Manaus

Sobre minha viagem de barco de Santarém a Manaus, tenho apenas uma observação a fazer sobre as onipresentes crianças: Douglas é um amor, Riquelme é uma praga.

Muito bem.

Cheguei a Manaós. Com os franceses, saímos do Mercado Municipal (depois de comer pão com tucumã e queiro coalho – que é delicioso) e fomos caminhando até o Teatro Amazonas. Gente. GENTE. Mas que lindeza. Aquela cúpula linda com a bandeira do Brasil, 36 mil peças de escamas em cerâmica esmaltada e telhas vitrificadas, vindas da Alsácia. Não dava pra não babar.

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Tanto eu quanto os franceses iríamos nos hospedar em hosts via Couchsurfing. Então, lá estávamos nós, esperando contato dos nossos anfitriões. Sentamos nas mesinhas em frente ao teatro. Logo chegou a hora de nos separarmos, eles iriam para um bairro bem distante daquele em que eu iria. Eles foram de taxi, eu de bus.

Chegando na rua onde eu ficaria, já fui recebida por um amigo: o calango. Gente, amo calangos! A primeira vez que vi foi no Espírito Santo, no parque da Pedra Azul e fiquei absolutamente fascinada. Lagartixas gigantes, tem como ser mais fofo?

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Fui recebida pela Nádia, cunhada da dona da casa, Liah. Almocei delícia e logo saí para F-I-N-A-L-M-E-N-T-E encontrar a minha constante, José Abreu Neto (lembra de Lost? lembra do Desmond? O cérebro de Eloise entrou em curto-circuito, ela não soube diferenciar o que é passado e presente, presente e futuro pois ela não tinha algo a que se apegar: ela não possuía uma constante. Daniel explica sobre a necessidade de Desmond ter uma constante, alguma coisa que esteja presente em todos os tempos e que seja algo que realmente tenha importância para ele. Desmond pega o telefone e liga para sua constante, Penny. Pois é. Se eu ainda sou eu, é porque tenho uma constante desde que o mundo é mundo.). Pois bem, fomos conhecer o Shopping Amazonas e depois dar uma volta pelo centro. Sobre o Shopping, nada de mais, igual a todos os outros shoppings do país.

Achei engraçadíssimo o que o dono da Óticas União fez com os funcionários: os obrigou a se vestir de Festa do Boi de Parintins e ficar dançando na frente da loja. Sim, só podem ter sido funcionários obrigados, porque eles estavam com uma cara de constrangimento que dava pena…

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Aproveitamos para fazer o passeio guiado no Teatro Amazonas. Que consegue ser ainda mais massa por dentro. E com uma história incrível – aliás, como pode ser tão incrível e tão triste ao mesmo tempo? É a expressão mais significativa da riqueza de Manaus durante o Ciclo da Borracha. Toda essa ostentação, feita para uso de poucos, resultado de muito trabalho escravo dos nordestinos. Toda a arquitetura feita para que os MAIS nobres tivessem MAIS destaque do que os MENOS nobres.

Não mudou muito isso por lá, no meio do caminho fiquei sabendo de um bate-boca que o ex-governador e então prefeito bandidasso Amazonino Mendes teve com uma moradora de zona de risco que eu jamais vou esquecer:

Depois do Teatro, fui provar o suco de graviola na Skina do Suco. Gostei. Mas não chega nem aos pés do suco de taperebá, preciso ressaltar.

Voltei para a casa da minha anfitriã e pude conhecer a filha dela, Lulu. Uma super descoberta dessa viagem, a menina é simplesmente minha alma gêmea! Combinamos em tudo! Muito amor.

No dia seguinte, fui bater perna pela cidade. Andei bastantão pelo centro, visitei um Parque lindo, enorme (desculpa aí, Ramiro Ruediger é lixo), cheio de pessoas caminhando, cachorros passeando, crianças brincando, um orquidário…

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Uma pena que meu calçado estava machucando tanto os meus pés (nota mental: havaianas e nada mais). Saí do Parque para fazer a visita guiada ao Centro Cultural Rio Negro. Lindo, suntuoso, cheio de histórias de intrigas, mortes, assassinatos, traições… Parecia novela. Uma coisa em especial me impressionou lá, e foi o quadro cujo nome não lembro, mas retrata as Amazonas em seus cavalos sendo salvas pelas européias, anjos vindo do céu para retirá-las da selvageria.

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Desculpaê européias louras superiores, mas prefiro continuar na selvageria, valew?

Depois fui encontrar a Lulu, que trabalha no Palacete Provincial. Fiquei um tempo do lado de fora fazendo amizade com os cachorros de rua e depois entrei para visitar o lugar. Que também é espetacular. Mas na boa, eu já estava meio de saco cheio de visitar museus e andar pra lá e pra cá e ver obras e exposições… Quando chegou na parte de numismática, que é SUPER interessante, eu já não aguentava mais. E de quebra, a infecção urinária ainda estava me fazendo sofrer.

