichinuy dia 12 iuaexhcn huejhagbv mij n3wucyuig”. É, eles não tem em tukano os nomes para famíliares não-diretos e nem para números maiores do que dez.

Hora do banho. Óbvio, sem água encanada, o lance era pegar toalha, sabonete e descer pra tomar banho numa lagoa que tinha perto daquela escadaria. Fomos só as mulheres – eu não sei quando exatamente os homens tomavam banho, porque sempre que eu fui éramos só as mulheres.

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A lagoa era paradisíaca. E as crianças brincando nela faziam imagens mais lindas ainda. As mulheres aproveitavam o momento para lavar a louça e as roupas, pelo que eu entendi, cada família tinha a sua armação de madeira.

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Minha vez de entrar na água…

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Daíííí chegou a hora da janta, que foi… TAPIOQUINHA! Frita na margarina e mais nada. Perfeita. Eu amo tapioca e todos os seus derivados, então pra mim não foi nenhum sacrifício.

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E logo em seguida, hora da novela. Aprendi a assistir novela depois de anos com eles. Mas era muito legal assistir com eles, porque todo esse mundo da novela era tão mas tão alienígena que parecia que eles estavam assistindo um programa de humor. Era gargalhada atrás de gargalhada. Elees não dialogavam em nada com a realidade das personagens, tudo era estranho e engraçado pra eles. Pronto, viciei em Amor À Vida, ainda bem que acabou.

A menina Fernanda, neta do cacique, estava ali passando as férias com eles. E se apegou absurdamente a mim, foi bem fofo passar um tempão com ela, conversando, brincando, e repetindo meu nome a cada cinco minutos porque ela nunca decorava.

O café da manhã no dia seguinte foi mingau salgado de goma de tapioca. Bonzinho, mas não muito. Eles pegam aquela farinha de bolinhas de tapioca e fervem com água e sal até ficar parecido com a goma que vai no fundo da tigela de tacacá. Naquele momento, naquela situação, foi quando senti vontade de largar tudo e viver uma vida alternativa. Sim, se você me conhece sabe que eu sempre tenho essa vontade, mas dessa vez, estar em contato com algo tão diferente da minha cidade, das pessoas com quem convivo, foi um choque de realidade incrível. Uma epifania. E eu pensei: cara, o que eu estou fazendo da minha vida? Eu me considero um pouco de resistência, pelas coisas em que acredito e pelas quais luto, mas me senti tão mas tão coxinha e “acomodada” que me deu um incômodo profundo.

Bom. Durante o dia provei duas frutas novas, abiú e ingá. abiu3

Ingá (Inga edulis)

Abiú seria uma fruta perfeita se não tivesse uma cola na casca que deixasse as mãos e os lábios grudentos eternamente. Não tinha jeito de lavar aquilo fora. Ambas as frutas super suculentas, com bastante carne em volta dos caroços. Ingá é especialmente bom, e eu sei que tem bastante aqui na região de Blumenau, mas nunca tinha comido.

Bom, um passo de cada vez, escrever esses posts além de me trazer uma tristeza de saudades ainda me toma um tempão e tenho muitas aulas para preparar. Conto mais no próximo post. 😉

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8 comentários sobre “Comunidade Indígena do Tupé

  1. Pingback: Férias parte IV – Barco para Macapá | Georgia Martins Faust

  2. Lindas imagens, você é uma pessoa abençoada Georgia, adoro estas histórias que expressam amor e
    respeito aos índios. Obrigado por nos encher os olhos com tanta maravilhas.

  3. Procurava por fotos de inga pq plantei um pé o meu quintal, depareime emseus maravilhosos escritos.e cimo vcescreve bemque heito moderno de escrever, linguagem jovem e compreensível. adorei o seu estilo de vida e as belezas naturais e primitivas do nosso brazil que vc curte. Boa sorte..e olha que eu sou uma senhora de 67 anos……

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