Para uma Pedagogia do Corpo

Encontrei esse artigo em inglê,s li toda feliz, e daí descobri que o autor é brasileiro (Marco Tulio de Urzeda Freitas). Então, obviamente, fui procurar uma versão do artigo em português pra indicar aqui e NÃO ACHEI. Então vou fazer uma tradução livre, porque realmente gostei do que li.

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Para uma Pedagogia do Corpo

O que é o corpo? O que o corpo representa socialmente e culturalmente? O que o corpo pode dizer sobre nós? O que o corpo pode dizer sobre o lugar de onde viemos/falamos? Como o corpo pode refletir nossos sentimentos, experiências e posições? Como nossas identidades e desejos se relacionam com nosso corpo? Como o corpo se relaciona com a cdiferença, com a opressão, e com a liberdade? Qual a importância do corpo no arranjo da sala de aula?

sala-de-aula

Todas essas perguntas emergiram da minha experiência como professor de inglês no Brasil. Mas antes de explorar as implicações pedagógicas dos corpos, vamos assistir dois vídeos que podem nos ajudar a entender o que é o corpo e porque ele é importante. O primeiro deles é sobre a construção social de raça:

Por um lado, é um vídeo muito triste, mas por outro lado, é possível aprender muito de seu conteúdo, que basicamente reflete a construção social de raça através do corpo. Ao dizer que bonecas brancas são legais e bonitas e que bonecas negras são más e feias, as crianças negras associam pessoas brancas (ou branquitude) com bondade e beleza e pessoas negras (ou negritude) com maldade e feiúra. Essa associação torna-se ainda mais séria quando percebemos que essas crianças estão totalmente conscientes do lugar de onde vêm/falam: elas não apenas reconhecem mas reafirmam os significados associados à sua própria raça/cor da pele. Colocado de modo difernete, as crianças negras dizem o que dizem baseadas em algumas características que elas carregam (pele e olhos escuros etc) e algumas outras características que elas não carregam (pele branca, olhos azuis etc) em seus corpos, características que as levam a classificar a si mesmas como más e feias. Resumindo, elas simplesmente reproduzem os significados atribuídos a seus corpos, e portanto suas declarações refletem o que elas aprenderam: que ser negro é ser mau e feio; que ser negro é ser pior.

O próximo vídeo também nos ajuda a entender os significados e importância do corpo:

Diferentemente do primeiro vídeo, esse foca na violência derivada do que nós podemos chamar de desobediência ou subversão das normas de gênero. A filósofa feminista Judith Butler conta a história de um garoto que foi assassinado por caminhar de um jeito “feminino”. Mas, como ela coloca: “Por que alguém seria assassinado por causa da maneira que caminha? Por que aquele caminhar seria tão perturbador para aqueles outros garotos?” Em minha opinião, o garoto foi morto porque seu corpo não “disse” e/ou “mostrou” o que o público em geral, representado por aqueles outros garotos, queria “ouvir” e/ou “ver”. O fato é que sua maneira de caminhar transgrediu e contestou as normas de masculinidade de alguma forma “autorizou” os garotos considerados “normais”, “corretos”, e “obedientes” a puní-lo com a morte. Em outras palavras, o jovem garoto foi morto porque seu corpo não refletiu aquilo que ele deveria ter aprendido: a se mover, a caminhar, a se comportar como homem. Seguindo o argumento de Judith Butler, nõs poderíamos dizer que tal tragédia representa um profundo pânico, medo e ansiedade relacionados às normas de gênero e, consequentemente, ao corpo.

Esses vídeos nos ajudam a entender os significados atribuídos e a importância do corpo porque ambos confirmam a idéia de que nossos corpos refletem o lugar de onde viemos/falamos. De acordo com a educadora feminista brasileira Guacira Lopes Louro, porque nossos corpos são significados e re-significados pela cultura, eles “consistem de uma referência que ancora, em última instãncia a identidade”. De maneira similar, a linguista feminista brasileira Joana Plaza Pinto declara que “o corpo, em oposição àquilo que possamos pensar em uma aula de biologia, não é anatomia; o corpo é, antes de tudo, um lugar de significados.” A ideia de que nossos corpos representam quem nós somos e qual nosso lugar na sociedade; eles refletem nossas identidades e diferenças, eles de alguma forma referem-se às nossas experiências e desejos, levando a aceitação ou rejeição, à liberdade ou punição. No primeiro vídeo, nós pudemos ver que as crianças negras reconheciam seus corpos como sendo o locus da diferença, o que faz com que elas reafirmem algumas visões estereotipadas do corrpo negro. Da mesma forma, o segundo vídeo revela os efeitos produzidos por nossos corpos, com ênfase especial nas consequências de sua desobediência e subversão. Ambos os vídeos indicam que o corpo é circunscrito em ideologias que o guia e regula, que nos permite alegar, assim como o filósofo francês Michel Foucault, que “o corpo por si só é investido com relações de poder”.

A respeito do arranjo em sala de aula, todas essas reflexões apontam para o que eu chamo de Pedagogias do Corpo: um conjunto de estratégias pedagógicas visando desvendar opressões e marcas de diferença na sala de aula; elas procuram problematizar e desconstruir a subalternidade relegada aos corpos considerados “estranhos”, “anormais”, “errados”, “sujos”, e “inadequados” sem forçá-los a se encaixar nos padrões hegemônicos de ética, aparência e moralidade. Desta forma, as Pedagogias do Corpo entendem o corpo como um lugar de significados, e como tal encorajam professores a considerar seus alunos e a si mesmos como presenças encarnadas, ou seja, como pessoas que têm sentimentos, experiências e desejos diferentes para compartilhar através de seus corpos. Esse foi o foco do workshop “From Critical Pedagogy to Pedagogies of the Body: Debating Race, Gender, Sexuality, and Education”,  que eu apresentei ano passado na UNICAMP, durante o VIII ENUDS (Encontro Nacional Universitário de Diversidade Sexual). Este, também, é o conceito que eu gostaria de propôr aos educadores brasileiros e latino-americanos que têm procurado por maneiras de situar, melhorar e descolonizar suas práticas pedagógicas, para tornarem-se cientes e mudarem as disparidades sociais, e finalmente, para contribuírem para divulgar as vozes, o conhecimento e as lutas contra-hegemônicas articuladas na America Latina.

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