Lulu saiu do trabalho, voltamos para casa de ônibus (não sem antes provar o sorvete de cupuaçu – não gostei muito). Chegando lá, um chazinho que a Liah preparou para mim com cascas de árvores mágicas resolveu todos os problemas de saúde do mundo.

No dia seguinte era meu aniversário, e qual não foi minha surpresa ao acordar de manhã e ser parabenizada com bolo DELÍCIA e uma homenagem linda no quarto? Sério, eu não mereço tanto mimo. Foi lindo, emocionante.

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Falei em tom de brincadeira para a Lulu: bem que nós poderíamos fazer mais uma tatuagem hoje, né?

Não precisou mais nada. Nos arrumamos e fomos para o centro. Fiz, então, minha sétima tatuagem, perto do cotovelo direito. E Lulu fez o rosto de um gatinho no ombro, lindo! Enquanto ela fazia a tattoo dela, fui em busca de uma ótica que vendesse lentes de contato sem receita, já que eu havia esquecido as minhas em Blumenau e não aguentava mais andar de óculos. Achei, mais de R$ 100 mais caras do que pago em Blumenau. Mas, vaidade venceu a disputa. Manaus, aliás, tem um custo de vida MUITO mais alto do que Santarém, me assustei com o preço de tudo. Comida, roupas, tatuagens, lentes de contato… Tudo um abuso, acho até que mais caro que em Blumenau.

As 18:00 fui para o Bar do Armando encontrar os franceses. Antes fomos na Skina dos Sucos, onde provei suco de jenipapo. Que nojo. Que horror. Que coisa medonha. Parecia que eu tava comendo argila com mato com terra com ervas amargas com cocô. Nunca mais, mesmo. Voto pela extinção do jenipapo – e não to nem aí que é super fonte de ferro.

Os franceses no dia anterior conheceram um cara chamado Adal, que nos encontrou no Bar do Armando. Uma figura de outro mundo. Sério. Ele morou 19 anos na França, é cantor de bar, agora estava há alguns anos de volta ao Brasil. Quando passou pelo Pierre e pela Corinne e os escutou falando francês, já foi puxar assunto e ficaram super amigos. No bar foi super-hiper-mega divertido, mesa poliglota, eu em inglês com eles, eles em francês com Adal, Adal em português comigo e com a namorada… E, claro, meu aniversário, quem poderia querer coisa melhor?

Combinamos de sair de Manaus no dia 08 para passar uns dias em Coari, uma cidade a um dia de barco de Manaus. Pelo que ouvi dizer, não tem nada para fazer lá, mas como é a cidade natal do Adal, ele garantiu que tinha muitos conhecidos lá e teríamos mil coisas para nos divertir. Beleza, na real eu estava com a impressão que já tinha visto tudo que havia para ver em Manaus. Fora os pontos turísticos que eu já tinha conhecido, é uma cidade grande como todas as outras. Eu me sentia meio em São Paulo lá, era diferente de Santarém. muiita gente, muito prédio, tudo muito longe, uma loucura.

No dia seguinte, quase sem ressaca, decidi sair cedo para ir conhecer o Bosque da Ciência, do INPA (Instituto Nacional de Pesquisa da Amazônia). Claro que, bem nesse dia, tinha que chover sem parar. E eu nem lembro da última vez que passei tanto frio em toda a minha vida. Sim, em Manaus. Sim, em janeiro. É. Pois é.

Mas algumas coisas valem muito a pena, como ter feito meu lanche da manhã juntinho da arara mais simpática da Amazônia:

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Os peixes-boi são de deixar qualquer um boquiaberto. Imagina eu, então, cuja boca cai por qualquer motivo:

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Caminhei pela trilha suspensa e cheguei até as tartarugas amazônicas. Sei não se não ultrapassou a lotação máxima daquela lagoa, porque eram MUITAS tartarugas por metro quadrado.

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Continuei na trilha, que agora não era mais suspensa. E tava meio entediante, porque poxa… Desde quando TRILHA é feita de ladrilhos? Era uma estrada, isso sim. E eu queria trilha. Até que achei uma e entrei clandestinamente, quando não tinha ninguém olhando.

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AGORA SIM! Floresta! E eu lá, super esperando encontrar todos os bichos do mundo e querendo abaraçá-los todos. Que nada. Bicho nenhum veio me recepcionar. Vi uns sauins de coleira correndo/pulando pelas copas ds árvores, foi lindo, chamei mas eles não vieram. Fuén. Bom, segui na trilha clandestina até ela terminar, e definitivamente é BEM mais legal do que pela estrada que eles chamam de trilha.

