Meu dia na Câmara – Rico odeia pobre, lembre-se disso.

Faz muito, mas muito tempo que eu estive em Brasília. Na verdade a saudade é tão grande que parece até que faz anos. E eu ainda não falei sobre a experiência mais fantástica que rolou num dos dias que passei lá. Em Brasília eu descobri que não sei NADA sobre política, sobre democracia representativa, sobre nada de nada nenhuma. Acho que essa minha burrice extrema ajudou no meu embasbacamento constante, tudo lá era uau, sério? não acredito!

Então, o programa em um dos dias que eu estive lá foi ir assistir a uma sessão da Câmara dos Deputados. Olha. Mas que burra. Eu nem sabia que qualquer um podia entrar na Câmara, por ser uma coisa tão mistificada na minha cabeça. Mas pois é. Qualquer um pode entrar na Câmara. E eu achei isso de uma boniteza, sabe. Qualquer um pode entrar na Câmara. Eu posso. Você pode. O Eike Batista pode. O flanelinha pode. ❤

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(Abro um parênteses para dizer que acabei de ler um artigo na Exame falando que depois da invasão do plenário da Câmara dos Deputados por manifestantes dias atrás, líderes partidários estudam a adoção de medidas para restringir o acesso de pessoas às dependências da Casa. Também estão sendo discutidas regras mais restritivas para acesso ao plenário, como impedir a entrada de assessores e jornalistas no local. Não preciso dizer depois desse parágrafo acima que isso me apavora muito, né?)

Bom, conseguimos entrar no Congresso com alguma dificuldade e uma longa caminhada. E fomos assistir a uma sessão. Levei tipo uma hora só para entender o que estava acontecendo, de onde vinha aquela voz (tinha microfone por todos os lados), como funcionava o painel de votação, etc. Quando finalmente entendi vi o quanto a coisa toda é emocionante.

O projeto que estava em votação aquele dia era a Lei Complementar 200/12, que extingue a contribuição social de 10% sobre todo o saldo do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS), devida pelos empregadores no caso de demissão sem justa causa. Difícil? Vou tentar ser mais clara. Essa multa de 10% foi criada em 2001. Quando a empresa demite um empregado SEM justa causa, ela paga aquela multa de 40% do FGTS para o funcionário, que imagino que todos saibam. O que eu não sabia, e por isso explico porque talvez você também não saiba, é que além desse valor, a empresa também paga uma multa adicional de 10%, para o governo. A justificativa na época da criação da multa era de que ela seria usada para cobrir um rombo nas contas do FGTS, e a previsão era de que durasse até junho de 2013.

A primeira coisa que eu tenho que destacar é que micro e pequenos empresários não pagam essa contribuição. Só empresas maiores, ou seja, só aqueles caras que JÁ LUCRAM BILHÕES explorando a força de trabalho alheia. (Serião, se você acha justo um dono de empresa, ou acionista, whatever, lucrar BILHÕES enquanto geral no chão da fábrica ganha um salário mínimo, já pode parar de ler por aqui porque não existe diálogo entre eu e você)

No meio do caminho, esse imposto acabou sendo direcionado para financiar programas sociais, em especial aquela lindeza chamada Minha Casa, Minha Vida. O fim dessa multa comprometeria, de verdade, o programa. Alguns deputados (os do PCdoB e Psol) argumentaram que a multa também seria um motivo a mais para evitar demissões desnecessárias sem motivação real.

O que eu via ali, ao meu redor, na “platéia”, era de cortar o coração. Uma, apenas UMA mulher, representante dos trabalhadores, beneficiária do programa Minha Casa, Minha Vida, estava lá, para “fazer pressão”. Uma. E o resto das arquibancadas cheias de representantes patronais, homens engravatados, donos de empresas que não são nem micro nem pequenas. Gente que pode se dar ao luxo de ir para Brasília, de ir até o Congresso numa quarta-feira a tarde para fazer pressão nos parlamentares. Todos eles com seus cartazinhos.

Entendo. Democracia é isso. E, como eu disse lá em cima, se o flanelinha pode entrar, o Eike também pode. Mas esse “poder” é relativo, porque as pessoas tem permissão mas não tem como ir até lá. E lá, naquela tarde, só eles podiam entrar. E eu quero dizer de novo que esse imposto incide sobre pessoas para quem esses 10% não vão fazer A MENOR FALTA. Eu acho engraçado as pessoas não se darem conta disso. Que o Eike quebrou, coitadinho, mas ainda tem DOIS VÍRGULA NOVE BILHÕES DE REAIS. Bilhões. Sabe o que é isso? E daí chia porque vai dar cents milzinho pra subsidiar moradia pra quem NÃO TEM ONDE MORAR. Tipo, porra!!!

Então, tavam lá, os Eikes-wannabe, em peso, com seus cartazes. E volta e meia um deputado abanava pra um deles, amiguinho. Cada deputado que ia lá e dizia SIM, eles aplaudiam, assobiavam. E a mulher solitária vaiava. E cada deputado que ia lá e dizia NÃO, eu, ela e o Ace aplaudíamos. E todos os Conde Dráculas olhavam feio pra nós, porque, né? Estávamos roubando o dinheiro deles (penso comigo quanto dinheiro eles roubam do governo, sonegando impostos, fazendo mil xunxos, fraudando licitações). E no final, a extinção da multa foi aprovada por 315 votos a 95. E a mulher ficou muito, mas muito puta. E ela começou a perder o controle e a xingar os caras. Não xingar, mas falar, apontar dedo, falar do programa social, falar que eles já tem dinheiro que chega, que tem gente que precisa. Os caras riam dela. Riam na cara dela. Zombaram dela. Diminuíram ela. Humilharam ela. E saíram comemorando. E meu olho, ah que óbvio, encheu de lágrimas. Porque eu achei muito, mas muito triste mesmo.

Triste porque ela foi a única que pôde ir até lá. E que apesar de eu achar a tal da democracia a coisa mais linda do mundo, eu queria muito que o povo soubesse mais sobre isso, e sobre que tipo de gente colocar lá dentro para que seja REALMENTE REPRESENTATIVA, sabe? Esses deputados que estão lá, eles não representam o povo. Eles representam A ELITE. Eles ganharam votos do povo porque fizeram a campanha certa, porque tem visibilidade, tem dinheiro, fazem pose de bons mocinhos e a gente cai, e a gente vota, porque a gente não sabe o que eles defendem no fundo no fundo porque a gente não sabe o que são partidos políticos e o que cada partido quer pro Brasil.

Esses deputados que estão lá, esses 315 deputados que estão lá e votaram a favor da classe empresarial, eles são justamente DA classe empresarial, eles receberam financiamento para a campanha de empresas, eles devem favores para os empresários e, acima de tudo, eles são AMIGOS dos empresários, então claro que eles vão defender os interesses de quem eles gostam ou de quem eles devem favores para. Aposto que depois da sessão muitos foram pra churrascaria juntos, empresários e deputados, felizes porque tavam alguns centavos mais ricos e fuderam com um programa do governo.

Os únicos partidos que se posicionaram a favor da manutenção da multa foram PT, PCdoB, PSTU e Psol.

Dilma vetou. 🙂

Agora o veto será votado essa semana.

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