Madame Bovary – SPOILER ALERT

Alguma coisa na Madame Bovary me abalou profundamente. Fiquei semanas pensando nela. Nela e em outras pessoas como ela.  E não só em pessoas mulheres. Em pessoas homens também. E no quanto, muitas vezes, as pessoas, todas as pessoas, simplesmente são o que são.

Madame Bovary foi o primeiro romance publicado do escritor francês Gustave Flaubert. Uma obra prima. Tive que lê-lo, e o fiz porcamente, para o curso do Coursera, The Modern and the Postmodern. Esse curso já rendeu alguns posts aqui – foi quase um divisor de águas na minha vida de pessoa-que-estuda. Mas até agora não tinha tido tempo o suficiente para desenvolver a ebulição que Madame Bovary trouxe para a minha cabeça. E hoje também não disponho desse tempo, mas uma hora as coisas têm que ser feitas.

A história do livro é sobre a esposa de um médico, Emma Bovary, que vive na zoeira tentando fugir das banalidades e do vazio da vida provinciana. A trama é bem simples na verdade. Não tem muito segredo. Só que a pira é a cabeça da Emma Bovary. A visão dela do mundo, altamente romantizada, e a busca dela por beleza, fortuna, paixão, status, e é a disparidade entre esses desejos dela e as realidades da vida que me deram raiva e ao mesmo tempo prenderam minha atenção.

Ela casa com o médico achando que ali vai encontrar toda a beleza/fortuna/paixão/status, e uma semana depois descobre que não. Vai pra uma festa no castelo toda linda, dança com o conde achando que ali vai encontrar toda a beleza/fortuna/paixão/status, mas a festa  acaba, as luzes apagam e ela percebe que não. Daí tem o primeiro affair achando que ali vai encontrar toda a beleza/fortuna/paixão/status e não muito tempo depois descobre que não. E assim por diante, e assim ad eternum.

 A vida inteira – A VIDA INTEIRA – essa mulher segue buscando coisas irreais, perfeições que não existem, cenários que ela leu em livros da adolescência, paixões estilo felizes-para-sempre, príncipes encantados, achou que se sentiria satisfeita morando em uma cidade maior, ou tendo um filho, ou tendo mais um caso extraconjugal, ou contraindo mais uma dívida.

“ela não era feliz, nunca o fora […] cada sorriso escondia um bocejo de tédio, cada alegria uma maldição, qualquer prazer um desgosto e os melhores beijos deixavam nos lábios apenas um irrealizável desejo de uma maior volúpia”

Em uma conversa com um amigo dias atrás, ele mencionou alguma coisa sobre alguma pessoa que tem uma vida meio fudida MAS é feliz. Eu já achava isso antes lá dentro da minha cabeça, mas agora tenho uma certeza lá dentro do meu coração: felicidade é muito mais um traço de personalidade do que uma fase ou um estado. Mas não to falando de felicidade eufórica, essa felicidade que todo mundo acha que seja felicidade mas não é. Tô falando de realização, de sentir-se bem em geral, de estar satisfeito com a própria vida. Algumas pessoas simplesmente NUNCA estão. Reforço para o simplesmente nunca.

Em um relacionamento do passado eu tive a arrogante esperança de salvá-lo da vida de merda que ele dizia levar. Eu iria dar o remédio certo para pressão, e iria programar finais de semana cheios de aventura, e iria mostrar que nem toda mulher não presta (sim, misógino, vejam vocês – eu não to imune a idiotices completas), e tudo ia ser lindo. Olha eu caindo novamente na armadilha do esforço sobre-humano para fazer o impossível (esforço mental, e físico também), para mostrar para alguém que NUNCA IRIA VER o quanto o mundo é lindo e cheio de possibilidades.

Ter visto uma imagem que o Alex Castro postou quase 1 ano depois do término foi o gatilho praquele riso nervoso e um baita: caralho, velho, é isso mesmo!!!

Multipla Escolha

Mas não dá pra levar isso só pro lado romântico-afetivo, isso tem que ser mantra pra vida. Pra relacionamentos casuais. Pra amizade. Até pra escolher alunos (ou seu professor, nutricionista, personal trainer). Não dá nem pra ensinar inglês pras Madames Bovary do mundo (aliás, ela começou a estudar italiano, mas logo viu que isso não traria a beleza/fortura/paixão/status que ela esperava e desistiu, não concluindo o curso – ah, me lembrou de tantos ex-alunos…).

Você não vai salvar ninguém. Você não vai conseguir FAZER alguém feliz. E nem infeliz, for that matter.

(Aliás, quem mais parece a Madame Bovary? Eu lembro imediatamente da Betty Draper, de Mad Men. Ah, e também da Francesca Johnson, a chatíssima dona de casa insatisfeita de As Pontes de Madison.)

(Eu tenho levado a sério esse lance de só me envolver com pessoas pré-salvas. E vale muito a pena, todo mundo deveria tentar. ❤ )

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Um comentário sobre “Madame Bovary – SPOILER ALERT

  1. Pingback: Sobre quando mataram o que restava de mulher em mim. | Georgia Martins Faust

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