Até que meu telefone tocou…

E eis que um historiador da UFAM me descobriu por meio de amigos em comum (Sete Graus de Kevin Bacon) e me ligou, me chamando para ir tomar um café no escritório dele e conversar sobre a possibilidade de eu passar uns dias em uma comunidade indígena.

Coméquié?

Passar uma semana ou mais em uma comunidade indígena era o grande sonho para essa viagem, que eu vinha tentando descolar alucinadamente desde que soube que iria para Manaus. Meses e meses de procura, pesquisa, telefonemas, contatos, e nada nunca dava certo, ninguém me retornava, nada. Já não contava mais com isso. Até que o Luiz Almeida me ligou.

Saí correndo do Bosque da Ciência, fui até o escritório dele ao lado do Hotel Mônaco. E ele me explicou mil coisas, me fez mil perguntas, etc etc etc até me dizer que achava que eu conseguiria ficar alguns dias na comunidade indígena do Tupé. Só um problema. Ele não tinha mais o telefone do cacique. Ou seja: eu teria que dar um jeito de ir até o Tupé, mala e cuia, e torcer fervorosamente para que o cacique fosse com a minha cara e respondesse afirmativamente quando eu falasse: Oi! Sou Geórgia, e vim pra ficar, pode ser? 

Bom. Meu pai me ensinou desde sempre: doido não é quem pede, doido é quem dá. Na pior das hipóteses, eu conheceria mais um canto de Manaus. Ou seja, só lucro. Mas e o frio na barriga? Como lidar?

Saí do escritório do Luiz para ir ao centro encontrar os franceses e o Adal – na real esse era o momento em que iríamos nos encontrar para dormir no Adal e partirmos para Coari na manhã seguinte, mas… Mudança de planos. Então fui até lá para tomar a última cerveja com eles e explicar da minha nova rota. Nos encontramos na Sorveteria Glacial e dali fomos para a casa do Adal, onde conheci o filhotão mais fofo da Amazônia:

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Saímos da casa do Adal depois de tomar umas caipirinhas muito estranhas – franceses não sabem preparar caipirinhas, #fikadik – para irmos até o porto comprar as passagens deles para Coari. CARA. O Adal tem um Puma! UM PUMA! Super mágico! E nós, super bobos, passeando de Puma conversível por Manaus… Foi demais!

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E ele é completamente apaixonado pelo carro. Agora eu também!

Voltando para o centro, jantamos num carrinho de churrasquinho na rua do Teatro. O único lugar onde se come barato em Manaus. R$ 3,00 o churrasquinho, R$ 5,00 com os acompanhamentos – baião-de-dois, maionese, vinagrete e farinha de mandioca. Paguei R$ 3,00 só pelos acompanhamentos, e realmente era delicioso.

No Bar do Armando de novo, mais uma vez, porque gostamos de pagar caro por cerveja.

Mesa cheia, e meu amigo Eduardo também deu uma passadinha a jato para me conhecer pessoalmente.

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Tudo lindo, muito divertido, muito cheio de amor, até chegarem uns advogados. Sim, os tais advogados. Que começaram a infernizar a vida de todo mundo. Chegaram ao ponto de lançar um rojão pro outro lado da rua, na sorveteria Glacial, que estourou embaixo da mesa de umas pessoas. Os caras da mesa vieram tirar satisfação com eles, que reagiram SUPER agressivamente, falando coisas do tipo: quem você pensa que é, a polícia? sabe com quem tá falando? quem manda na polícia aqui em Manaus sou eu!

Depois de uma meia hora de zuêra por parte desses completos idiotas, que estragaram a noite de todo mundo, e naquele momento estavam tirando sarro da cultura cabocla e ribeirinha, decidimos ir embora. Sim, era impossível aguentá-los. Mas eu, pavio curto esquentadinha que não leva desaforo pra casa, não podia deixar por menos. Ao sair, virei para eles e falei: olha, me desculpem, mas vocês são completos idiotas.

Realmente senti medo de ser agredida, pois os três vieram com tudo para cima de mim. Quem você pensa que é? De onde você é? Respondi que era de Santa Catarina. E lá em Santa Catarina, que só tem putaria?

Eu não disse que Santa Catarina é melhor, só estou dizendo que vocês são completos idiotas. E que estragaram a noite de todo mundo. E que de todos os dias fantásticos que passei aqui no norte, vocês são A ÚNICA lembrança ruim que eu vou levar aqui do Norte.

Acho que escolhi as palavras certas, porque dois deles pediram desculpas. O terceiro saiu puto, batendo pé e bufando. Fui embora, de carona com um amigo do Adal que me levou até em casa. Era hora de arrumar minha mochila, dobrar minha rede e me preparar para ir para o Tupé. Mas sobre isso, só no próximo post.

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