Primórdios do conceito de gênero

Logo no começo do artigo de Heleieth Saffioti (Primórdios do conceito de gênero), ela já menciona a Gayle Rubin e o artigo “The Traffic in Women”. Não preciso de mais nenhum incentivo, já é a milésima vez que eu cruzo com menções a esse trabalho então está mais do que na hora de lê-lo.

Independente de conhecer a obra de Heleieth ou não, ela já merecia minha admiração por ter sido orientada por Florestan Fernandes (suspiros) em sua tese de livre-docência. E ter lido esse artigo dela foi uma experiência quase íntima. Achei especialmente interessante a forma com que ela escreveu como se estivesse tendo um bate-papo, sem todos aqueles academicismos, que para mim, leiga e recém-iniciando nessa estrada, foi ótimo. Menos frieza, mais fofice.

Mas enfim… O texto faz uma leitura crítica de O Segundo Sexo, de Simone de Beauvoir. Que sim, eu já deveria ter lido, mas xápralá. Confesso que, pelo título, eu esperava uma abordagem mais consistente do conceito de gênero em si, mas ela acaba apenas “analisando a análise” de Beauvoir (“On ne nait pas femme, on le devient”).

Ela levanta o ponto de que muitos consideram a idéia de Beauvoir uma cópia do existencialismo de Sartre, o que explicaria o desinteresse pela obra (existencialismo is sooooo last season). Desinteresse esse que eu particularmente não vejo, pois todo em todo contato que eu tenho com feministas militantes ou não, sempre se menciona o Segundo Sexo como obra basilar para qualquer práxis feminista. Mas isso me faz lembrar de um comentário que eu li em algum lugar em algum dia (não, não faço a mínima idéia onde nem quando) que Sartre é algo que só se lê ainda no Brasil, e é considerado ultrapassado em *todos* os outros lugares. Talvez o interesse acadêmico brasileiro por Sartre é que impulsiona o interesse do feminismo brasileiro por Beauvoir????

“Dependentes emocionais somos todos nós, homens e mulheres, quer nas relações amorosas, quer nas relações de amizade. E isso advém da nossa necessidade de obter aprovação social e afeto.”

Achei essa declaração extremamente relevante, especialmente quando penso nas expectativas sociais com relação às mulheres feministas: esperam que estejamos numa vibe pós-apego-emocional. E até me lembra de alguns episódios  pessoais em que tive minha expressão emocional reprovada sob a acusação de estar me comportando como “mulherzinha”, e não como uma feminista. Lendo isso vindo de Heleieth, me senti legitimada a ter coração 🙂

O texto também fala do conceito de gênero em relação a obra e Marx, de certa forma dialogando com a minha leitura anterior, da Donna Haraway. Também menciona a falta de conhecimento histórico de Beauvoir, que sofreu muitas críticas por não ter essa familiaridade com o ofício de historiador.

Quando ela fala que:

“houve espaços/tempos em que a maioria das mulheres alcançava a transcendência e em qualquer espaço/tempo sempre há mulheres que não se limitam à imanência”

… eu me perguntei que espaço e tempo foram esses e que transcendência foi (é) essa. Mas com o tempo saberei.

E a mensagem final, sempre mencionada, sempre verdadeira:

É preciso aprender a ser mulher, uma vez que o feminino não é dado pela biologia, ou mais, simplesmente pela anatomia, e sim construído pela sociedade.

Uma frase tão simples mas com tantas implicações na vida prática, a começar pelo onipresente “rosa é cor de menina” ou “uma mulher só é completa quando é mãe”. Tão aí Simone e Heleieth como exemplos, lindas, fantásticas, geniais, e sem filhos*. Quantos anos teremos que esperar até que o conceito da feminilidade como biológica seja superado? Simone já falou isso em 1949, há 63 anos atrás e eu ainda me vejo envolvida em discussões malucas no estilo homem-não-vai-lavar-a-louça-enquanto-tiver-mulher-nessa-casa. Say what?

* Eu sempre sinto que tenho que explicar quando falo da não-maternidade, porque a primeira coisa que subentendem disso é que eu odeio crianças e sou contra todas as mães do mundo. Saca só: na verdade eu só acho que maternidade não  é natural porcaria nenhuma e que uma mulher pode ser totalmente plena, realizada e feliz sem ser mãe. E, claro, torço para que todas as minhas amigas, irmãs e parentas tenham muitos bebês pq eu amo ser tia mais do que tudo nesse mundo. 😀

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