Sobre quando eu perdi o amor da minha vida.

Mais ou menos um ano depois de o meu relacionamento mais longo e significativo ter terminado, eu entrei em uma vibe bem depressiva de luto. Na verdade todo fim de relacionamento traz consigo uma fase de luto com a qual eu acho que não sei lidar muito bem, penso. Existe uma política que eu sempre levei a ferro e fogo e facilidade com relação a amigos mas nunca consegui racionalizar muito bem quando o assunto é alguém que dividia a cama e a vida comigo: pessoas vêm e vão.

Então.

Daquela vez não foi só o término de um relacionamento qualquer – o que já seria complicado por si só. Mas foi o momento em que eu realizei que não amava mais o amor da minha vida. E tipo como assim, né? Como é que a gente não ama mais o amor da vida? Deixar de amá-lo talvez significaria que ele nunca fora o amor da minha vida, mas eu sempre tive essa certeza, desde o dia em que o conheci, de que ele era o amor da minha vida. Como é que se enterra isso?

Amores da vida não foram feitos para enterrar, foram feitos pra viver felizes para sempre com a gente. E quando o feliz não é para sempre, ou pior, e quando o feliz nem feliz é?

Meu relacionamento não deixou loose ends, ele acabou porque acabou mesmo. Não restou nada a se fazer nem a se falar, e nunca houve a sensação de o-que-poderia-ter-acontecido-se-nós-tivéssemos-tentado-mais-um-pouco. O namoro definhou lentamente durante os seus três últimos anos em que eu me agarrei nele como um náufrago em uma tábua, exatamente porque eu não admitia abrir mão do tal amor da vida. E foi morrendo, morrendo, de um jeito bem triste, com muito mas muito sofrimento mesmo até o momento em que não havia mais motivo nenhum para ele existir. E ele desapareceu.

E desde o dia do desaparecimento desse amor (estou falando do sentimento, não da pessoa) eu tenho momentos de vivenciar essa perda. Que pode muito bem ser apenas uma alegoria para o meu amadurecimento (minha psicanalista disse isso), para o momento em que eu me dei conta de que esse amor-da-vida não existe nem nunca existirá. E que hoje eu estou pronta para um relacionamento adulto. Eu não acreditei nela. Pois se fosse só um amadurecimento, não causaria essa tristezinha que sinto de vez em quando. Pelo contrário, talvez seria até fonte de satisfação. Mas não. Para mim, dessa perda ficou apenas a marca de uma puta desilusão e a certeza de que esse amor levou um pedaço muito grande de mim que nunca, jamais poderá ser substituído. Porque eu nunca mais vou conseguir me entregar daquele jeito e correr riscos como corri e jogar tudo pra cima, porque eu sempre vou ter medo, eu sempre vou ter cuidado, eu sempre vou pensar duas vezes e eu sempre vou manter muita certa distância.

Em diversos momentos eu penso como pode uma pessoa estar tipo DENTRO (física e metaforicamente) de você e de repente não significar NADA pra você. E lamento o endurecimento desse coração. E sim, em diversos outros momentos essa é uma decisão consciente minha: eu não quero e não vou nunca mais passar o que eu passei, que foi devastador. E em 100% do tempo eu sequer desejo ter algo diferente do que tenho hoje. Quem me conhece sabe que eu sou completamente apaixonada pela minha vida, por cada minuto dela. Mas experiencio essas indagações, SINTO essas indagações.

Hoje é o post tristinho, porque estou assim. Mas ainda quero falar sobre o quanto é legal ser sozinha e o quanto podemos aproveitar a vida assim. Bora empoderar as solteironas!

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5 comentários sobre “Sobre quando eu perdi o amor da minha vida.

  1. Rolou uma identificação bem grande. Eu casei bem nova, basicamente com o primeiro cara da minha vida e tinha certeza de que seria pra sempre. Naquela época eu era outra pessoa, mais ingênua, mais conservadora, mais preconceituosa, etc.
    Aconteceram muitas coisas e lembro como foi dolorido perceber que não era pra sempre, que toda aquela entrega não significava mais nada…
    Enfim, me considero uma pessoa muito melhor hoje em dia e acredito que em parte se deve a esses acontecimentos (da minha vida afetiva) também. E quanto ao amor, eu reeditei totalmente as minhas concepções, expectativas e modos de viver e me relacionar. Então está tudo bem, mas vez ou outra penso em como eu seria se continuasse naquela vida que eu achava “perfeita”.

  2. rsrsrsrs. Tô rindo aqui, pensando como posso concordar tanto com uma pessoa que nem conheço! Como você pode ter escrito esse texto que parece estar falando da minha história, se nós nunca conversamos! Mais uma vez parabéns pela linda escrita!

  3. De repente do riso fez-se o pranto
    Silencioso e branco como a bruma
    E das bocas unidas fez-se a espuma
    E das mãos espalmadas fez-se o espanto

    De repente da calma fez-se o vento
    Que dos olhos desfez a última chama
    E da paixão fez-se o pressentimento
    E do momento imóvel fez-se o drama

    De repente não mais que de repente
    Fez-se de triste o que se fez amante
    E de sozinho o que se fez contente

    Fez-se do amigo próximo, distante
    Fez-se da vida uma aventura errante
    De repente, não mais que de repente

    (Vinicius de Moraes)

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