Capacitistas – somos todos.

O ser humano, essa coisa adorável, sempre sempre SEMPRE vai encontrar uma forma de se diferenciar dos outros seres humanos. Não, se fosse só se diferenciar tudo bem, eu também adoro ser diferente. Mas não é só a questão de ser diferente. É a questão de ser SUPERIOR aos outros. Sempre haverá algum motivo fictício usado para justificar maus tratos, segregação, humilhação daqueles que não possuem aquela característica-concedente-de-superioridade. E essa escrotice humana explica a existência dos infinitos tipos de preconceitos, e quando a gente pensa que já está por dentro de todos, vem mais um conceito pra gente aprender.

21.-Capacitismo-Dora-Leroy

Capacitismo. Já é palavra velha dentro do ativismo, mas ainda não está na boca do povo. Tanto que nem apareceu ninguém ainda pra dizer que isso é #mimimi ou que simplesmente não existe por aqui (que nem o racismo, né? não existe no Brasil, esse país miscigenado. #sqn)

Capacitismo é um termo utilizado para descrever a discriminação, opressão e abuso advindos da noção de que pessoas com deficiência são inferiores às pessoas não portadoras de deficiência.

Ah, ok, preconceito contra deficientes físicos, beleza, mole, qualquer um entende facinho. Mas não. Porque quando falamos em discriminação e preconceito, não estamos apenas falando daqueles abusos ativos que já sabemos serem errados, aqueles que a gente vê na novela, de botar o pé na frente pro outro tropeçar ou não aceitar empregar uma pessoa com determinadas características. A parte difícil do rolê é que capacitismo também inclui a opressão passiva, uma coisa que eu considero EXTREMAMENTE difícil de perceber, de reconhecer e de evitar. Em miúdos, esse preconceito passivo significa tratar as pessoas com deficiência com pena, caridade, ter uma atitude paternalista,como se eles fossem completos incapazes. Para mim, que faço trabalho voluntário desde SEMPRE, vejo cada vez mais o quanto ajo de maneira errada (pra não usar adjetivos mais ofensivos) ao achar que preciso salvar pessoas e que pessoas precisam de mim.

Enquanto todo mundo vê a caridade como a coisa mais bonita do mundo, nem sempre é assim que funciona (claro, depende da caridade, mas acho que você é capaz de entender sobre o que me refiro). Quando você se coloca na posição de PESSOA-QUE-DÁ perante uma PESSOA-QUE-VOCÊ-ACHA-QUE-PRECISA-DA-SUA-AJUDA, o que está acontecendo na verdade é uma tremenda manifestação de arrogância da sua parte. Pois, para imbuir-se do papel de PESSOA-QUE-DÁ, é só porque você pensa que a pessoa diferente (no caso, com deficiência), é inferior a você, menos apta de gerir sua própria vida, desprovida de autonomia… E continua… Desamparada, assexuada (já vi muita gente horrorizada ao descobrir que deficientes físicos ou pessoas com síndrome de down também transam!), economicamente dependente, e, por fim – e como indissociável consequência – , menos humana.

PÁ.

Eu não sei se preciso realmente dissecar as implicações e consequências de quando consideramos alguém menos humano que nós. Quando é para fazer a caridade paternalista, todos aprovam, claro. Mas tem relação com a produção de poder – quem detém o poder, que é aquele que ajuda, e aquele que é desprovido de poder, recebendo ajuda. E, claro, isso apenas acontece com portadores de desnormalidades pois se baseia num padrão estabelecido de “perfeição”, um corpo padronizado e perfeito. E ao mesmo tempo em que essa relação de poder mantém aquele-que-dá numa posição superior modelo com sua profunda e sincera empatia, mantém os diferentes em uma situação de subordinação, sempre desamparados, sempre dependentes, sempre limitados e tendo que agir de acordo com o que lhe é esperado: docilidade e discrição são essenciais para continuar recebendo ajuda.

Agora fica aquela pulga atrás da orelha: como continuar oferecendo meu tempo livre e minhas habilidades (que são poucas, mas quero compartilhar mesmo assim) sem  ser capacitista?

Recomendo, fortemente, que escutem a edição sobre capacitismo do falecido podcast feminista We Can Cast It!, que você encontra AQUI.

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