“Gênero” para um dicionário marxista

Donna Haraway não escreveu só o Manifesto Ciborgue. Donna Haraway escreveu um texto que me marcou muito, e que nesses últimos tempos no meio da enchente de artigos para a pós, eu tinha até esquecido dele e de tudo que ele me proporcionou: “Gênero” para um dicionário marxista. Ele foi fantástico. Fantástico porque ela fez uma análise das interpretações da palavra “gênero” e sua problemática para poder redigir um verbete para Geschlecht. E gênero aqui no Brasil não é o mesmo gender nos países anglófonos que não é o mesmo geschlecht na Alemanha que não é o mesmo género da Espanha que não é o mesmo blablablawhiskassachet. Nosso idioma é marcado por raça, geração, gênero, região, classe, educação e história política. As palavras se constróem de maneiras diferentes e adquirem significados diferentes – às vezes diametralmente diferentes – apesar de a tradução “simples” ser a mesma.

As palavras modernas em inglês e alemão, “Gender” e “Geschlecht”, referem diretamente conceitos de sexo, sexualidade, diferença sexual, geração, engendramento e assim por diante, ao passo que em francês e em espanhol elas não parecem ter esses sentidos tão prontamente. Palavras próximas a “gênero” implicam em conceitos de parentesco, raça, taxonomia biológica, linguagem e nacionalidade. O substantivo “Geschlecht” tem o sentido de sexo, linhagem, raça e família, ao passo que a forma adjetivada “Geschleschtlich” significa, na tradução inglesa, sexual e marcado pelo gênero.

E daí por diante ela começa a destrinchar historicamente a construção da palavra gênero e as associações e implicações dela em diversas línguas, países e culturas, articulando o problema nos escritos de Marx e Engels – cujas abordagens tradicionais não levaram a um conceito político da palavra.

Na verdade, no topo da minha ignorância, fiquei até surpresa pelo fato de a questão de gênero ter sido levada em conta at all nos escritos de Marx e Engels. E eles quase me cooptaram, quando explicaram a posição subordinada da mulher como divisão natural do trabalho, colocando a relação econômica de propriedade como base da opressão das mulheres no casamento. Como a minha história de vida deu-se do jeito que deu, isso fez todo o sentido do mundo para mim. Mas olha a pegadinha que tem aí: heterossexualidade inquestionável. Como se, portanto, mulheres não casadas fossem automaticamente livres, e lésbicas fossem livres, e viúvas fossem livres.

Outro ponto alto do texto é quando ela menciona que nossas formulações ocidentais de sexo e gênero estão intrinsecamente ligadas à crença de que as mulheres fazem os bebês, e os homens fazem a si mesmos – maternidade natural e paternidade cultural. Quando em algumas sociedades com dinâmicas diferentes dessa e ainda assim a problemática de gênero existe.

Já quando cheguei na parte da questão da mulher negra é que meu coração bateu mais forte. Pois a questão de raça também é outro grande interesse meu.

Nos Estados Unidos, as mulheres negras não foram constituídas como “mulher”, como o foram as mulheres brancas. As mulheres negras foram simultaneamente constituídas, racial e sexualmente – como fêmea marcada (animal, sexualizada e sem direitos), mas não como mulher (humana, esposa potencial, conduto para o nome do pai).

A escravidão produziu grupos inteiros de pessoas como propriedade alienável. E aí, quando ela disse que “as mulheres livres eram trocadas num sistema que as oprimia, mas as mulheres brancas herdavam mulheres e homens negros” eu pude entender com total clareza (e não mais empiricamente) como a questão da mulher negra é tão mais complexa e mais grave nos países do Novo Mundo que tiveram o racismo como instituição fundadora. “Dar à luz (sem ser livre) ao herdeiro da propriedade não é a mesma coisa que dar à luz (sem ser livre) à propriedade.”

No final das contas eu sinto que preciso urgentemente que meu dia tenha mais horas, que meus olhos e costas doam menos, porque eu quero – e preciso – ler tantas, mas tantas coisas…

Qualquer sujeito inteiramente coerente é uma fantasia, e a identidade pessoal e coletiva é precária e constantemente socialmente reconstituída.

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Um comentário sobre ““Gênero” para um dicionário marxista

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