Adolescentes, esse mistério.

Não importa quanto tempo eu passe com eles, não importa o quanto eu estude sobre eles, o mais interessante do adolescente é que ele sempre, mas sempre mesmo, te surpreende. Serezinhos mutantes.

E eu, com essa minha cabeça meio porraloca (só meio, hein) sempre me dei muito bem com eles. Desde quando eu também era apenas uma adolescente, até hoje, quando sou uma jovem senhora. Sempre gostei de estar perto deles e de conversar e até – admito – me comportar como eles. Falamos a mesma língua. Meu último aluno novo, de 14 anos, disse pra mãe dele que gostou de mim porque eu sou jovem. HAHAHA. Tá bom, sou jovem.

Mas a mesma capacidade incrível que os adolescentes têm de me surpreender positivamente, eles também tem para me surpreender negativamente. E nessa semana que passou em especial eu levei uma paulada que me quebrou as pernas (tudo sentido figurado, gente) e fiquei extremamente triste. Mesmo.

Um representante dessa espécie exótica adolescêntica estava seguindo um caminho que eu estava achando muito legal. Começou a ter aulas com um professor de sociologia novo na escola, começou a problematizar a realidade em que ele estava inserido, a questionar seus próprios privilégios, teve aquelas epifanias que praticamente todos nós temos em algum momento de nossas vidas. Fazia mil perguntas pra mim, sobre o céu a terra a água e o ar, e vinha com umas tiradas muito bem sacadas, e eu ali, naquela expectativa louca de que, de fato, seria um jovem reacionário a menos no mundo. Vibrava sempre com as novas “descobertas” dele.

E a gente quando convive muito com eles acaba virando meio mãe, né? Do tipo de se preocupar, de querer tudo de bom no mundo, de torcer, de ficar ansiosa pelo resultado da prova, de ficar triste quando leva um pé da namorada. Professores conhecem bem essa sensação, penso. E aí, talvez seja errado, mas também considero inevitável, criam-se expectativas com relação a decisões e atitudes e comportamentos.

No último contato que tive com ele, parecia outra pessoa. Acho que a pressão de vestibular apertou, os professores deram uma lavada cerebral nos alunos, falaram umas frases de efeito, sei lá que porra que deu-se. Só sei que o que rolou de dane-se os outros, eu quero mais é garantir o meu não tá no gibi. E cada vez que eu ouvia alguma coisa desse tipo meu coração sangrava um pouquinho mais. E foram várias coisas desse tipo. Eu vou me dar bem de qualquer jeito, porque vou herdar blablabla. E fiquei pensando no quanto toda essa plasticidade cerebral deles às vezes pode funcionar contra a gente. E ao mesmo tempo, no quanto deve ser muito, mas muito foda MESMO reconhecer privilégios e abrir mão deles numa fase em que sucesso e fracasso nas escolhas profissionais são tão relevantes e tão cobrados pelos pais, pelos professores, pelos amigos, pela sociedade como um todo. A velha dúvida que eu já vi tantas vezes: gosto de filosofia, mas não dá dinheiro. E acho que sim, eles acabam racionalizando algumas escrotices pra tentar explicar algumas escolhas individualistas que vão “garantir” não o pão de cada dia (porque esses adolescentes a que me refiro jamais vão ficar sem o pão de cada dia), mas um xunxo na largada, pra sair um pouco a frente dos outros.

Enquanto isso, na Gatolândia, eu sigo firme e forte na minha determinação de ser menos consumista, menos especista, menos capitalista, menos dinheirista e menos todos os istas do mal e mais no caminho de uma futura comunidade feminista-animalista-anarquista-naturista-separatista-veganista.

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  1. Pingback: “O dia mais triste da minha vida foi na escola.” | Rainfalls and hard times

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